Go ahead, punk. Make my day.

Crítica: Senna

Senna Doc posterDocumentário também é cinema e como tal deve abusar de imagens – tanto quanto de seus entrevistados – para obter um bom resultado. Senna (Idem, Reino Unido, 2010), então, torna-se quase um tipo de cartilha nesse quesito.

Em nenhum momento os entrevistados do filme dirigido por Asif Kapadia dão as caras. As imagens são casadas com seus depoimentos em off, deixando que elas falem por si. Não que isso seja um modelo fechado, entretanto a verdade se torna maior quando se pode ver a imagem sem a intromissão de alguém falando à câmera. Ou melhor: em diversas passagens, o longa tira por completo as narrações e a seqüência de imagens fazem o trabalho. Brilhantemente, por sinal. Quando o off anuncia a primeira mudança de equipe de Senna na Fórmula 1, vemos uma McLaren em primeiro plano que, ao ser colocada nos boxes, dá lugar à imagem da Lotus pela qual o brasileiro disputaria a temporada de 1985. Um instante genial, afinal, brinca com a idéia de que a antiga escuderia vermelha e branca será o futuro, mas até lá Ayrton ainda faria história com o carro preto.

A propósito, a história que deu origem ao mito Ayrton Senna é entendida facilmente e inebria de tal forma que não espanta o documentário esquecer-se de pintar o lado mais humano do brasileiro. Assim, surge um personagem quase sem defeitos. Sempre com uma fé inabalável, ele é mostrado preocupado com a segurança de seus companheiros – é um dos primeiro a correr ao circuito quando da morte de outro piloto – e evita a qualquer custo a chamada “politicagem” da F-1, que, aliás, macula a pureza do atleta quando o tira do sério. Em dado momento, Ron Dennis lembra que ele era bom de pista, mas não na política do esporte.

Mas dentro do carro não há como negar que Senna estava num patamar diferente dos demais corredores. Vide o GP de Mônaco de 1984, o qual só não venceu devido à interrupção pedida por Alain Prost por causa da chuva, e a emocionante primeira vitória no Brasil, em 1990, quando o documentário, depois de mostrar todos os problemas que o carro teve no câmbio, se concentra nos gritos de comemoração de Senna via rádio.

Senna doc pic2

Deixando clara a rivalidade e posterior inimizade entre Alain Prost e Ayrton Senna, a produção passa a maior parte do tempo, falando (e provando) de que maneira a influência do francês dentro do comando da FIA afetava a relação. A certa altura, o então presidente da instituição que controla da F-1, o também francês Jean Marie Balestre, desclassifica o piloto brasileiro por ele ter voltado à pista após um toque entre os carros claramente causado por Prost no GP de Suzuka, em 1989 – assim ele venceu o campeonato. Essa foi uma das maiores decepções do brasileiro, que chegou a cogitar não correr mais.

Briga que se torna totalmente irrelevante quando o documentário passa a contar o trágico fim de semana no qual Ayrton morreu. Diminuindo o ritmo e se tornando claramente mais sombrio, Senna passa por todos os acontecimentos que anteciparam o acidente do piloto: a batida cinematográfica de Rubens Barrichello, a morte de Roland Ratzenberger durante os treinos, um atropelamento nos boxes e a preocupação estampada no rosto de Senna antes do GP de San Marino.

E se minutos antes Senna contava que no cockpit se sentia numa dimensão diferente e a imagem o segue na câmera on board até que uma batida o traz de volta à realidade, a mesma lógica é usada na volta em que o piloto perde-se na curva Tamburello. Com a visão de dentro do carro, o diretor Asif Kapadia faz com que o espectador siga, bem ao lado de Ayrton, os momentos finais do mito. A rima visual é sinistra, mas o que se segue é a consagração de um esportista que virou mais que foco de torcida, mas símbolo de um país. Arrepiante e triste.

Nota: 8,5

senna doc pic1

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