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Archive for Novembro, 2010

Crítica: Fúria de Titãs (2010)

clash_of_the_titans_2010_posterRefilmagens só são perdoáveis com uma motivação alheia aos ganhos na bilheteria. Fúria de Titãs (Clash of the Titans, EUA, 2010), claro, visa a bilheteria, mas tem peito o bastante para criar uma história própria – ainda que não funcione o tempo todo.

O cineasta francês Louis Leterrier parecia uma escolha arriscada para um projeto que tinha todo o peso das criações em stop motion do mago Ray Harryhausen para o Fúria original, de 1981 – um clássico infanto-juvenil. Mas no fim das contas ele foi um bom maestro para o espetáculo de ação e efeitos visuais que é o remake.

Justamente na tecnologia empregada para o novo longa sobre a aventura de Perseu está o maior acerto. Se Harryhausen conseguiu criar o mundo fantasioso com muito charme, não há como negar que os efeitos digitais elevam a outro patamar seqüências como a dos escorpiões gigantes. Perde em suspense na criação de uma medusa nem tão realista assim, mas ganha em impacto visual nos vôos de Pégaso e no aparecimento do Kraken.

clash_of_the_titans-2010-perseu

Assim chegamos ao roteiro. A trama é alterada acertadamente, dando um background decente a Perseu, que em 1981 era apenas um semideus protegido pelo pai Zeus que entrava na batalha por estar apaixonado pela princesa em perigo. Motivação rasteira. Dessa vez, no entanto, Sam Worthington capricha na cara de malvadão em busca de vingança pela morte do pai adotivo. Culpa de Hades (Ralph Fiennes) que não existia no original e aqui surge como grande vilão – e dos bons, criando intrigas e de visual arrebatador.

Entretanto, as escolhas nem sempre são das melhores. Se é interessante que Perseu tenha uma família adotiva, simplesmente não há como criarmos qualquer vínculo com os personagens. Em menos de 10 minutos, depois de dizer poucas frases piegas, o pai do semideus morre e todo o ódio de Perseu se torna apenas uma convenção para a trama. E convenhamos, os coadjuvantes estão lá apenas para morrerem no lugar do protagonista. Mesmo os bons, a exemplo de Draco (Mads Mikkelsen), vão encontrar seu destino trágico, não se iluda.

De qualquer forma, Fúria de Titãs merece a luz do dia por sido talhado numa bela fotografia, que mistura ambientes iluminados e sombrios (quando necessário), e efeitos visuais bem acabados, em meio à ação empolgante, cheia de ótimas coreografias e edição ritmada. Entretenimento antes de tudo. Esquecível, mas com embalagem vistosa.

Nota: 7

Clash-of-the-Titans-2010-Kraken

 


Resumo (22 a 28 nov)

misery-posterLouca Obsessão* (Misery, 1990). De Rob Reiner

Um filme que trabalha com o mínimo e obtém o máximo. A trama é simples: escritor famoso sofre acidente de carro grave e é resgatado por uma fã – “a número um”. Com várias fraturas, ele recebe cuidados dela, uma enfermeira. Logo vai perceber que as intenções de Annie é mantê-lo ali o maior tempo possível. Não há fotografia escura, sustos, nem trilha sonora pesada ou qualquer outro subterfúgio para transformar a situação num pesadelo. Por si só, a loucura da interpretação impecável de Kathy Bates vale mais que qualquer truque. Obcecada e instável, faz de tremer durante seus arroubos, chegando ao clímax quando, munida de uma marreta, apenas sublinha perversamente que o escritor (James Caan, ótimo) não terá qualquer chance. Rob Reiner ganha muitos pontos ao ser realista e evitar soluções fáceis, colocando na tela apenas com uma simples camisa suada toda a dificuldade que o personagem de Caan tem para tentar uma escapada. E como é cansativo vê-lo preso àquela cama, olhando sua algoz sempre de um ponto mais baixo do plano. Menos é mais mesmo. Nota: 8,5 

Clash of the Titans_1981 posterFúria de Titãs (Clash of the Titans, 1981). De Desmond Davis

Não é possível dizer que Fúria de Titãs tenha envelhecido da melhor forma possível, da mesma forma que não se pode ignorar o encantamento da maior parte das criaturas criadas em stop motion por Ray Harryhausen. Se o vôo da gaivota logo nos primeiros minutos do longa não é dos melhores, toda a seqüência no covil da Medusa ainda é um dos pontos altos da tecnologia empregada para a criação da titã. Tensa, bizarra e criativa, a batalha entre ela e Perseu mostra como os efeitos visuais da época podem ser eficientes. Pena que a primeira metade do longa seja confusa e de ritmo truncado, em demérito do próprio herói, que perde em profundidade, sendo guiado apenas pelo sentimento por Andrômeda – e certo egoísmo, com o intuito de se tornar rei. Quando engrena, no entanto, o filme passa a prender mais a atenção, principalmente ao focar a vingança de Calibos, único personagem que tem motivação real e se mostra tridimensional – mimado, ele busca vingança contra os deuses por ter se tornado uma criatura horrorosa. Nota: 7

Percy Jackson posterPercy Jackson e o Ladrão de Raios (Percy Jackson & the Olympians: The Lightning Thief, 2010). De Chris Columbus

Tudo bem que o filme é uma diversão sem grandes pretensões – a não ser a de virar uma série de sucesso no Cinema -, mas a falta de cuidado com o roteiro do longa assusta. A trama versa sobre o filho de Poseidon, Percy, que descobre ser um semideus depois da acusação de que ele teria roubado o raio-mestre de Zeus. Os motivos dele estar sendo acusado em momento algum são postos em cena. Ao invés disso, a narrativa segue o resgate da mãe do protagonista. É fácil perceber os truques do roteiro para esconder (mal) quem seria o tal ladrão. Sem querer estragar o final, mas a quantidade limitada de personagens importantes e a ênfase em buscar características positivas em um dos coadjuvantes logo dão idéia de quem será o “mão-grande”. Ainda que tenha bons efeitos visuais e use bem a trilha sonora incidental (de Lady Gaga a AC/DC), O Ladrão de Raios não dá qualquer profundidade aos personagens para que a história caminhe em ritmo acelerado. Investindo numa dinâmica entre os três personagens principais que lembra e muito a vista em Harry Potter (a menina aplicada, o amigo engraçadinho e o protagonista escolhido), o filme chega a seu final com alguns absurdos – Como é, padrasto fedido para esconder o cheiro de Percy? O Olimpo está em peso nos Estados Unidos? -, envolto de diversão rápida e inofensiva. Só espero não atingir sua pretensão e ganhar continuações. Nota: 6

*Filme visto pela primeira vez


Curta – Nuit Blanche

Você gostou de Sin City? Mal sabe que o cineasta Arev Manoukian e seu Nuit Blanche conseguiram levar a tecnologia usada no longa à frente. Não, eles não inventaram nada, apenas souberam utilizar as mesmas técnicas para criar um espetáculo em preto e branco e slow motion de estética ímpar – repare na rima visual dos estilhaços de vidro. Impecável trabalho no qual as imagens dizem tudo (tudo mesmo) e pelo qual a tecnologia trabalha sem ser o próprio fim. Veja em HD.

Aqui você pode ver o making of de Nuit Blanche, tão incrível quanto o próprio.

 

 

 


Resumo (15 a 21 nov)

Le Locataire posterO Inquilino (Le Locataire, 1976). De Roman Polanski

Roman Polanski faz seu terceiro filme sobre apartamentos mostrando o terror do cotidiano em uma grande cidade – precedido por Repulsa ao Sexo e O Bebê de Rosemary. Mais uma vez trabalha com a loucura, mas com um elemento a mais, a comédia. Não daquelas rasgadas, físicas e sim num misto de estranheza e desconforto na figura protagonista que o próprio Polanski interpreta. Frágil, ele vai se tornando cada vez mais ligado ao apartamento que aluga, cuja locatária anterior suicidou-se. Imagens estranhas – a mulher enfaixada na cama é algo aterrador – e paranóia – a câmera voando e mostrando os vizinhos como numa arquibancada para ver um salto – se misturam num filme que tem sua força na psique fragmentada do protagonista. O Inquilino se fecha ciclicamente e desesperançado, com um dos momentos mais bizarros do Cinema. Nota: 8,5


HP and the Half-Blood PrinceposterHarry Potter e O Enigma do Príncipe (Harry Potter and the Half-Blood Prince, 2009). De David Yates

Se o filme anterior, A Ordem da Fênix, havia mostrado novos caminhos para a franquia, com uma temática adulta e política, aqui o diretor David Yates e o roteirista Steve Kloves investem ainda mais na personalidade dos jovens, mostrando de uma vez por todas que eles cresceram. Os hormônios saltitam na mesma proporção em que as sombras cobrem Hogwarts. Não há espaço para céu aberto na escola e os personagens se esgueiram pelos cantos escuros, seja para conspirar, seja para consumar o pedido dos desejos – não se assuste ao encontrar casais em meio a becos. A história segue bem à frente, com roteiro rápido e ritmado – os acontecimentos vão se sucedendo sem muita enrolação, mas ainda consegue guardar alguns segredos. Falha apenas nos minutos finais ao não conseguir dar toda a emoção necessária com a morte de certo personagem, nem fluidez nos momentos finais, claramente deixados para seguirem adiante em As Relíquias da Morte. Nota: 8


Roarrrr!!!

Dizem por aí que Arnold Schwarzenegger não é dos melhores atores (vai contestar?). Mas de grito o cara é bom. Pelo menos aos olhos e ouvidos do pessoal do FilmDrunkDotCom, sim. Tanto que no vídeo abaixo eles disponibilizaram os gritos de quase toda a filmografia do astro governador da Califórnia nascido na Áustria. Só faltaram os filmes da série Exterminador do Futuro – por motivos androidicos óbvios.

Por meio dos berros você descobre que o sotaque dele mudou nas últimas décadas e eu vejo que conheço a filmografia do Governator como não podia imaginar.

Roarrr!!!

Vi aqui


Morgan Freeman Co.

Infográfico interessante mostrando como seria uma cadeia de comando apenas com personagens de Morgan Freeman. Saímos do topo com o próprio sendo Deus em Todo Poderoso até chegarmos à base do organograma com o divertido motorista de Conduzindo Miss Daisy. No meio do caminho passamos por um escravo alforriado (Amistad), um diretor de escola (Meu Mestre, Minha Vida) e dois presidentes (Impacto Profundo e Invictus). Dê uma olhada, clique na imagem.

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Resumo (8 a 14 nov)

Esta é uma área do Cinefilia na qual escrevo sobre todos os filmes que assisti fora dos cinemas durante a semana. É o mesmo Resumo da Semana da fase antiga do blog.

exorcism_of_emily_rose_posterO Exorcismo de Emily Rose (The Exorcismo of Emily Rose, 2005). De Scott Derrickson

Se existe uma pessoa responsável pelo sucesso dessa produção, ela se chama Jennifer Carpenter. Trabalhando no limite de seu corpo, ela se contorce, grita, sofre e ainda passa um ar de fragilidade que faz com que sua possessão leve agonia ímpar à tela. Claro que o diretor Scott Derrickson e o montador Jeff Betancourt têm boa parcela de responsabilidade pela qualidade do longa, que mistura drama de tribunal e terror. Toda a sequência do celeiro, que começa no quarto e segue pela fazenda onde Emily vive é a prova maior de que pode-se criar algo original num longa de exorcismo, fugindo da sombra de O Exorcista, de William Friedkin. De cortes rápidos e direção intensa, eles elevam a tensão ao quadrado. O fato da história da garota ser entrecortada pelo julgamento do padre que realizou o procedimento ajuda a dar mais peso a cada cena em que Jennifer interpreta a personagem-título, num trabalho físico impecável. Destaque também para os ótimos Tom Wilkinson e Laura Linney. Nota: 8

antichrist posterAnticristo* (Antichrist, 2009). De Lars Von Trier

Lars Von Trier é conhecido pelo cinema nada convencional – pra dizer o mínimo. Ver um filme de terror dele, então, é tomar um soco na mente, como já disse um amigo meu. A história do casal que perde o filho por negligenciá-lo enquanto fazem sexo é totalmente perturbadora. Cheio de referências psicológicas e tratando do preconceito mítico contra a mulher, o cineasta não tem qualquer pena de seus personagens criando situações absurdamente más. Não se assuste se em duas ou três cenas ver a natureza espelhando o momento de dor personagens de forma torturante – um pássaro filhote que cai do ninho e é estripado por outro adulto ou uma corsa que exibe um parto malsucedido. Sempre num tom altamente soturno e depressão latente, Anticristo tem câmera quase sempre no ombo, nervosa, mas que sabe ser elegante e filmar em slow motion belissimamente – a sequência de abertura é maravilhosa. Assim como não tem qualquer pudor em expor sua natureza má, passando do terror psicológico ao quase gore numa das viradas mais diretas que o Cinema já experimentou. Nota: 8,5

man-som-hatar-kvinnor-posterOs Homens que Não Amavam as Mulheres* (Män som hatar kvinnor, 2009). De Niels Arden Oplev

Baseado na coleção de livros “Millenimum”, o longa é um eficiente thriller cujos personagens são realmente fascinantes, em particular Lisbeth Salander, vivida com paixão por Noomi Rapace. De visual dark, ela é uma ótima investigadora cujos problemas do passado ainda a assombram. Ela irá se unir ao jornalista Mikael Blomkvist (Michael Nyqvist) na busca por uma garota desaparecida há 40 anos. Não que o filme seja dos mais surpreendentes, é a maneira com que a narrativa se desenvolve que faz toda a diferença. Tirando um problema ou outro, como vários e desnecessários establishing shots, o diretor Niels Arden Oplev sabe dar peso aos problemas vividos por Lisbeth e filma de maneira crua suas cenas mais pesadas – com um trabalho de som primoroso. Fora que o desenrolar da narrativa é sempre instigante. Pena que o clímax chegue um pouco cedo demais e o momento que deveria ser de maior emoção não funcione totalmente, fora que a cena final descaracteriza o tom do longa. Ainda bem que o se viu até ali é forte o bastante para não ser eclipsado. Nota: 8

*Filme visto pela primeira vez