Go ahead, punk. Make my day.

Crítica: A Rede Social

The-Social-Network-movie-posterO que fascina tanto em A Rede Social (The Social Network, EUA, 2010) não é só a história de um prodígio que construiu um império antes dos 26 anos, mas a forma com a qual o diretor David Fincher leva isso para as telas. Marcado por trabalhos meticulosos e complexos (Clube da Luta, Se7en), neste oitavo longa ele demonstra enorme segurança e maturidade. O resultado disso é um filme cujos profissionais que trabalham ao lado de Fincher também conseguem resultados brilhantes.

A começar pelo roteiro de Aaron Sorkin, o qual quebra a linha do tempo e traz elipses incríveis. Há vários flashbacks em que os personagens terminam e/ou respondem frases começadas no presente. Além de mostrar a passagem do tempo no passado com criativas soluções. A cena-chave para esses recursos é a rápida e empolgante leitura de e-mails entre os gêmeos Winklevoss (Armie Hammer) e Mark Zuckerberg durante uma das várias audiências a respeito dos diretos autorais do Facebook, as quais guiam toda a narrativa do longa. Ponto também para os editores Kirk Baxter e Angus Wall, de dinamismo ímpar na montagem.

Sorkin ainda dá profundidade aos vários personagens que passam pelo longa. Focado principalmente na criação do site de relacionamento e nos impasses judiciais depois do enorme sucesso da rede, o roteirista cria um Zuckerberg ao mesmo tempo genial e deslocado – propositalmente, diga-se de passagem. E aí o bom trabalho de Jesse Eisenberg é vital. Falando numa rapidez absurda, ele deixa à mostra a velocidade com a qual processa os intricados conhecimentos que possui. É divertidíssimo perceber isso na abertura do longa. Quando ele conversa com a namorada, Erica (Rooney Mara), salta de um assunto para outro deixando escapar um ar de empáfia apenas na maneira como projeta seu queixo ao ouvir as resposta dela. Algo irritante, mas fantástico, afinal o momento é fundamental. A briga que surgirá dali, fará com que Mark crie o Facebook.

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Fazendo um filme no qual os personagens brigam basicamente por causa de egos feridos, David Fincher tem a sacada mais certeira em A Rede Social: o uso intensivo de pequena profundidade de campo. O recurso deixa apenas quem está em foco em evidência, tirando do foco praticamente o restante do quadro. Mais uma vez Zuckerberg é o rei. Exibindo um tédio monumental durante as bancas em que é acusado de furtar a idéia do Facebook, em determinado momento um dos advogados pergunta se ele tem a atenção do programador, ao responder rispidamente que não, Mark está em primeiro plano e o advogado mal pode visto em segundo plano, desfocado.

Fincher também utiliza de maneira fantástica o tilt-shift – técnica que faz a miniaturização da imagem – na corrida de remos em que os irmãos Winklevoss perdem. A idéia é genial, pois diminuídos ao máximo, esse é o momento crucial para que eles, enfim, processem o ex-amigo Zuckerberg.

Momento que, ao lado de outras várias escolhas de Fincher, faz da produção uma das mais maduros do cineasta. Repare como ele conta com a inteligência do público no instante que o sedutor Sean Parker (num ótimo trabalho de Justin Timberlake) é pego com menores e cocaína. Primeiro mostra tudo o que aconteceu, quando o personagem dá a notícia ao sócio via telefone, uma luz apenas se apaga ao fundo do protagonista, sem precisar repetir tudo o que já foi visto. E o que dizer do momento em que  Eduardo Saverin (o carismático Andrew Garfield) é informado de que não faz mais parte do Facebook? A tensão é esticada ao máximo ao evitar a notícia na sala com o advogado, depois mostrando o personagem berrando “Mark!” em paralelo a uma das audiências, até que ele explode quebrando o computador do então amigo.

Momento que reitera a coesão dos envolvidos no longa. Enquanto Sorkin guia, Fincher e seus técnicos e atores dão vida à cena. Sem que a nada tradicional (e ótima) trilha sonora de Trant Reznor e Atticus Ross jamais seja esquecida. Ao final, ironicamente ao som de “Baby You’re a Rich Man”, tem-se um filme tecnicamente impecável, que deu origem a um novo personagem icônico, moralmente questionável e claramente insatisfeito. Ao contrário de seu público.

Nota: 8,5

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12 responses

  1. Como uma desentendida no assunto falo e escrevo sem nenhuma certeza, mas convincente de que eu esperava muuuuuuuito mais de “The Network Social”. Tá, tudo bem que a história é impressionante, mas por que a adaptação nas telonas não me estimulou nem um pouco? Argh! Saí parcialmente frustrada e que saber? Esse Mark é um FDP. Ele é realmente um idiota na vida real? Se sim, ainda bem que ele é bilionário. Rs
    O que tem de inteligente, tem de idiota. É… Acho que levei tudo meio que para o lado pessoal, por isso fiquei irredutível do início ao fim, quer dizer, com exceção de duas partes que eu “cochilei bonito”. Hahaha

    Por outro lado…
    Lendo a crítica e tentando analisar detalhadamente eu me sinto totalmente burra, pudera eu ter essa percepção toda, porque sinceramente? Ô, filminho chatinho!

    Fui atrás de DRAMA, não monotonia!

    Parabéns pela crítica, Bitim! Embora eu ignore essa 8,5 anexada na parte inferior do texto… Tsk, tsk…

    Rá!

    22 de Dezembro de 2010 às 11:56 PM

    • A ideia é realmente achar o personagem xarope. Mas acho que você o achou mais chato que do que deveria. *rs
      Ma so filme é extremamente bemc concebido. Fantástico!
      Mas qual é a sua nota, Carol?

      23 de Dezembro de 2010 às 2:31 PM

  2. P.S. “The SOCIAL Network”*

    Acontece! rs

    22 de Dezembro de 2010 às 11:59 PM

  3. Já dei meus pitacos no twitter, mas esqueci de dizer uma coisa:

    O trailer tem MUITO mais emoção do que o filme ao som de creep!

    Mas o filme é excelente.
    abs

    23 de Dezembro de 2010 às 2:05 AM

    • A versão de ‘Creep’ no trailer é de um coral belga chamado Scala und Kolacny Brothers. Eles fazem várias versões de músicas famosas. Ótimo! Indico.

      23 de Dezembro de 2010 às 2:28 PM

  4. Ah, se a ideia foi passar que o personagem é um xarope, ok… O filme realmente foi “bem concebido”.😉

    Nota? Sei lá. Dou nota para filmes que, geralmente, não me fazem dormir na sala de cinema. Sorry! rs

    23 de Dezembro de 2010 às 3:28 PM

  5. Víctor

    Nossa todos que eu vejo comentando sobre filme não gostaram, mas eu gostei demais. Zuckerberg foi um gênio, é verdade que algumas vezes ele foi um FDP, mas fazer o que ele fez num banco de faculdade e tão novo, putz não é pra qualquer um não. Claro que sozinho ele não faria nada, ou talvez fizesse mesmo assim. O filme contou detalhadamente todos os passos para a criação do facebook e os processos que ele enfrentou até chegar ao que é hoje, 500 milhões de usuários. Recomendo demais o filme, heheheheheheh

    23 de Dezembro de 2010 às 4:16 PM

    • Gênio ou FDP, o importante é que ele foi um excelente personagem para esse filmão!

      23 de Dezembro de 2010 às 5:06 PM

  6. Eu gostei do filme e quero assisti-lo novamente. Esse é uma típica narrativa na qual o protagonista nos incomoda. E é aí que está a verdadeira intenção da arte: fugir dos padrões e nos deixar inquietos. No primeiro diálogo entre Mark e a namorada isso já ficou mto claro: o personagem seria um fdp do início ao fim, mas seria também um desgraçado muito inteligente. Como não querer rever os diálogos ágeis que não te deixa livrar os olhos da tela com medo de perder a legenda? Insensível, ladrão, idiota, chato como muitos são. A diferença é que ele é o mais jovem bilionário do planeta. Só isso.

    30 de Dezembro de 2010 às 12:34 PM

    • Mark é o tipo de personagem que fascina por suas piores características, mas que devido a um trabalho incrível do diretor e roteiro nos faz querer mais daquele veneno. Fora que é sempre interessante saber que alguém que tem tantas características para ser odiado, mostra uma fragilidade tão grande em relação aos sentimentos.

      30 de Dezembro de 2010 às 12:39 PM

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