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Crítica: O Discurso do Rei

the-kings-speech-poster-2Talvez o maior mérito de O Discurso do Rei (The King’s Speech, Reino Unido/Austrália/EUA, 2010) seja contar uma história sólida a partir de um tema dos mais improváveis: um rei que gagueja. Claro, as complicações desse problema de fala e o estudo de personagem serão fundamentais para que o simpático filme funcione.

A cena que abre o longa é emblemática. Nela, o diretor Tom Hooper filma cerimoniosamente um microfone, imprimindo ao objeto uma importância que logo em seguida fará todo sentido para o efeito que ele causa ao Príncipe Albert: um medo patológico de se dirigir às plateias devido à gagueira, acentuada pelo equipamento no encerramento da Exposição do Império Britânico, em 1925. Algo que o filme sublinha em cada titubeada na fala do nobre por meio de uma hábil mixagem/edição de som.

É quando o futuro rei passa a buscar ajuda médica e acaba encontrando Lionel Logue, um homem que promete a cura através de tratamentos não muito ortodoxos – o que é discutível, vide o médico que faz Albert (ou Bertie) falar com a boca cheia de bolas de gude. Ele será o único a conseguir bons resultados com o paciente.

Trabalhando a amizade entre os dois homens como fio condutor do filme, o roteiro usa os acontecimentos históricos para criar o arco principal da narrativa, e mesmo sendo apontado  por ter licenças poéticas, consegue fazer uma boa escalada até o clímax do filme com o discurso do título. Os bons diálogos ajudam, como as ironias das conversas entre Bertie em Lionel (sempre muito insolente frente ao príncipe) e as divertidas situações que cria. À certa altura a mulher de Logue conhece o paciente que ele escondera até ali, ela chega mais cedo em casa e os flagra durante o tratamento e o especialista tenta não revelar a presença de Bertie como se este fosse uma amante.

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Essa proximidade que sai do consultório e entremeia a vida dos protagonistas é refletida muito bem pela bela direção de arte do longa. À medida que a relação se estreita, a sala velha de papel de parede rasgado dá lugar à casa onde as cores são mais quentes e vibrantes. Ponto também para a fotografia do longa, que trabalha a iluminação natural dos ambientes como eles realmente deveriam ser no início do século passado – a exemplo do consultório cheio de penumbras devido a iluminação elétrica fraca da época –, ou que simplesmente cria quadros belíssimos aproveitando o frio inglês – como na cena cheia de neblina em que Bertie e Lionel discutem.

Criando uma lógica em que o protagonista está sempre deslocado ou diminuído em cena, seja sendo filmado de cima pra baixo ou colocado em oposição ao ponto de fuga do quadro, Tom Hooper se restringe a manter sua câmera no trabalho excepcional de seus atores no restante do filme. Colin Firth está perfeito, exala segurança na insegurança de seu futuro Rei George IV, usando a gagueira não como uma muleta para a atuação, mas como trampolim ao conseguir expôr todas as frustrações e superações do personagem quando o tratamento começa a funcionar. E só de não ser eclipsado, Geofrey Rush como Lionel é uma atração a mais para o longa.

Se ele sofre com uma reviravolta bestinha no melhor estilo das comédias românticas para criar conflito próximo da coroação de Bertie, o desfecho, porém, acontece com o alarde necessário, de maneira muito satisfatória, sem exageros ou milagres. Um reflexo de toda a produção:  O Discurso do Rei é simpático, quadradinho, simples, mas sólido.

Nota: 8

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5 responses

  1. @aleishow

    Pensa num filme lindo? E o mais legal de tudo foi ver que no final das contas não vi o Oscar indo para o tosquérrimo de “A Rede Social”. Uipi!!!

    Só pra constar… Filme assistido, Oscar merecido e nem um pouco frustrada com a crítica! Por incrível que possa parecer. rs

    24 de Março de 2011 às 11:13 PM

    • A Rede Social é melhor. Só digo isso🙂

      25 de Março de 2011 às 12:30 AM

  2. A Rede Social e Bravura Indômita são melhores, na minha humilde opinião.

    23 de Maio de 2011 às 6:13 PM

    • Não vi Bravura Indômita, mas também acho A Rede Social, A Origem e, principalmente, Cisne Negro melhores que o O Discurso do Rei.

      23 de Maio de 2011 às 6:20 PM

  3. Pingback: Crítica: Os Miseráveis « Cinefilia

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