Go ahead, punk. Make my day.

Archive for Outubro, 2010

Crítica: Robin Hood

robinhood_posterAs chamadas histórias de origem, aquelas que dão conta do passado de um personagem famoso, sempre foram contadas pelo Cinema. Seja em bons longas como O Enigma da Pirâmide (como Sherlock Holmes conheceu Watson) ou em besteiras como Ringu Zero (a origem de Sadako). Mas foi Batman Begins que se tornou a maior referência nos últimos anos ao reiniciar exemplarmente a história de Bruce Wayne na grande tela.

Robin Hood (Idem, EUA/Reino Unido, 2010) bebe da fonte e volta alguns anos para contar a história antes do mito das florestas de Sherwood. Assim como o Homem-Morcego do longa de Chris Nolan, o arqueiro Robin está mais sério e sisudo, o que talvez seja a mudança mais radical no personagem gaiato que povoa as consciências mundo afora. Há pouco espaço para o humor, que surge aqui e ali, mas nem de longe lembra aquele homem afetuoso e brincalhão de outrora, cujo charme advinha justamente dessas características. Para o personagem proposto, então, a escolha de Russel Crowe, acostumado com o tipo, caiu como uma luva. O que não garante o sucesso da empreitada. Essa descaracterização, apesar de correta para a proposta, cria um personagem completamente novo.

Esse Robin Hood inicia o longa com o sobrenome Longstride, lutando ao lado do Rei Ricardo (Danny Huston). É a morte do monarca que precipita toda a trama e fará Robin mudar o nome, conhecer Lady Marion (Cate Blanchett) e combater a nova coroa, que subjuga os aldeões.

Ainda que invista numa narrativa que tem personalidade, o cineasta Ridley Scott não está na melhor forma e não consegue criar cenas de batalhas como fez em Gladiador. Alguns momentos chegam a ser constrangedores. A batalha na praia, já quase no final do longa, é uma versão medieval do desembarque na Normandia de O Resgate do Soldado Ryan. Nem o clichê dos clichês, a câmera subjetiva que viaja como se fosse uma flecha, é evitado. O que não tira totalmente o mérito de Scott. No que se propõe ele executa bem e cria belos planos – os closes em Hood e seu arco são impecáveis plasticamente.

robinhood_pic2

Ao mesmo, Brian Helgeland consegue ser habilidoso em suas justificativas para quase todos os eventos, mas sofre para criar um romance verdadeiro entre Robin e Marion. Por outro lado sabe tirar ternura real da relação entre o protagonista e o pai de Marion, vivido esplendidamente por Max Von Sidow. Assim como as famosas intrigas políticas em nenhum momento quebram o ritmo de um filme obviamente calcado na grandiosidade das cenas de ação e em seu personagem-título. Pena que transformar o Xerife de Nottingham (Matthew Macfadyen) em um palerma faça parte das escolhas de Helgeland.

Ainda que esse Robin Hood para as novas gerações esteja anos-luz à frente de sua versão com Kevin Costner de 1991 (O Príncipe dos Ladrões), não se pode dizer que houve um crescimento da lenda. Se levar em conta que idéia inicial, Nottingham, contava uma história muito mais ousada, com Robin vilão e o xerife mocinho, terem dado à luz a mais uma versão apenas correta da história em detrimento de um projeto ambicioso, chega a ser um pecado.

Nota: 7

robinhood_pic1

 

Anúncios

Crítica: Nosso Lar

nosso-lar-posterNo Cinema, grandes orçamentos não são garantia de absolutamente nada. Michael Bay e seus Transformers de cifras monumentais, mas de qualidade inversamente proporcional, estão aí para provar. No caso de Nosso Lar (Idem, Brasil, 2010), com gordos 20 milhões de reais no bolso para a produção, nem o esmero visual que o próprio Bay põe à frente da trama é possível encontrar.

O filme, baseado no best seller homônimo do médium Chico Xavier, conta a saga de André Luiz (Renato Prieto) que, morto, vai do purgatório ao céu buscando a renovação da fé por meio de ensinamentos de espíritos que lhe acompanham durante a jornada.

Mas a realidade é que Wagner de Assis trabalha de forma quase amadora. Nos mais de cem minutos do longa, ele dá seguidos exemplos de seu despreparo na direção. Seja na falta de sutileza como na elipse dentro do bar em que André aproveita os “prazeres da vida” ao ter mulheres, bebida e cigarros à mão num primeiro movimento em travelling e está sozinho na volta da câmera. Ou na mais pura falta de cuidado como no instante em que um quarteto de cordas está em cena e os acordes feitos pelo violinista são tão falsos que até um leigo pode perceber.

Isso sem falar na péssima direção de atores. O talento natural de cada um conta mais que qualquer preparação de Assis. Veja o caso de Rosane Mulholland. Perceptivelmente menos talentosa que a maior parte do elenco, esteve em melhor forma em outros longas, mas aqui não passa de uma adolescente irritante e especialmente imbecil.

Presente do também roteirista Wagner de Assis. Tratando a história como uma grande palestra da doutrina espírita, sobra exposição e míngua a fluidez. Ambientado na maior parte do tempo no chamado Nosso Lar, colônia que acolhe espíritos em busca da redenção, as lições são passadas quase que em módulos a André (leia-se espectador), mas sem qualquer aprofundamento. Há uma cena em que o protagonista ouve uma “palestra” completa de certa ministra do lugar, que não chega a dois minutos, e em seguida comenta com outro espírito que não sabia que ali poderia haver tantas idéias impressionantes. Alguém deve ter perdido algo, já que nenhuma idéia impressionante é dita, a não ser que ele se refira ao polimento excessivo dos cumprimentos da ministra. E o que dizer de quando explode a II Guerra Mundial? Tomado como momento-chave, não passa de uma seqüência na qual vários espíritos são recebidos pelos habitantes do Nosso Lar, para depois ser totalmente esquecido.

nossa lar figura1

O projeto é tão perdido na vontade de ser grandioso que nem os efeitos visuais convencem – os quais devem ter consumido boa parte do orçamento. Quando não é claro o uso de chroma key, a exemplo da sala do governador, os efeitos se bastam em naves voando pelos ares e horizonte cortado por pássaros, além de paisagens que mais parecem ilustrações vistas do alto. Colabora para isso a direção de arte. Pobres, os cenários lembram ficções-científicas da década de 70 – inclui até mesmo camas suspensas saídas diretamente de Fuga do Século 23.

Fechando o pacote de escolhas erradas com uma trilha sonora etérea que não leva a nada e montagem descuidada e sem dinâmica, Nosso Lar ainda desperdiça o único momento que esboça emoção genuína. Na cena em que André revê a família e seu filho toca piano, a música diegética é substituída pela trilha piegas e a tudo é arruinado. Nem a boa atuação de Renato Prieto salva o momento.

Aliás, nem ele, nem a dinheirama gasta para uma produção cujo potencial é vasto, podendo ser explorado em vários gêneros. O escolhido não vai nem ao drama, nem ao terror, nem a qualquer outro, mas ao desperdício.

Nota: 4

Nosso Lar figura2

 


Ci-ci-ci-ci cinema

Os anos 90 puseram no mundo uma grande quantidade de rappers de gosto discutível – principalmente em seus figurinos. Entretanto, de lá também saíram verdadeiras pérolas como o personagem da vez. Exatamente em 1990, Ice MC soltou o maior sucesso da carreira, “Cinema”, uma gravação das mais divertidas cheia de nomes de medalhões da Sétima Arte (não só americanos) que tocou horrores nas rádios.

Tenho lembranças engraçadas da época, na qual, aos 6 anos, tentava ensaiar passos de break – sim, o rockeiro aqui tentou entrar na moda quando era criança, mas não deu certo, ainda bem. De qualquer forma, a nostalgia e o tema me obrigam a postar esse vídeo no Cinefilia e compartilhar dessa lembrança com vocês.

Todos os convidados

John Wayne, Eddie Murphy, Alain Delon, Mickey Rourke, Woody Allen, Sean Penn, Marilyn Monroe, Whoopi Goldberg, Fred Astaire, Kim Basinger, Clark Gable, Rachel Welch, Sylvester Stallone, Peter Cushin, Marlon Brando, James Dean, Charles Bronson, Robert Redford, Grace Jones, Jean Paul Belmondo, Schwarzenegger, Bette Davis, Christopher Lambert, Greta Garbo, Robert de Niro, Dustin Hoffman, Sean Connery, Roger Moore, Ian Fleming, Christopher Reeve, Lou Ferrigno, Clint Eastwood, Mastroianni, Alberto Sordi, Boris Karloff, Bruce Lee, Chuck Norris, Laurel & Hardy, Charlie Chaplin, Ice MC

 


Resumo (18 a 24 out)

Esta é uma área do Cinefilia na qual escrevo sobre todos os filmes que assisti fora dos cinemas durante a semana. É o mesmo Resumo da Semana da fase antiga do blog.

UP Disney PixarSe existe uma maneira de definir UP – Altas Aventuras, é por meio de sua sensibilidade. Um longa que tem nos primeiros 15 minutos o ápice de sua beleza – ao contar a linda história de Carl e Ellie, da infância à viuvez do velho homem -, mas que ainda guarda uma próxima aventura para voltar a fazer rir e marejar os olhos, merece muito respeito. Ainda mais quando cria personagens incríveis e ótimas cenas de ação, muitíssimo bem concebidas. Vá lá que sobra humanização na figura dos cachorros, que chegam a pilotar aviões, entretanto o rabugento (mas encantador) protagonista salva o longa de qualquer deslize ao demonstrar amor absoluto à esposa e transparecer melancolia e nostalgia como poucos filmes adultos conseguem fazer – repare como ele é chamado de guri por Ellie quando criança e como assim chamará o gordinho Russel décadas mais tarde. Delicado, emocionante e divertido. Pixar novamente dando aula. Nota: 8,5



Sexta no Cinema

Coluna Sexta no Cinema dessa semana no ar do portal Uipi!

Confiram: Voltando a ver vultos, com Atividade Paranormal 2, Piranha 3D e mais.


Crítica: As Melhores Coisas do Mundo

As melhores coisas do mundo posterTem algo nos adolescentes que encanta. Ingenuidade, revolta e uma fome incrível por viver fazem dessa fase uma das mais conturbadas da vida de qualquer um – mal sabem que os problemas estão apenas começando. Está certo que a ânsia dos teens muitas vezes se transforma na chamada “aborrescência”, algo que qualquer pai sabe do que se trata – insolência é a principal característica. O cinema adora essa turma, seja propondo produtos de consumo rápido, seja tentando colocá-los na tela. Mas a verdade é que poucos conseguem a façanha de fugir dos estereótipos.

Laís Bodanzky e seu As Melhores Coisas do Mundo (Idem Brasil, 2010) conseguiram. A intimidade com a qual a diretora apresenta seus personagens é o tiro mais certeiro da produção. A câmera da diretora coloca o público sentado no chão em meio à roda de amigos, jantando com a família e também sabe quando deixar o protagonista, Mano (Francisco Miguez), em paz. É a história dele que se segue durante 100 minutos e apesar dos chavões, nada mais natural do que dizer que alegrias, decepções e aprendizados se passam durante esse tempo.

A ligação estabelecida com o núcleo principal da trama é quase pessoal – além de Mano, sua mãe (Denise Fraga), irmão (Fiuk), o pai (Zé Carlos Machado) e a melhor amiga Carol (Gabriela Rocha). A naturalidade de cenas como o papo sobre a primeira vez entre Mano e o irmão ou a informalidade dos assuntos entre os garotos na escola levam a plateia para dentro da narrativa. O longa engrena a partir da separação de Denise e Zé Carlos, cujo motivo irá fazer os dois rapazes da casa se revoltarem, além de criar uma grande ferida na mãe.

OK, há problemas. Personagens por vezes clichê (a loira gostosona), ritmo oscilante (excesso de cenas com a problemática relação de Fiuk e a ex-namorada) e final forçado, que até tenta se justificar, mas não há cena alguma que demonstre o tamanho do problema e a radicalidade da solução encontrada por certo personagem.

As Melhores Coisas do Mundo fig1

Os temas são fortes, envolvem sexualidade, amor e depressão juvenil. Ainda que falte coesão maior entre esses elementos – principalmente o último – dentro da vida dos personagens, Bodanzky consegue extrair emoção e imprimir na tela a energia de tudo o que é vivido pelos jovens, seja no exagero deles, seja na real intensidade dos sentimentos.

Alguns momentos são marcantes. A abertura é genial, provando que o longa será povoado de meninos e meninas, não de homens e mulheres. Há a garota idealizada, o diálogo difícil com o pai ao saber que ele sairá de casa e a arrepiante e delicada seqüência em que mãe e filho atiram ovos na parede – talvez a melhor de todas.

Não fosse pelos minutos finais, mais parecidos com histórias românticas de Goethe – sem a importância do autor -, ou alguns clichês bobos – a descoberta de que o amor está mais perto do que se imaginava -, As Melhores Coisas do Mundo poderia ser, ele mesmo, uma das melhores coisas do Cinema nacional. Não é, mas do jeito que ficou, trata-se de um belo retrato da juventude de muitos que colocam os olhos no filme. E ainda tem “Something” dos Beatles para embalar. Que tal?

Nota: 7,5

as-melhores-coisas-do-mundopic2


Resumo (11 a 17 out)

Esta é uma área do Cinefilia na qual escrevo sobre todos os filmes que assisti fora dos cinemas durante a semana. É o mesmo Resumo da Semana da fase antiga do blog.

Apocalypse Now PosterApocalypse Now* (Idem, EUA, 1979)

Apocalypse Now não é sobre a guerra, é sobre seus efeitos. Nos mais de 150 minutos praticamente não há combate entre americanos e vietnamitas, mas sim a luta interna do Cap. Willard contra a demência num lugar hostil. “Saigon, shit!”. A frase que abre o filme dá o tom de todo o longa, depois de uma seqüência magistral (e clássica) com helicópteros sobrevoando o campo de batalha, entrecortada com Willard em seu quarto, ao som de “The End”, do The Doors. Na subida do rio em busca do Cel. Kurtz, o roteiro mistura bravura e loucura em cenas que vão da mais terna relação de amizade ao ápice da bestialidade, a exemplo da cena das coelhinhas da Playboy – um misto de comédia e drama. Para tentar entender como o Cel. cheio de condecorações se transformou no maior inimigo americano, o protagonista, aos poucos, passa a pensar como ele, cimentando suas convicções por meio do discurso de Kurtz sobre natureza humana. Ainda que pareça insano, a lucidez sobre a situação na qual se encontram é maior do que se pode imaginar. Filme forte, agressivo e, acredite, humano. Nota: 9,5

Legion posterLegião* (Legion, EUA, 2010)

Não que esperasse de Legião um filme de arte sobre a relação homem-Deus, mas o roteiro, ainda que bom de diálogos e situações, é bem vazio. Na história, Deus perdeu a fé nos homens e quer destruí-los, mas um anjo pensa o contrário e quer salvar a criança que, sabe-se lá o motivo, está para nascer e poupará a humanidade. Ao invés de um dilúvio, no entanto, o Todo Poderoso manda humanos possuídos por anjos (no melhor estilo Agente Smith, veja e entenda) para acabar com o reduto humano que protege o bebê. Por vezes tenso, por vezes violento, o filme funciona como sessão pipoca, cheio de frases engraçadas e/ou de efeito mais algumas boas cenas de ação. Mas no final, nada faz muito sentido. A frase que explicaria tudo “Eu dei a Ele o que precisava”, na verdade é só uma justificativa para a saída de um beco… supostamente sem saída no final do longa, que segue apocalíptico quando deveria estar em paz. Nota: 6

*Filme assistido pela primeira vez