Go ahead, punk. Make my day.

Archive for Março, 2011

Hail! Hail! Rock ‘n’ Roll

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Justin Bieber não é rockeiro, fato. E já que vou tratar de um tema que acho tão particular, pensei que seria uma boa ideia começar falando de algo que é consenso. O tema? Bem, se o mancebo canadense que vira a cabeça de muitas garotinhas e garotinhos resolveu atacar também no Cinema, resolvi relembrar alguns documentários rockers  de conteúdo parecido com o de Never Say Never, que traz o rapaz de franjinha contando como superou suas dificuldades até chegar ao estrelado.

Como é? Ele cortou o cabelo? Sem problemas…

Quais seriam as dificuldades enfrentadas, só vendo o filme para saber – se é que elas existem. Mas fato também é que, antes do 17 anos, Bieber conseguiu algo que o The Band só realizou depois  de mais de uma década de estrada: um documentário sobre vida e obra. Para quem não sabe, o The Band foi um influente grupo de folk rock que acompanhou Bob Dylan durante algum tempo e lançou músicas como “The Weight” considerada uma das 50 melhores de todos os tempos pela revista Rolling Stone. Comparar o peso dos também canadenses com Bieber é o mesmo que comparar as carreiras dos cineastas que filmaram os documentários de ambos. Enquanto Never Say Never é dirigido por Jon Chu, de Ela Danço, Eu Danço 2 e 3, O Último Concerto de Rock (ou The Last Waltz) é assinado por ninguém menos que Martin Scorsese, sim aquele carinha que já dirigiu Os Infiltrados, Os Bons Companheiros e Taxi Driver. A arquitetura de ambos é parecida: enquanto acontece um show, imagens de arquivo e/ou entrevistas também são mostrados, revelando mais sobre os artistas. A diferença básica é que O Último Concerto de Rock registra o fechar das cortinas de um dos grupos mais importantes do Rock, enquanto Never Say Never trata da chega no topo de Justin Bieber.

OK, a comparação pode ser injusta, mas é notório que o astro teen ganhe um filme com status de blockbuster sobre a carreira. Sinal dos tempos, já que hoje a música não vive sem a imagem e, convenhamos, Bieber é tão imagem quanto, dança e música.

Mas cada um tem o astro das massas que merece. Na década de 60 quem arrastava multidões insanas era o The Beatles. O fab four foi um verdadeiro fenômeno entre as adolescentes da época e justamente por isso existe o falso documentário Os Reis do Iê-Iê-Iê. Nele acompanhamos a rotina de fugir das fãs e ser quem são, além de um sem-número de apresentações dos rapazes de Liverpool. A meninada amou, a crítica também – Roger Ebert, um dos maiores críticos ainda vivos, relacionou o filme em seu Top 100 – e os Beatles ainda continuariam a fazer Cinema no não tão amado assim Help! e no psicodélico Yellow Submarine.

Os Rolling Stones também já foram protagonistas de alguns documentários, um deles nas lentes de Jean-Luc Godard. One Plus One (ou Sympathy for the Devil) mostra o grupo em gravações enquanto discute temas com forte apelo à época e papos sobre arte. Não focado exatamente no grupo, mas cuja história mais pungente trata dos Rolling Stones, ainda há Gimme Shelter. O filme ficou famoso pela sequência em que Mick Jagger e companhia assistem a uma grande briga na qual a gangue Hell’s Angel’s, que fazia a segurança para os Stones, e o público saem no braço resultando na morte de quatro pessoas.

Continuando no pique dos Stones e voltando a falar de Scorsese, o diretor captou um grande show dos caras há alguns anos e soltou outro doc., Shine a Light, este sim, buscando obsessiva e lindamente capturar os melhores momentos da banda no palco. Antes disso, Martin ainda tinha feito um filme sobre Bob Dylan, No Direction Home.

E já que você não viu nenhum desses filmes-documento e está anotando todos para depois assistir – assim espero –, acrescente às suas anotações aquele que dá título a esse texto: Hail! Hail! Rock ‘n’ Roll. É Chuck Berry mostrando porque é um dos maiorais com a guitarra na mão. Um documentário divertidíssimo que termina numa apresentação do inventor do passo do pato (ou “duck walk”) ao lado de Keith Richards.

Bom, mas alguém deve ter percebido que eu escrevi no primeiro parágrafo que falaria de docs com “conteúdo parecido com o de Never Say Never”. O que a vida de Lennon, Jagger, Robertson, Dylan e Berry têm a ver com Bieber? Na verdade nada, a não ser o fato de eu querer ter vivido nas décadas de 60 ou 70 para poder berrar ao som de um medalhão do Rock nos cinemas e não ter que ouvir “Baby, baby, baby oooh!”.

*Texto originalmente publicado na Resvista Meio & Midia CULT (ed. 70) – Março de 2011

last waltz

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Resumo (21 a 27 mar)

lord_of_warO Senhor das Armas (Lord of War, 2005). De Andrew Niccol

Ironia. Esse é o meio mais usado pelo diretor e roteirista Andrew Niccol utiliza para contar a história de Yuri Orlov (Nicolas Cage), o traficante de armas cuja grande motivação é: se existe uma arma para cada 12 pessoas no mundo, como armar as outras 11? Por meio de um roteiro inteligente, ainda que abuse das narrações em off, O Senhor das Armas se desenvolve de maneira rápida e é preciso ficar esperto com o que se passa na tela, pois mesmo que às vezes os acontecimentos deem uma escapada do fio principal da narrativa, o número de informações e o poder delas criam um personagem profundo e que realmente quase te convence de que o que ele faz não é imoral. Nic Cage ajuda muito com um trabalho bem ao seu estilo, com certo exagero, mas de cinismo e carisma em altas doses. Se a direção não investe em momentos primorosos  de maneira encadeada, pelo menos dois deles merecem ser registrados: a fantástica abertura, ao som de “For What It’s Worth”, do Buffalo Springfield, que acompanha um bala desde a linha de montagem até ela parar na cabeça de uma criança na África, e também a rápida imagem de uma AK-47 sendo disparada e o som das cápsulas saindo da arma se transformando no som de caixas registradoras. E um filme que aponta para o próprio país lembrando que ele é o maior vendedor de armas do mundo merece nosso respeito. Nota: 8,5

simpsons_movieOs Simpsons – O Filme (The Simpsons Movie, 2007). De David Silverman

Rever Os Simpsons é tentar entender o processo que levou a Academia a não indicar essa animação como uma das melhores do ano. Não cheguei a muitas conclusões, apenas que perderam a oportunidade de premiar um dos grandes filmes americanos de 2007. Cheio de um humor ácido, que muitas vezes se dilui nesses mais de 20 anos da série na TV, o longa tem uma narrativa cinematográfica, de maior amplitude sem perder as melhores características dos personagens, o que foi determinante para o sucesso do filme. Se este começa com o pé embaixo na velocidade das piadas, o ritmo vai diminuindo para que a trama flua, o que pode causar certo desconforto para quem se matou de rir nos dois primeiros terços do filme, contudo isso não estraga a diversão. E não se assuste se os lenços forem necessários ao ver Homer e Marge discutindo o casamento. Fique ligado: durante os créditos Maggie fala pela primeira vez. Nota: 8,5


Sexta No Cinema

Realidade Alternativa é o Sexta No Cinema de hoje no Portal Uipi!

Leia:

http://www.uipi.com.br/sexta-no-cinema


Crítica: O Discurso do Rei

the-kings-speech-poster-2Talvez o maior mérito de O Discurso do Rei (The King’s Speech, Reino Unido/Austrália/EUA, 2010) seja contar uma história sólida a partir de um tema dos mais improváveis: um rei que gagueja. Claro, as complicações desse problema de fala e o estudo de personagem serão fundamentais para que o simpático filme funcione.

A cena que abre o longa é emblemática. Nela, o diretor Tom Hooper filma cerimoniosamente um microfone, imprimindo ao objeto uma importância que logo em seguida fará todo sentido para o efeito que ele causa ao Príncipe Albert: um medo patológico de se dirigir às plateias devido à gagueira, acentuada pelo equipamento no encerramento da Exposição do Império Britânico, em 1925. Algo que o filme sublinha em cada titubeada na fala do nobre por meio de uma hábil mixagem/edição de som.

É quando o futuro rei passa a buscar ajuda médica e acaba encontrando Lionel Logue, um homem que promete a cura através de tratamentos não muito ortodoxos – o que é discutível, vide o médico que faz Albert (ou Bertie) falar com a boca cheia de bolas de gude. Ele será o único a conseguir bons resultados com o paciente.

Trabalhando a amizade entre os dois homens como fio condutor do filme, o roteiro usa os acontecimentos históricos para criar o arco principal da narrativa, e mesmo sendo apontado  por ter licenças poéticas, consegue fazer uma boa escalada até o clímax do filme com o discurso do título. Os bons diálogos ajudam, como as ironias das conversas entre Bertie em Lionel (sempre muito insolente frente ao príncipe) e as divertidas situações que cria. À certa altura a mulher de Logue conhece o paciente que ele escondera até ali, ela chega mais cedo em casa e os flagra durante o tratamento e o especialista tenta não revelar a presença de Bertie como se este fosse uma amante.

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Essa proximidade que sai do consultório e entremeia a vida dos protagonistas é refletida muito bem pela bela direção de arte do longa. À medida que a relação se estreita, a sala velha de papel de parede rasgado dá lugar à casa onde as cores são mais quentes e vibrantes. Ponto também para a fotografia do longa, que trabalha a iluminação natural dos ambientes como eles realmente deveriam ser no início do século passado – a exemplo do consultório cheio de penumbras devido a iluminação elétrica fraca da época –, ou que simplesmente cria quadros belíssimos aproveitando o frio inglês – como na cena cheia de neblina em que Bertie e Lionel discutem.

Criando uma lógica em que o protagonista está sempre deslocado ou diminuído em cena, seja sendo filmado de cima pra baixo ou colocado em oposição ao ponto de fuga do quadro, Tom Hooper se restringe a manter sua câmera no trabalho excepcional de seus atores no restante do filme. Colin Firth está perfeito, exala segurança na insegurança de seu futuro Rei George IV, usando a gagueira não como uma muleta para a atuação, mas como trampolim ao conseguir expôr todas as frustrações e superações do personagem quando o tratamento começa a funcionar. E só de não ser eclipsado, Geofrey Rush como Lionel é uma atração a mais para o longa.

Se ele sofre com uma reviravolta bestinha no melhor estilo das comédias românticas para criar conflito próximo da coroação de Bertie, o desfecho, porém, acontece com o alarde necessário, de maneira muito satisfatória, sem exageros ou milagres. Um reflexo de toda a produção:  O Discurso do Rei é simpático, quadradinho, simples, mas sólido.

Nota: 8

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Crítica: Invasão do Mundo – Batalha de Los Angeles

battle_los_angeles_posterFalcão Negro em Perigo, de 2001, apesar de sua mensagem política distorcida, foi um filme exemplar na ação ao recriar um conflito urbano de maneira realista e incessante. Ponto para a direção de Ridley Scott que tem poucos concorrentes à altura (Fogo Contra Fogo, alguém mais?). Pois Jonathan Liebesman tentou fazer seu próprio filme de guerra urbana com Invasão do Mundo – Batalha de Los Angeles (Battle: Los Angeles, EUA, 2011). Ficou no quase.

Intensa e nervosa, a produção tem vários pontos em comum com o longa de Scott, só que dessa vez as coisas são um pouco mais simplificadas, pois há um inimigo bem definido e questões éticas não precisam ser discutidas, afinal, é o dos humanos que está na reta contra uma colonização alienígena, algo que facilitaria a vida de Liebesman e do roteiritsa Christopher Bertolini (do horroroso A Filha do General).

De fato, quando focado na ação,  Batalha de Los Angeles é interessante. Sério, tem toda a narrativa voltada para a ação militar, procurando situar o espectador em cada movimento, mesmo que nem sempre funcione da melhor maneira – às vezes parece ser necessário um conhecimento prévio do mapa da cidade.

O filme já começa no meio da guerra, com a trama se desenrolando nas 24 horas anteriores ao conflito, depois de uma rápida e tensa abertura mostrando o tamanho do caos no mundo para depois focar na luta do título. “Não podemos perder Los Angeles”, diz um oficial, deixando claro qual é o último refúgio estadunidense. A câmera está sempre em movimento e a busca do realismo é incansável. Para isso, imagens feitas no ombro e muitas inserções jornalísticas, seja para tentar mostrar o que acontece no resto do mundo enquanto o exército americano luta em casa, seja para dar as primeiras pistas de que se trata de uma invasão. Pena que a urgência buscada na primeira aparição dos aliens via televisão não cause o impacto desejado, terminado, inclusive, com a inevitável  morte da equipe de reportagem.

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E eis que a originalidade do longa acabe sendo também seu ponto mais fraco: evitando os dramas de “gente comum” para estar 100% dentro da guerra, Invasão do Mundo tinha como material humano soldados num conflito nunca visto antes, algo para o qual nada os preparou, mas falha miseravelmente ao pôr na tela mais do mesmo: draminhas com gente ficando para trás e pedindo para que o amigo entregue a carta de despedida para a mulher. Até uma criança surge lá pelas tantas paras ser alvo da compaixão dos soldados.

Sorte do filme que conta com um ator como Aaron Eckhart. Numa atuação séria e minimalista – repare na mão tremendo depois da explosão de um posto e uma nave –, o ator imprime credibilidade no único personagem que ganha profundidade em meio a um leque de pessoas que não consegue ganhar a plateia. E olha que o roteiro até tenta dar background aos fuzileiros, apresentados rapidamente por meio de letreiros e uma cena que os definiria – surge o engraçadinho, o marido, o enlutado, o futuro pai, etc. Mas não vai dar certo por simplesmente não haver como estabelecer uma ligação –  quando algo acontecer ninguém se importará com o personagem.

Cheio de cenas chorosas e trilha sonora incessante/cansativa no terceiro ato,  Invasão do Mundo – Batalha de Los Angeles ainda dá gancho para continuações (Batalha de Nova York? De Dallas? De Orlando?), as quais dependerão da quantidade de pessoas que procurarão ver o mundo em risco e sendo salvo mais um vez nos cinemas (leia-se: bilheteria), mas que já de saída poderiam ter assistido a um filme que busca uma visão diferente a tantos outros que trataram de invasões alienígenas à Terra. Nessa missão, os realizadores falharam.

Nota: 6

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Resumo (14 a 20 mar)

totoro_dvdMeu Vizinho Totoro* (Tonari no Totoro, 1988). De Hayao Miyazaki

Meu Vizinho Totoro é daqueles filmes feitos em cima de uma ideia simples, mas de realização extraordinária. A trama tem apenas um conflito, gerado para ser o clímax da narrativa, de resto é apenas a história de duas irmãs, recém-chegadas a uma zona rural do Japão, que descobrem a entidade Totoro, um ser grande e peludo que protege a natureza. De uma delicadeza ímpar, o filme é focado no relacionamento das irmãs com o mundo e cuja curiosidade simplesmente encanta a quem acompanha a história. A animação de Hayao Miyazaki dá conta do resto, detalhista e de uma beleza inigualável. A cena da chuva é um primor de direção e da qual saem os planos esteticamente mais lindos do filme. Fora que o senso de aventura do realizador é minimalista, conseguindo numa cena de voo, o que filmes inteiros de aventuras gigantes não conseguem: tirar  fôlego do público. Não fosse a resolução simplista para o conflito que fecha o longa, seria uma obra irretocável – atrevo-me a dizer que este é seu único defeito -, mas mesmo assim é saboroso ver uma produção calcada na delicadeza e de força tão grande como esta. Linda trilha sonora. Nota: 9

slumdog_millionaire-posterQuem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire, 2008). De Danny Boyle

Um filme cheio de miséria e com cenas de tortura pode ser delicado? Quem Quer Ser um Milionário?, apesar de algumas vezes apelar nessa intenção é relativamente bem sucedido ao contar a história do garoto zé-ninguém que vai chegar no topo do mundo apenas por sua experiência de vida. É um tipo de fábula moderna que leva em conta a violência do mundo e as mudanças radicais que um país de contrastes como a Índia tem. Saber misturar tudo isso numa trama claramente com um pé na “não-realidade” é um dos pontos positivos do roteiro de Simon Beaufoy, baseado no livro de Vikas Swarup. Não que ele seja perfeito, afinal, se é tão moderno assim, criar um vilão tão bidimensional não é algo aceitável. Contudo, a história dos irmãos Malik e da linda Latika é bonita e, incrivelmente, alto astral – inclusive com o artifício de redenção e punição para as pessoas más. As fortes influências de Bollywood ajudam na sequência de danças dos créditos. Nota: 8,5

*Filme assistido pela primeira vez


Posteridade

Eu criei o Posteridade no intuito de mostrar cartazes que vão além da mera propaganda, se transformando em belas artes, daquelas que você até saliva para ter em sua parede. Pois depois de ter filmes que vão de Vestida para Casar a 2001 – Uma Odisséia no Espaço, agora trago o trabalho de Laz Marquez, designer que reinventou os pôsteres dos 10 indicados ao Oscar de 2011.

Artes alternativas que seguem o mesmo padrão de cores, mas que ressaltam elementos dos filmes de maneira inusitada. São padronizados, todavia cada um com personalidade. O restultado é bonito e divertido. Os meus favoritos são os de Cisne Negro e A Rede Social.

Clique em “leia o restante desta página” para ver o cartazes em tamanho grande.

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