Go ahead, punk. Make my day.

Archive for Julho, 2011

Censura. De novo.

Se no final de julho A Serbian Film foi considerado primeiro ato de CENSURA desde a Constituição de 1988, o motivo foi que poucos ficaram sabendo do caso Eu Não Quero Voltar Sozinho, curta-metragem do Acre, que foi proibido por ser confundido como Kit Gay (ô termo escroto). Ainda que fosse parte desse kit, o filme não deveria ter sido proibido, mas no início de junho foi o que aconteceu, movido por ações de líderes religiosos e outras pessoas conservadoras.

Leia na íntegra o manifesto dos produtores do filme.

Queridos amigos e colegas,

No início da semana recebemos a notícia de que a exibição do curta Eu Não Quero Voltar Sozinho, como parte do programa Cine Educação, havia sido censurada no Acre.

O programa Cine Educação, uma parceria com a Mostra Latino-Americana de Cinema e Direitos Humanos, tem como objetivo “a formação do cidadão a partir da utilização do cinema no processo pedagógico interdisciplinar” e disponibiliza diversos filmes cujos temas englobem os direitos humanos, de modo que professores escolham quais são mais adequados para serem trabalhados em aula.

Na semana passada, no estado do Acre, uma professora escolheu o curta Eu Não Quero Voltar Sozinho e exibiu-o para seus alunos. Para aqueles que não conhecem, a trama narra a história de Leonardo, um adolescente cego que, ao longo do filme, vai se descobrindo apaixonado por um novo colega de sala.

Alunos presentes na exibição confundiram o curta metragem com o “kit anti-homofobia” e levaram a questão aos líderes religiosos, que mobilizaram políticos da região com o intuíto de proibir o projeto Cine Educação como um todo. Nenhum desses representantes públicos deu-se ao trabalho de ir atrás da verdade e descobrir que se tratava de um programa pedagógico com o intuito de levar o debate sobre direitos humanos para a sala de aula. Mais uma vez no Brasil, a educação perde a batalha contra o poder assustador das bancadas religiosas e conservadoras.

Neste momento, o programa Cine Educação está paralisado. Enquanto isso, os secretários de Educação e de Direitos Humanos do Acre estão articulando com o governador a possibilidade de garantir sua continuidade, enquanto os líderes evangélicos forçam o cancelamento definitivo do programa. Pelo que sabemos, mesmo que o programa seja reativado, o curta Eu Não Quero Voltar Sozinho será excluído do catálogo e não mais ficará disponível para que professores o utilizem no debate de questões que envolvem algo tão elementar quanto a sexualidade humana e tão importante quanto a deficiência visual.

De forma arbitrária, em uma república federativa cuja Constituição atesta um Estado laico, a sociedade está sendo privada de promover debates. Como pretendemos que adolescentes consigam respeitar a diversidade e formem-se cidadãos lúcidos, pensantes e ativos se informação, arte e cultura (sem qualquer caráter doutrinário) lhes são negadas?

Eu Não Quero Voltar Sozinho não é um filme proselitista, tampouco ergue bandeiras de nenhuma natureza. É apenas uma obra de ficção amplamente premiada em festivais de cinema no Brasil e no exterior, cujos predicados artísticos e humanos transcendem qualquer crença. Ademais, se assuntos referentes à orientação sexual dos indivíduos e seus respectivos direitos civis estão na pauta do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional, por que não debatê-los em sala de aula? Que combate sombrio é esse, que reacende a memória de um obscurantismo Inquisidor?

Produtores do Eu Não Quero Voltar Sozinho

Daniel Ribeiro e Diana Almeida

O curta foi premiado como Melhor Filme, pelo júri e público, no Festival de Paulínia em 2010

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Trilha – (500) Dias com Ela

Você sabe o que é passar uma noite com a mulher que você sempre sonhou? Joseph Gordon-Levitt soube em 2009, no filme romântico mais pé no chão dos últimos anos: (500) Dias com Ela

Pois a cena que escolhi para o Trilha da vez trata daquela alegria – depois do nervosismo – de conseguir estar da forma mais íntima (ui!) com a mulher amada. Ele se levanta no dia seguinte e, claro, sua vida se transforma num musical daqueles meio bregas que Hollywood adora. O cara está tão bem que se transforma em Han Solo no reflexo do vidro.

E ao som da divertida You Make My Dreams, de Daryl Hall, vejamos (e “revejamos”) tanta felicidade.


Resumo (11 a 24 jul)

rioRio* (Idem, 2011). De Carlos Saldanha

De imagem simplesmente maravilhosa, Rio, no entanto, não se esforça muito para ter uma história original, focando no velho peixe fora d’água – OK, o animal aqui é outro, uma ararinha azul que não sabe voar. Blu foi raptado quando filhote e levado para os Estados Unidos, onde acabou sendo cuidado em cativeiro por uma garota. Mas eis que ele terá que voltar para o Brasil por se tratar de um dos últimos de sua espécie. Ver ele sofrendo por não saber voar e se perdendo num lugar que não conhece é o que se espera, e o diretor Carlos Saldanha (também roteirista com mais pessoas) não vai um passo sequer além disso, focando nas belezas do Rio de Janeiro como maior arma para ganhar o público. Belezas? Mude isso. Na realidade, a produção não se afasta muito do Pão de Açúcar e do Corcovado na hora de mostrar a capital carioca. Tirando uma ou outra tomada fora desse ambiente, o Rio fica nisso. Os hábitos cariocas são irregulares em sua demonstração de “brasilidade”: se os macacos trombadinhas são uma forma de amenizar a realidade, comparar crianças infratoras com símios beira um desserviço, mas o culto ao futebol, samba e até ao rodízio nas churrascarias são bem divertidos. Assim como o próprio protagonista, que recebe uma ajuda providencial dos coadjuvantes, ótimos. Só não dá pra entender o porquê de um plano malévolo de fuga ter que passar pela Sapucaí. Dá sim, para americano ver, claro. Nota: 7,5

amadeus_ver1Amadeus (Idem, 1984). De Milos Forman

Devo confessar que a primeira vez que assisti ao filme o achei bem chato, assim como o personagem-título, de risada bizarra e mimado. Como é bom descobrir estar errado anos depois. Tudo no filme é grandioso, desde a encenação das óperas ao capricho de figurinos e direção de arte, além, claro, do talento dos envolvidos. F. Murray Abraham na pele de Salieri vai de um lado para o outro com sua atuação entre o amor e o ódio, enquanto o Mozart de Tom Hulce é simplesmente uma criança grande de talento descomunal. Essa grandiosidade é reflexo das escolhas do próprio Milos Forman, que filma tudo como se fosse uma ópera cinematográfica cheia de sentimentos rasgados, mas que não deixa de guardar sutileza em sua montagem em flashback, a qual quase não se deixa perceber nas transições entre o relato de Salieri e o passado que acompanhamos. As palavras finais de Salieri – “Medíocres de todos os cantos, eu os absolvo” -, então,  trazem uma redenção torta e a visão final do autor sobre tudo o que fez. Impressionante pela forma e pela ironia empregadas por Forman. Nota: 9

buried-poster2Enterrado Vivo* (Buried, 2010). De Rodrigo Cortés

Esse é um filme que leva a experiência de 127 Horas e até aquela famosa cena de Kill Bill ao extremo. Cortés, incrivelmente, mantém suas câmeras, durante 1h30, dentro do caixão no qual Ryan Reynolds foi enterrado. Mostrando criatividade para fazer composições dentro daquele espaço ultra limitado: seja na câmera que se afasta enquanto as paredes do caixão são alongadas pra cima para mostrar a aflição do personagem, seja nos vários enquadramentos “grudados” no rosto de Ryan para aumentar a sensação de claustrofobia. Aliás, tal sensação é muito bem trabalhada pelo diretor, que sabe enfatizá-la nos momentos certos, afinal, se fosse 100% agonizante quem conseguiria assistir ao filme? Por isso o desfecho mau do longa é exemplar, ao se tornar o momento mais crítico, seguindo a velha e boa cartilha de que o clímax deve fechar um filme. A experiência só não é completa por haver, várias vezes, aquelas talas escuras que delimitam um arco da história, mostrando que pode haver elipses e não a ação em tempo real como parece fazer a plateia crer. Nota: 8,5

leonO Profissional (Léon, 1994). De Luc Besson

Outro filme cuja direção é inspirada, criando enquadramentos geniais logo na abertura do longa, usando as sombras como ótimo elemento para esconder Léon – uma faca chega por trás no pescoço da vítima –, ou mostrar o perigo trazido por ele – uma sombra cobre um porteiro. Fora que o roteiro do próprio Besson é inteligente o bastante para evitar a ação desenfreada e focar na relação entre o matador (Jean Reno) e Mathilda (Natalie Portman). Veja, por exemplo, a passagem na qual ela descobre o fim que levou sua família: parada na porta dele, parece que uma grande sequência de ação para salvá-la virá por aí, mas não, as lágrimas da garotinha e a decisão de Léon são mais importantes que alguns tiros. Fantástico. Aliás, que grande canalha é Luc Besson ao nos fazer apaixonar por uma garotinaha de 12 anos? Um grande trabalho de Natalie. Se você não ficar com cara de bobo quando ela começar a interpretar personagens como Carlitos e ser Marilyn Monroe num jogo de adivinhações não tem a obrigação de gostar do filme. Nota: 9

*Filme assistido pela primeira vez


Crítica: HP 7.2

harry-potter-deathly-hallows-2Muito além do bom filme que é, Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 (Harry Potter and the Deathly Hallows – Part 2, EUA/Reino Unido, 2011) é a vitória de um projeto ambicioso e que soube aliar, em 10 anos, vontade mercadológica e artística.

Partindo exatamente de onde a história foi deixada no longa anterior, a narrativa já se inicia sombria, no mesmo tom de  Relíquias da Morte – Parte 1, relembrando a morte de Dobby e a difícil missão de Potter e dos companheiros Hermione e Ron para destruir as horcruxes. E é bastante significativo que a primeira criatura não-humana a aparecer no filme seja um duende nada carismático, com seus dentes afiados e orelhas pontudas. O universo, ainda que mágico, tem pouco espaço para o encanto.

Os minutos iniciais são de silêncios, diálogos esparsos e trilha melancolicamente econômica. É aqui também que o 3D convertido do longa é testado, se mostrando bastante discreto, ainda que deixe uma ou outra paisagem mais interessante. Bem poucas na verdade, como um dementador que passa muito próximo da câmera ou a casa na praia, na qual muitos elementos estão focalizados. Na maior parte do tempo, porém, o castelo de Hogwarts, fotografado de forma escura, acabada tendo detalhes ocultos pelo uso do óculos 3D.

Mostrando que David Yates se tornou um dos pais da saga, mais uma vez ele mostra inteligência na direção de seu quarto filme da série. Para evitar que os inúmeros diálogos, muitas vezes explicativos, se tornem um fardo após as primeiras descobertas, Yates põe seu elenco sempre se movendo, a exemplo da ótima conversa entre os protagonistas sobre as horcruxes: depois de se molharem, a câmera se movimenta ao redor deles enquanto se trocam e as falas vão acontecendo, dando ritmo à cena, para que não se transforme em teatrinho filmado.

Ele também faz rimas visuais. Assim que uma das partes da alma de Voldemort é destruída, tanto Harry, quanto o vilão sentem uma dor no braço. Yates mostra a cena com um travelling na mesma direção, mas em sentidos opostos, deixando clara a ligação entre vilão e mocinho e os propósitos contrários deles. Pena que o cineasta tenha um gosto exagerado em fazer a câmera passar por vidros ou  transparências sempre que pode. Até cansar a plateia.

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Mas que logo é compensada pela formação militar na marcha dos alunos ao serem chamados pelo agora diretor de Hogwarts, Severo Snape, que assim explicita o tipo de regime ditatorial a escola vive. Aliás, é sempre um prazer ver Alan Rickman na pele do mago, com sua voz pausada e ameaçadora. Assim como é muito bom perceber que a criatividade que marcou a série não se perdeu para que as pontas da história sejam amarradas. Seja no feitiço dos gêmeos que duplica tudo que tocado, seja no passeio do carrinho que leva ao cofre do banco.

Essa graciosidade, contudo, já não é a mesma, vide momentos ameaçadores como quando Voldemort pede para que entreguem Harry, que se inicia com gritos de crianças no salão da escola e a voz sibilante do vilão. Momentos esses que poderiam ser ainda mais poderosos caso o filme não desse cabo de alguns personagens de foma tão trivial, apesar de alguns deles serem odiosos vilões.

Enfim usando de maneira adequada a professora Minerva, relegada a quase pontas nos últimos filmes,  Relíquias da Morte – Parte 2 não chega a ser tão pesado como o penúltimo capítulo, contudo tem uma narrativa que cresce em tensão chegando ao ápice num falso final, que guarda, talvez a frase mais emblemática de todos os longas – “The boy who lived… Come to die” –, a qual, incrivelmente, é precedida da cena mais emocionante da produção e pontuada pela trilha mais pesada até aqui.

Fazendo a plateia voltar à mesma sensação de descoberta de uma década atrás, o roteiro de Steve Kloves ainda deixa uma pontinha solta – um possível novo capítulo? –, num mundo que  venceu preconceitos e fez escola. Literalmente. Um mundo que cumpriu sua tarefa e foi ao fim de sua história magicamente. De várias maneiras.

Nota: 8,5

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Trilha – Dia Mundial do Rock

Hoje é o Dia Mundial do Rock. Poderia mandar uma cena clássica ou desabar um rock pesado na cabeça de quem ler esse post. Preferi outra coisa.

Em 2005, Andrew Niccol criou um contrabandista de armas cuja única habilidade era convencer os outros de que as armas são itens tão indispensáveis quanto o pão de cada dia. A ironia e a boa mão para os negócios desse homem vivido por Nicolas Cage não foram os únicos motivos que levaram O Senhor das Armas a receber boas críticas.

A trama, claro, contou e muito, porém, logo nos primeiros 3 minutos, a plateia é arrebatada por uma sequência de créditos absolutamente incrível, na qual a vida de uma bala, do nascimento à morte, é acompanhada por meio de uma câmera-subjetiva ao som da clássica “For What It’s Worth”, do grupo americano Buffalo Springfield. Um canção composta em 1967 e inspirada por conflitos entre hippies e polícia. Exatamente o tipo de conflito que o protagonista adoraria entrar para faturar um pouco mais, caso um dos lados quisesse reforçar o armamento.

A cena é fantástica e a escolhida para ilustrar o Dia Mundial do Rock aqui no Blog Cinefilia em mais um Trilha.


Resumo (4 a 10 jul)

die-welle-posterA Onda (Die Welle, 2008). De Denis Gansel

Trabalhando personagens que, de uma forma ou outra, precisam de um tipo de autoridade, A Onda manipula algo delicado em vários níveis: o espírito de grupo. A trama se baseia num episódio real no qual um professor simulou um Estado fascista na própria sala de aula. Aqui, as consequências saem do controle, mas o roteiro tenta manter isso dentro da maior verossimilhança possível, fazendo com o grupo dos Camisas Brancas se tornem um tipo de Reich juvenil, mas sem ações absurdas de tomada do poder. Interessante observar como a “onda” cresce e vai unindo os garotos, devidamente expostas com pequenos exemplos. A dupla que evita que um colega apanhe ou o time de pólo aquático que de repente começa a funcionar como equipe, além da óbvia identificação das camisas sem cor. Estranho também observar como os garotos fazem crescer o movimento. Em sua primaira ação de rua, não se diferenciam muito dos  anarquistas que tanto odeiam. Melhor ainda é ver o professor outsider se tornar um verdadeiro führer e depois um tipo de mártir tortuoso. Um grande filme, cheio de mensagens. Nota: 8,5

megamindMegamente* (Megamind, 2010). De Tom McGrath

A pergunta é: como um roteiro tão esperto, cheio de frases de efeito, ótimas piadas deixa um buraco que tem tudo a ver com a virada do longa? Sorte do espectador que para relevar um problema relativamente grave (leia o asterisco duplo**, mas há SPOILER), há muita coisa boa. Começa com o visual do filme, de primeiríssima. Desde a direção de arte, com uma das cidades mais belas já criadas para um filme de animação – me arriscaria dizer que Metro City, ao seu jeito, rivaliza com a Paris de Ratatouille –, até ao figurino inspirado, principalmente nos modelos heavy-metal-exagerado de Megamente. Tudo com uma mãozinha muito bem-vinda de Guillermo de Toro, consultor criativo do filme. A montagem é das melhores, cheia de cortes fluídos (direção ajuda muito) com a passagem de elementos na frente dos enquadramentos para delimitar a tomada, além de elipses bem eficientes – e divertidas. E não há como comentar a ironia da narrativa, que mesmo trilhando o caminho mais óbvio, do vilão que desviliniza, mas que consegue dar boas voltas até lá. Inclusive com “homenagens” a Superman e até ao jogo Donkey Kong. Nota: 8,5

SPOILER **Se Metro Man não morreu e se o DNA é de um esqueleto qualquer, de onde viria os superpoderes do Titan???

akiraAkira (Idem, 1988). De Katsuhiro Ohtomo

Se as perseguições de motos nesse clássico já foram tão elogiadas é pelo simples fato delas se basearem num princípio báscico de Akira: tudo tem movimentos espantosamente fluídos. Ver a cidade de fundo em perspectiva, enquato os veículos se movimentam, só aumenta a sensação de velocidade. Ver um personagem se sentar e a poltrona acomodar seu estofo ao contorno da pessoa ou ter multidões passando pelo enquadramento é algo que simplesmente encanta ao mesmo tempo que a narrativa de desenrola numa das ficções científicas mais interessantes de todos os tempos, tratando de maneira ambígua a relação Homem vs. Deus. E tome o excelente som do filme.  Não à toa, um clássico, como já dito. Nota: 9

*Filme assistido pela primeira vez


Crítica: X-Men – Primeira Classe

xmenfirstclass_posterA volta de Bryan Singer ao universo dos mutantes criados por Stan Lee, coincide com o retorno à questão fundamental dos personagens: aceitação. Mais, X-Men – Primeira Classe (X-Men – First Class, EUA, 2011) conta a história dos dois eixos primordiais da saga: a formação da dualidade vingança/diplomacia ancorada por Magneto e Professor Xavier. Além, claro, de mostrar de onde nasceu o respeito mútuo, ainda que seus atos os encaminhem para o confronto direto futuramente.

Não é nenhuma coincidência, portanto, que a cena de abertura desse prequel seja a mesma do X-Men – O Filme, de 2000, na qual o jovem Erik Lehnsherr é separado dos pais num campo de concentração e sua ira abala a estrutura metálica do portão da prisão. A relação do garoto com o diretor do campo, vivido com gosto por Kavin Bacon, que se desenvolve na exploração dos poderes do futuro Magneto e posterior revanche, é um dos pilares do filme. O complemento fica por conta dos estudos e o encontro fraterno entre Xavier e Raven.

Há 11 anos, Singer dirigiu a aventura, dessa vez, produz, deixando o ótimo Matthew Vaughn comandando o longa. Muito bem, diga-se de passagem. Um cara que se preocupa em ser dinâmico sem perder a elegância, vide a cena do bar na Argentina. A câmera é precisa, mostra bem o ambiente e de maneira objetiva os ângulos dão o máximo de informações sem diálogos expositivos, seja na foto pendurada na parede que denuncia os inimigos, seja nos olhares desses mesmos homens.

Talvez por isso, os diálogos do roteiro de Ashley Miller, Zack Stentz, Jane Goldman e Matthew Vaughn sejam tão marcantes. Na mesma cena do bar, Magneto, com uma ironia que não cabe dentro da própria satisfação em se vingar, diz aos homens quem matou seu pai. Ou faça de um simples diálogo entre o mesmo personagem e Xavier, pouco antes de uma antena ser movida, a parte mais emocionante do longa.

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Pena que o mesmo roteiro que cria uma sequência fantástica de invasão à recém-criada escola para adolescentes mutantes –  iniciada com barulhos adafados de corpos caindo do céu –, não chega a pôr em cena novos bons mutantes. Afinal, ver um rapaz que voa pela vocalização sonora ou uma jovem que simplesmente tem asas de libélula não é nada empolgante. As exceções são Sebastian Shaw e Azazel, cujo poder nem é tão novo assim.

E se a direção de arte e a ambientação da fotografia ao estilo sessentista são dois dos grandes acertos do filme, os efeitos visuais são irregulares. Assim como a maquiagem, que faz Fera parecer mais um ursinho de pelúcia que o ser ameaçador que se contrapõe à diplomacia em X-Men – O Confronto Final.

O terceiro longa dos heróis mutantes, inclusive, já não tinha a mesma carga dramática que este Primeira Classe, o qual impõe sua força nas inúmeras discussões a respeito da natureza dos Homo sapiens superior em relação ao ódio que os “seres normais” nutrem por eles. Um debate que foi quase totalmente esquecido em Wolverine, só que aqui volta reforçada com ótimas interpretações de James McAvoy (Xavier) e Michael Fassbender (Magneto). E é bom que os personagens ganham mais camadas, seja na faceta mulherenga do Professor X ou na humanidade bem mais acentuada de  Eric.

Nota: 8,5

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