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Crítica: Cisne Negro

black-swan-poster-largeToda a carreira do diretor Darren Aronofsky parece ter sido um ensaio para Cisne Negro (Black Swan, EUA, 2010), de onde é possível extrair uma série de pequenos elementos presentes em obras como O Lutador. Mas o importante não é ficar buscando esses tiques estilísticos do cineasta na narrativa sobre a bailarina Nina, afinal, depois de 13 anos desde Pi, esta é o filme que melhor define Aronofsky.

A filmografia do novaiorquino é abarrotada de personagens bizarros, fora do “normal social” de alguma maneira e aqui ele eleva a estranheza a um patamar no qual apenas esbarrou com a senhora viciada em anfetaminas de  Réquiem para um Sonho. Nina (Natalie Portman) é uma bailarina de técnica perfeita em busca de reconhecimento e será instigada para conseguir desempenhar os difíceis papéis para os quais foi escalada: ser os cisnes branco e negro na montagem do clássico “O Lago dos Cisnes”, de Tchaikovsky. A certa altura, o diretor do espetáculo, Thomas Leroy (Vincent Cassel, em atuação forte como sempre), explica à delicada dançarina que ser cisne branco não seria dificuldade para ela, mas que a personagem sombria da peça dependeria de mais malícia e paixão. Daí a grande importância de Lily (Mila Kunis) para a trama. Ela é exato oposto de Nina: de técnica apenas regular, mas de sensualidade aflorada e nada sutil. Ou seja, a imagem de espelho da protagonista, o reflexo invertido. Algo que levará a já afetada Nina à paranóia completa, com medo de perder o papel para a novata, sem que nunca fique claro quanto daquilo é realidade, quanto é distorção da mente da bailarina.

Para mostrar essa relação de atração/repulsão, o filme é cheio imagens espelhadas. Quando Lily aparece pela primeira vez, ajeita o cabelo para atrás da orelha, quando o corte volta para Nina, ela faz o mesmo gesto e seu reflexo escurecido está na janela do metrô. Em outra passagem, quando Thomas anuncia que a mesma bailarina será o cisne branco e negro, no exato momento em que ele diz o nome do segundo personagem há um corte para a imagem dele no espelho – como se anunciasse a natureza do personagem para Nina.

Incrível, como toda a técnica do longa. Usando uma fotografia descorada, como se as cores fossem expostas ao sol durante muito tempo, a sensação que se tem é de frieza e impessoalidade, o que remete à falta de emoção na dança de Nina e ao mesmo tempo à loucura que ela deixa aflorar aos poucos. Algo que leva a outro ponto filmado com destreza por Aronofsky. Obcecada pela perfeição, ela treina à exaustão e o diretor mostra através de muitos planos-detalhe a dor que isso causa, a exemplo do rodopio que a dançarina treina em casa e lhe custa uma unha despedaçada. A câmera foca de maneira sádica o pé da garota girando até que o pior acontece. Antes disso, entretanto, repare como a câmera gira como se fosse o olhar de Nina no tablado das audições em busca dos papéis da montagem. Uso do plano em primeira pessoa genial, que ainda vai justificar a forma agressiva com a qual Nina busca melhorar seu rodopio e se machuca.

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Em nenhum momento o roteiro esconde que há algo de errado com ela, que coça compulsivamente as costas – a “coçadinha” no reflexo infinito gerado por vários espelhos durante a prova do figurino da peça é esquisito e aterrorizante. Bulímica, magra e perturbada, Nina recebe uma definição mais precisa de seu diretor: disciplinada, imponente e frágil. A imponência ela tem na dança – mostrada em lindos takes em steady cam – e a fragilidade está na personalidade infantilizada e reprimida – repare no quarto cheio de bichos de pelúcia, ponto para direção de arte. Falta a ela não só paixão, mas a sexualidade que Thomas tenta aflorar. Não, não há qualquer assédio sexual, como muitos podem achar em todas as investidas do chefe, que a toca, beija à força e de quem parece abusar, mas cujo intuito é despertar a libido necessária para o cisne negro. Tanto  assim, que após os supostos abusos, Thomas deixa Nina de lado.

E se Cisne Negro tem tanta força é porque diretores de cena, fotografia e de arte contam com a atuação fantástica de Natalie Portman. Trabalhando sempre num tom abaixo de todos os personagens, ela embarga a voz para surpreender quando começa a dançar, momento em que cresce e se agiganta mesmo com o corpo incrivelmente esquelético. Mas que volta a ser apenas uma menina bailarina no momento em que vai a uma boate e a já amiga Lilly apresenta garotos interessados apenas em sexo. O diálogo que segue é revelador:

Rapaz – Você não disse, quem é você?
Nina – Sou bailarina…
Rapaz – Não, seu nome…

O que demonstra toda a inocência sexual. E é aqui que o roteiro dá a cartada final. Exatamente deste momento em diante, Nina entra numa “bad trip” que marca todo o terceiro ato de Cisne Negro e vai culminar no espetáculo. Uma apresentação esquizofrênica e lindamente trágica, bastando para isso uma dose de alucinógeno e uma noite de sexo. Tudo traduzido numa montagem caótica e cheia de cortes ligeiros. Intensa é a palavra que descreve o final do longa, cujas frases “Eu senti. Foi perfeito” não poderiam ser melhores para traduzir todo o arco dramático pelo qual Nina passa. Luzes e longos aplausos fecham o filme, talvez o melhor de 2011, ainda em fevereiro.

Nota: 10

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7 responses

  1. Pingback: Tweets that mention Crítica: Cisne Negro « Cinefilia -- Topsy.com

  2. Clara Campoli

    Acho que é o melhor que eu vi esse ano, também. E acho difícil lançarem algo tão bom quanto em 2011. Mas o que mais me entristece é que provavelmente não ganha o Oscar.

    Mas Natalie leva um pra casa. Esse é o papel da vida dela.

    24 de Fevereiro de 2011 às 7:02 PM

    • Eu ainda tenho uma pequena esperança da Academia premiar esse ótimo filme… Quem sabe, né?

      24 de Fevereiro de 2011 às 8:39 PM

  3. Olha, esse filme é maravilhoso e incrivelmente desprezado nas premiações por aí! E a crítica tá bastante intessante também!

    24 de Fevereiro de 2011 às 9:22 PM

  4. Se serve de consolo, a Natalie deve mesmo levar o Oscar…

    24 de Fevereiro de 2011 às 9:26 PM

  5. Surreal e paranoico! De emoções extremas! Aproveito o espaço para dizer que o Cinemais Uberlandia conseguiu acabar com o filme: áudio extremamente ruim da sala 2!

    1 de Março de 2011 às 9:17 PM

    • Audio ruim nas salas de Uberlândia são um especialidade… Em “Senna” foi assim… Triste.

      1 de Março de 2011 às 9:27 PM

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