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Archive for Agosto, 2011

Crítica: Transformers – O Lado Oculto da Lua

transformers_dark_of_the_moon_02Depois de fazer a plateia ensurdecer e achar que a mente de Michael Bay tivesse regredido  para 11 anos, eis que surge a segunda continuação da franquia. Transfomers – O Lado Oculto da Lua (Transformers – Dark of the Moon, EUA, 2011) é o resultado de um caminhão de críticas de seu antecessor, cujo roteiro pegou pesado nas piadas chulas e quis inventar uma temática mística para os robôs alienígenas.

Primeiro que Bay conseguiu ser um pouco menos histérico. O som dessa vez, ainda que excessivo, não é como a insuportável mistura de sons metálicos de A Vingança dos Derrotados, há dois anos. A montagem também economiza nos cortes, mas não tanto que seja possível recomendar o longa a um portador de labirintite. O tom de comédia juvenil ainda é mantido, mas, pelo menos, está nas mãos de gente competente, como Ken Jeong –  ainda que ninguém consiga entender o motivo de John Malkovich entrar no projeto, mesmo engraçado.

A ação também está mais séria, até onde se pode dizer que robôs de cinco metros saindo na mão seja sério. O terço final do longa mostra uma enorme batalha depois da invasão dos malvados Decepticons a Chicago. A sequência que, sozinha, toma quase todo o último ato da produção, é ampliada ainda mais pelo 3D competente. As paisagens urbanas vistas de cima são uma grande sacada do diretor para explorar ao máximo suas imagens em terceira dimensão, mantendo o quadro praticamente inteiro em foco, o que traz uma boa quantidade de elementos de cena “para fora” da tela. Essa, com certeza, é a melhor característica do filme.

É pena, portanto, que as lições aprendidas em 2009 não foram completamente aplicadas em O Lado Oculto da Lua. Principal problema: roteiro. Há até uma boa intenção em criar uma trama que envolve conspirações ligadas à Guerra Fria. Entretanto, é difícil de acreditar que o herói da “saga”, Shia LaBeouf esteja numa pindaíba gigante, sustentado pela namorada e sem emprego, mesmo depois de salvar o mundo duas vezes.

Depois, há uma quantidade de gordura incrível no filme. Personagens demais que não dizem a que veio, diálogos que não levam a nada e cenas puramente estéticas para ratificar cacoetes manjados de Bay. Seja na presença dos pais de  LaBeouf, alívios cômicos irritantes. Seja nas falas em off de Optimus Prime, com a função de relatar o que as imagens não conseguem – por incompetência do cineasta. Ou mesmo nos planos baixos que tentam exaltar herois, mas que aqui chega ao absurdo de mostrar Shia se levantando enquanto sua namorada se agacha, numa demonstração do esvaziamento até mesmo da estética da produção.

Inchado e entediante durante o segundo ato, no qual deveria haver um senso de urgência devido à correria aprontada pelos personagens para desbaratar um plano maquiavélico, esse terceiro Transfomers é, ironicamente, cheio de soluções absurdas e convenientes, quando tem quase 160 minutos para elaborar quantas situações quisesse com início, meio e fim plausíveis. Quer exemplo maior que um relógio que cai no confronto direto entre LaBeouf e Patrick Dempsey? Confronto este, também uma tentativa de satisfazer a plateia contra o vilão humano da trama.

Ah! E não posso esquecer das cenas recicladas de A Ilha que Michael Bay, na maior cara de pau, reutiliza. Clique aqui e entenda.

Nota: 6

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Resumo (15 a 21 ago)

savingprovateryanO Resgate do Soldado Ryan (Saving Private Ryan, 2008). De Steven Spielberg

A sequência de abertura desse filme ficou tão marcada, que é difícil, 13 anos depois, não comparar qualquer épico de guerra à obra de Spielberg. Não é para menos, tecnicamente, o filme é irretocável, parece que não há nada fora do lugar, um feito para uma produção de tal largura. O som é absurdo, com tiros, explosões e gritaria favorecendo o trabalho dos criadores. A montagem é dinâmica e clara, você vê muito bem o que acontece em toda a cena. As cores lavadas também se tornaram referência de fotografia. Já a direção é corajosa e complexa, além de gráfica, sem esconder qualquer violência e ainda consegue ser poética em closes e na crueldade do momento do desembarque na França. Pena que o diretor ponha a imagem flamulante da bandeira americana como se fossem os estadunidenses os libertadores, num filme que tem um dilema muito mais intimista que patriótico: vale a pena arriscar a vida de vários homens, quem também têm famílias, pela vida de um soldado, o qual precisa voltar para casa? A todo momento a humanidade dentro daqueles homens será testada, assim como sua honra. Nota: 8,5

d-warD-War – A Guerra dos Dragões* (D-War, 2007). De Hyung-rae Shim

Depois de alguns anos eu posso dizer verdadeiramente que vi o pior filme da minha vida. O cargo, antes, era de Experiência 2. Assistir a D-War é ter uma aula de como não se fazer um filme: querer ir além de suas possibilidades artísticas e de entretenimento. Primeiro que o roteiro é uma grande confusão, com flashbacks longos demais e uns dentro dos outros. Investe numa mitologia sobre dragões e mulheres e segue num enredo apressado que descamba para o vazio, deixando os “efeitos especiais” tomarem conta. As aspas são devido à qualidade na criação das criaturas digitais que invadem Los Angeles. Os efeitos, ainda que queiram ser grandiosos, são fracos e tentam emular filmes como O Mundo Perdido. Justamente pela vontade de ser maior do que é, não é possível dizer que o filme foi criado como obra trash. Eventualmente pode ser classificada como tal, mas involuntariamente, uma vez que custou US$ 70 milhões. Não vou nem comentar as atuações pífias e a precariedade da direção, a qual, incrivelmente consegue um único bom momento: um personagem atravessa uma grade com seus poderes vindos do Oriente dos século 16 e uma velhinha tenta fazer o mesmo. Ela falha e você se importou com algo nos cerca de 90 minutos do longa. Nota: 0,5

*Filme assistido pela primeira vez


Crítica: Super 8

super8_01Steven Spielberg é uma referência eterna para o Cinema infanto-juvenil. Ele encantou muito jovem de qualquer idade com clássicos como E.T. e Contatos Imediatos do 3º Grau. Os filmes da década 70 e 80 estão entre os mais lembrados do cineasta, que formou, literalmente, gerações de outros diretores. Com Super 8 (Idem, EUA, 2011), J.J. Abrams deixa claro sua adoração pelo mestre.

Não é à toa que Spielberg produza o longa, o qual parte de um ponto muito familiar: grupo de garotos que faz um filme amador presencia um grande acidente com um trem que corta a cidadezinha onde moram. A câmera super-8 de um deles registra tudo, inclusive um ser estranho que acaba fugindo após o descarrilamento.

É nesse momento que Abrams mostra sua personalidade, criando um acidente absolutamente espetacular, ainda que um tanto exagerado, mas que conta com uma tensão e uma grandiosidade impressionantes. Mesmo no escuro, os efeitos visuais são ótimos e só perdem para o incrível desenho de som da sequência.

O cineasta ainda defende muito bem a nostalgia ao colocar a ação de Super 8 na década de 1970 e ter na fotografia de Larry Fong, cheia de rastros de luz (flares) azuis, elementos que dão ar de recordação às imagens. É pena que a fotografia se torne um problema por ser tão escura em alguns momentos. Eles até funcionam para esconder a criatura que começa a causar problema à pequena cidade, mas quando chega o momento de revelar o bicho, a escuridão e a insistência de Abrams em colocar objetos entre o ser e a câmera irrita por não revelar muita coisa da anatomia dele no terceiro ato do filme, já com todo o suspense feito.

E olha que até ali o diretor tira boas soluções da cartola para não revelar muita coisa, seja escondendo um ataque com um luminoso de posto de combustíveis, seja desfocando o enquadramento ou mesmo usando a famosa câmera subjetiva. Aliás, a direção, ainda que tente emular Spielberg, tem  momentos muito bons, como no enquadramento plongée no ataque ao ônibus, que mostra a fuga de Joe ou quando Louis e Charles conversam no carro e este diz “Foi um acidente” apenas com sua boca em primeiro plano – três palavras que no contexto do filme valem muito, por isso o enquadramento.

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Assim como em outros momentos as escolhas não são das melhores. O veículo construído nos últimos minutos do filme é forçado, afinal, se é erguido com objetos metálicos variados, não deveria ter superfície lisinha, uma vez que o ferro não foi fundido. Da mesma forma que a criatura guarda pessoas para um determinado fim, porém o roteiro poupa convenientemente vários personagens importantes. Até o fato de um homem sobreviver a um acidente tão grave como o do trem é difícil de entender.

Sorte de Super 8 que o grupo de jovens atores faça um trabalho muito bom, destacando-se três deles. O “cineasta” Charles, vivido por Riley Griffiths, que mostra conhecimento sobre Cinema, numa boa ideia do roteiro, que homenageia realizadores dessa arte em geral. Já o protagonista Joe recebe a inteligêrncia de seu intérprete, Joel Courtney, o qual consegue passar os sentimentos de luto pela perda da mãe e insegurança, ao mesmo tempo que sutilmente solta um sorriso maroto ao saber que uma garota está apaixonada por ele. A tal é a dona do cast do filme, Elle Fanning como Alice. Ainda que direção e roteiro trabalhem por ela, a garota de apenas 13 anos faz por si. Se ela precisa dirigir e interpretar uma boa atriz, se não fosse pelas próprias mãos, seria um tiro no pé. Mas o vozeirão, a ótima atuação e a beleza da garota são puro encanto.

Sim, Elle é irmã de Dakota Fanning. O talento parece ser mesmo de família. Já Abrams pode se gabar de ter um elenco juvenil tão bom quanto o dos filmes do inspirador Steven Spielberg.

Nota: 7,5

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Not Johnny Walker…

… But they keep walking

Vi aqui


Antes da fama

Jack Black meio magro em A História Sem Fim III. Angelina Jolie com 9 aninhos em Lookin’ to Get Out. Scarlett Johansson, também aos 9, num teste de vídeo e com medo de insetos. Sarah Jessica Parker com bela cabeleira em 1980.

25 Atores antes da Fama.


Resumo (1º a 14 ago)

das_parfumPerfume – A História de um Assassino (Das Parfum – Die Geschichte eines Mörders, 2006). De Tom Tykwer

Do que mais se falava há 5 anos, quando o filme foi lançado, era sobre os artifícios que o cineasta Tom Tykwer havia lançado mão para a adaptar o livro homônimo de Patrick Süskind. A missão, diziam, era difícil já que a descrição de cheiros era uma tarefa e tanto para uma arte tão visual como o Cinema. Por meio de muitos planos-detalhe e de uma edição de som de primeira, o diretor conseguiu captar o asco e a delícia dos aromas que fazem a atmosfera desse longa. Tykwer filma com gosto amêndoas e flores e causa náuseas ao mostrar um dedo sujo ou o mercado de peixes da Paris do século 18. Tudo isso para contar a história de Jean-Baptiste Grenouille (Ben Whishaw), um rapaz que nasce com o olfato mais apurado que o comum, vira aprendiz de perfumista e descobre como criar o perfume perfeito de uma maneira assustadora: usando corpos de belas mulheres. O filme é corajoso e tem força nas imagens, mas abusa da narração em off, que ajudaria se fosse mais econômica, assim como o ritmo se torna um tanto apressado a partir do momento em que Grenouille passa a criar seu perfume. De qualquer forma, um longa que cria um choque tão grande a partir dos cabelos vermelhos da linda Rachel Hurd-Wood e da atuação pungente de Alan Rickman merece muito respeito. Nota: 8,5

inception-poster1A Origem (Inception, 2010). De Chistopher Nolan

Os atores são ótimos, a produção como um todo é primorosa, mas esse sim é um filme que se pode dizer que é do diretor. Não pela execução, pois Chris Nolan não fez tudo só, mas da concepção ao produto final vemos que o projeto ambicioso deu certo muito por conta da mão firme do cineasta. Ele criou, literalmente, um mundo a parte para que os roubos e inserções de ideias pudessem acontecer. Tudo com muita coerência e incrivelmente possível de ser absorvido, apesar de tanta complexidade. Criar sonhos dentro de sonhos e planos mirabolantes foi recompensado com ótimas críticas e muitos elogios do público. Aqui, a direção de Nolan é detalhista, mas o roteiro – também dele – é espetacular, amarrando as pontas e soluções criativas. Se a elaboração do plano principal é um pouco corrida, a inteligência do filme vem do fato de que cada frase conta, pedindo a atenção do público para um filme instigante e que ainda vai dar espetáculo visual. Se cria uma dúvida no final, ela serve apenas para ser mais um ponto na discussão sobre um dos melhores filmes da década. Nota: 9


Reimaginação

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Um trailer muito bacana vazou na Internet em maio: tratava-se do preview de The Girl with the Dragon Tattoo, de David Fincher, visão do diretor de A Rede Social para o livro de Stieg Larsson. No vídeo, supostamente gravado amadoramente de uma sessão não-comercial, as imagens são montadas no ritmo duma versão de “Immigrant Song” feita por  Trent Reznor e Atticus Ross. Um primor.

Tudo muito bom, tudo muito bem, mas no fim das contas ainda acho desnecessária essa coisa que o cinema norte-americano tem de refilmar sucessos estrangeiros recentes para que seu público não precise assistir a um filme com legendas. Para quem não sabe, o livro de  Larsson já foi filmado no ótimo Os Homens que não Amavam as Mulheres, longa-metragem sueco que mostrou ao mundo talento da atriz Noomi Rapace. O fato de Fincher entrar na adaptação pode ser uma esperança, afinal, até agora o cineasta não errou em nenhum de seus oito filmes.

Outro exemplar saído da Suécia que teve seu equivalente do Tio Sam foi um dos melhores filmes de terror da década, Deixe Ela Entrar. A relação de amizade e amor entre um garoto e uma vampira-mirim aterrorizou tanto quanto recebeu elogios pelo mundo. Resultado? Ganhou o remake hollywoodiano com o diretor de Cloverfiled, Matt Reeves, e a jovem Chloe Moretz (a Hit Girl de Kick Ass). Mas você pode perguntar: “E aí? É bom ou não?”. Eu digo: importa? A pergunta que deve ser feita é: tem motivo pra existir?

Veja o caso de [REC]. Em 2007, o terror espanhol pegou todas lições de filmagem em primeira pessoa de A Bruxa de Blair e reciclou os longas de zumbis com sua câmera subjetiva num enrendo intenso e amedrontador. Apenas um ano depois, nos Estados Unidos, ele se tornou Quarentena e foi refilmado praticamente cena a cena, só que com diálogos em inglês.

Claro que o maior motivo é satisfazer o olho grande que quer faturar sobre um enredo já testado e aprovado, só que agora com a vantagem de ter rostos conhecidos do grande público estadunidense.  The Girl with the Dragon Tattoo terá Daniel Craig no elenco, enquanto Quarentena foi protagonizado por Jennifer Carpenter, que esteve O Exorcismo de Emily Rose. Entretanto, o público por lá realmente não é muito chegado em filmes legendados, afinal, são a indústria mais forte do Cinema do mundo, o que não falta é título falado na língua pátria. Ler pra quê, né?

Nos últimos anos, o cinema de terror asiático também foi explorado a exaustão. O Chamado é uma exceção digna em meio a tantas falhas. O remake de Ringu apenas foi o mais famoso, depois dele qualquer fita oriental mediana que despontava no mundo mereceu uma versão ocidental. Do Japão ainda veio Ju-On, que ficou famoso dessa lado do planeta como O Grito. Da Coréia do Sul saiu Medo, refeito como O Mistério das Duas Irmãs. Até produções taliandesas como o regular Espíritos – A Morte Está ao Seu Lado ganharam uma reimaginação yankee. Nesse caso, o fraco Imagens do Além. O brasileiro Walter Salles entrou numa dessas e refez para um estúdio de Hollywood o drama de terror japonês Água Negra. Focou mais no teor dramático e foi esculhambado pela crítica.

Por falar em brasileiros, há alguns anos, o forte O Invasor, de Beto Brant, quase chegou às telas norte-americanas com o título The Trespasser. O desconhecido cineasta Frank E. Flowers chegou a ser anunciado e queria levar a história dos subúrbios paulistanos para as colônias cubanas em Miami. Alguém aí lembrou de Scarface? Ainda bem que não vingou. Pelo menos até hoje. Senão poderia acontecer o mesmo que Nove Rainhas. O elogiado filme policial argentino se transformou em 171. Preciso dizer mais?

*Texto originalmente publicado na Resvista Meio & Midia CULT (ed. 72) – Junho de 2011