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Crítica: Tropa de Elite 2

Tropa 2“Apesar de possíveis coincidências com a realidade, essa é uma obra de ficção”. A frase que abre Tropa de Elite 2 (Idem, Brasil, 2010), não poderia estar mais certa. E tão errada. Certa, óbvio, por aquela ser uma peça ficcional, errada pelas tangências com a realidade serem muito mais que coincidências, mas sim um retrato realista e depressivo do Brasil. Ironia fina.

O longa segue a história de Nascimento (Moura), personagem cravado na memória dos brasileiros, que inicia o longa não mais como Capitão, mas Tenente Coronel. Logo na primeira cena é criada grande expectativa ao colocá-lo em uma emboscada, teoricamente, sem escapatória. Em flashback, no entanto, vai ser contado como chegou até ali. Primeiro ele deixa o Bope após ação desastrada em Bangu I. Mas volta como subsecretário de segurança do Rio de Janeiro. O agora Capitão Matias (André Ramiro) é tomado como bode expiatório do massacre na penitenciária carioca e é expulso do Bope. Enquanto isso, como o próprio Nascimento ressalta, o Batalhão Operações Especiais se torna uma máquina de guerra, o que vai gerar efeitos colaterais não esperados pelo protagonista.

Voltando ao papel de sua vida, Wagner Moura mostra como conhece Nascimento e repete maneirismos vistos há três anos, ao mesmo tempo em que cria novas camadas ao personagem. Repare que o durão de outrora agora deixa escapar certa compreensão e doçura quando pisca os olhos várias vezes para controlar sua raiva ao discutir com Matias na prisão militar e no momento no qual o filho diz saber que ele é seu pai, o que cria um silêncio emocionante.

Por falar nisso, a vida pessoal de Nascimento, fator humanizador no longa original, volta a ter no filho o ponto central, mas dessa vez no ódio que ele sente pelo pai. Filmado em pequena profundidade de campo toda vez que uma conversa (ou discussão) familiar se desenrola, José Padilha e o diretor de fotografia Lula Carvalho dão um tom intimista muito bem-vindo ao longa cuja técnica de ação de rua chama mais a atenção.

Ou melhor, não chama mais a atenção do que a ideologia da produção. É incrível perceber como tantos alvos recebem tiros certeiros do roteiro de Padilha e Bráulio Mantovani. A política e as milícias policiais nos morros do Rio são os principais deles. A partir do momento em que os traficantes começam a perder o poder nos morros, a corrupção policial se aproveita da brecha e se torna o próprio poder paralelo, ligando-se intimamente à política, que já vinha sendo mostrada em seus gabinetes pelo filme em jogos visando, exclusivamente, a manutenção de suas cadeiras nos palácios do poder. Numa clara referência aos filmes de Martin Scorsese, Daniel Rezende monta o modus operandi da milícia numa comunidade, criando um tipo de Os Bons Companheiros à brasileira. Não à toa que o esquerdista Fraga (Irandhir Santos) os chama de Máfia.

Tropa de Elite 2 pic1

Trabalhando ainda os dois lados da mídia nesse jogo de interesses, Tropa de Elite 2 não se furta em mostrar um apresentador sensacionalista se beneficiando da fama na política e ecos de Tim Lopes ao enfocar uma jornalista que investiga o esquema dos milicianos e as ramificações políticas até as últimas conseqüências – o que dá origem a uma tragicômica cena saída diretamente de Hamlet e o famoso “ser ou não ser”.

Se há um problema no filme, ele está nas narrações em off expositivas demais em certos momentos. O que não se justifica, mas é uma solução para imensa quantidade de personagens e situações que chega a tirar Nascimento um pouco de cena e poderia levar o longa a uma metragem absurda e, consequentemente, num decréscimo do ritmo na trama.

O terço final absurdamente tenso só prova a inteligência de Mantovani. As intrincadas linhas narrativas se precipitam convergindo e amarrando perfeitamente o roteiro. A crítica social é ferina e mostra o gigantesco crescimento de Nascimento, que via a polícia como solução para tudo, mas que finaliza esse arco dramático dizendo que a PM do Rio deveria acabar.

Um elegante movimento de grua dá idéia de como esse discurso pede para sair de seu depoimento e viajar o mais longe possível, chegando aos ouvidos de um palanque e culminando em constatações e questionamentos duros – “O sistema é uma articulação de interesses escrotos”, “Sabe quem paga pelo sistema?” -, acompanhados de muito perto nos quase 120 minutos desse que é um filme documento, cuja estréia deveria ter sido antecipada em alguns meses, bem antes do pleito de outubro no Brasil.

Nota: 9,5

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4 responses

  1. Rick Paranhos

    Uma boa crítica sobre um dos melhores filmes que vi este ano. As nuances relatadas e o que se vê na telona tem fidelidade. Visão de quem entende do assunto. Não posso dizer das outras críticas, mas desta dou nota 9. Recomendo o óbvio, mas que, pouco fazem: a leitura da crítica antes de assistir ao filme.

    29 de Outubro de 2010 às 9:02 PM

    • É com eu disse, este filme deveria ter entrado em cartaz meses atrás.

      29 de Outubro de 2010 às 10:06 PM

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