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Crítica: Nosso Lar

nosso-lar-posterNo Cinema, grandes orçamentos não são garantia de absolutamente nada. Michael Bay e seus Transformers de cifras monumentais, mas de qualidade inversamente proporcional, estão aí para provar. No caso de Nosso Lar (Idem, Brasil, 2010), com gordos 20 milhões de reais no bolso para a produção, nem o esmero visual que o próprio Bay põe à frente da trama é possível encontrar.

O filme, baseado no best seller homônimo do médium Chico Xavier, conta a saga de André Luiz (Renato Prieto) que, morto, vai do purgatório ao céu buscando a renovação da fé por meio de ensinamentos de espíritos que lhe acompanham durante a jornada.

Mas a realidade é que Wagner de Assis trabalha de forma quase amadora. Nos mais de cem minutos do longa, ele dá seguidos exemplos de seu despreparo na direção. Seja na falta de sutileza como na elipse dentro do bar em que André aproveita os “prazeres da vida” ao ter mulheres, bebida e cigarros à mão num primeiro movimento em travelling e está sozinho na volta da câmera. Ou na mais pura falta de cuidado como no instante em que um quarteto de cordas está em cena e os acordes feitos pelo violinista são tão falsos que até um leigo pode perceber.

Isso sem falar na péssima direção de atores. O talento natural de cada um conta mais que qualquer preparação de Assis. Veja o caso de Rosane Mulholland. Perceptivelmente menos talentosa que a maior parte do elenco, esteve em melhor forma em outros longas, mas aqui não passa de uma adolescente irritante e especialmente imbecil.

Presente do também roteirista Wagner de Assis. Tratando a história como uma grande palestra da doutrina espírita, sobra exposição e míngua a fluidez. Ambientado na maior parte do tempo no chamado Nosso Lar, colônia que acolhe espíritos em busca da redenção, as lições são passadas quase que em módulos a André (leia-se espectador), mas sem qualquer aprofundamento. Há uma cena em que o protagonista ouve uma “palestra” completa de certa ministra do lugar, que não chega a dois minutos, e em seguida comenta com outro espírito que não sabia que ali poderia haver tantas idéias impressionantes. Alguém deve ter perdido algo, já que nenhuma idéia impressionante é dita, a não ser que ele se refira ao polimento excessivo dos cumprimentos da ministra. E o que dizer de quando explode a II Guerra Mundial? Tomado como momento-chave, não passa de uma seqüência na qual vários espíritos são recebidos pelos habitantes do Nosso Lar, para depois ser totalmente esquecido.

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O projeto é tão perdido na vontade de ser grandioso que nem os efeitos visuais convencem – os quais devem ter consumido boa parte do orçamento. Quando não é claro o uso de chroma key, a exemplo da sala do governador, os efeitos se bastam em naves voando pelos ares e horizonte cortado por pássaros, além de paisagens que mais parecem ilustrações vistas do alto. Colabora para isso a direção de arte. Pobres, os cenários lembram ficções-científicas da década de 70 – inclui até mesmo camas suspensas saídas diretamente de Fuga do Século 23.

Fechando o pacote de escolhas erradas com uma trilha sonora etérea que não leva a nada e montagem descuidada e sem dinâmica, Nosso Lar ainda desperdiça o único momento que esboça emoção genuína. Na cena em que André revê a família e seu filho toca piano, a música diegética é substituída pela trilha piegas e a tudo é arruinado. Nem a boa atuação de Renato Prieto salva o momento.

Aliás, nem ele, nem a dinheirama gasta para uma produção cujo potencial é vasto, podendo ser explorado em vários gêneros. O escolhido não vai nem ao drama, nem ao terror, nem a qualquer outro, mas ao desperdício.

Nota: 4

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4 responses

  1. Bem fraco esse filme mesmo.

    27 de Outubro de 2010 às 7:18 PM

    • Para mim, até agora, o melhor filme do ano é brasileiro (Tropa de Elite 2). E o pior também (Nosso Lar).

      27 de Outubro de 2010 às 9:10 PM

  2. Luciana M

    Nosso Lar é um filme espiritualista e como tal,atendeu muito bem ao fim! Tropa de Elite I,está baseado em uma realidade que já conhecíamos faz tempo aqui no Rio e do qual queremos esquecer e nunca mais viver! Ao contrário dos senhores,prefiro Nosso Lar,cuja
    produção foi aplaudida de pé ao final do filme,assim como Chico Xavier.Ok,vivemos em um mundo materialista sim,mas não precisamos eternizar a violência! Precisamos fazer filmes que nos fazem meditar sobre ela,se ela é realmente necessária! Tá a Polícia é corrupta e os bandidos continuam fazendo atrocidades.E o quê foi feito além de mascarar a realidade??? NADA! Portanto,assistir a algo realmente real,como é a vida espírita e a justiça Divina ( que por sinal funciona ),acalenta aos nossos corações!

    26 de Junho de 2012 às 11:43 PM

    • O problema de Nosso Lar não está em nenhum ensinamento ou abordagem espiritualista, mas sim na sua execução como Cinema. Essa, sim, falha e que não cumpre a tarefa, ao meu ver, de contar uma história de maneira cadenciada e que desperte o interesse de qualquer público, independentemente de sua religião. Tome por base o próprio longa Chico Xavier, esse sim, bem feito e que conta sua história predendo nossa atenção. Outro exemplo é Amor Além da Vida, o qual ganhou uma crítica minha recentemente https://blogcinefilia.wordpress.com/2012/06/26/resumo-20-a-24-jun/

      26 de Junho de 2012 às 11:48 PM

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