Go ahead, punk. Make my day.

Reimaginação

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Um trailer muito bacana vazou na Internet em maio: tratava-se do preview de The Girl with the Dragon Tattoo, de David Fincher, visão do diretor de A Rede Social para o livro de Stieg Larsson. No vídeo, supostamente gravado amadoramente de uma sessão não-comercial, as imagens são montadas no ritmo duma versão de “Immigrant Song” feita por  Trent Reznor e Atticus Ross. Um primor.

Tudo muito bom, tudo muito bem, mas no fim das contas ainda acho desnecessária essa coisa que o cinema norte-americano tem de refilmar sucessos estrangeiros recentes para que seu público não precise assistir a um filme com legendas. Para quem não sabe, o livro de  Larsson já foi filmado no ótimo Os Homens que não Amavam as Mulheres, longa-metragem sueco que mostrou ao mundo talento da atriz Noomi Rapace. O fato de Fincher entrar na adaptação pode ser uma esperança, afinal, até agora o cineasta não errou em nenhum de seus oito filmes.

Outro exemplar saído da Suécia que teve seu equivalente do Tio Sam foi um dos melhores filmes de terror da década, Deixe Ela Entrar. A relação de amizade e amor entre um garoto e uma vampira-mirim aterrorizou tanto quanto recebeu elogios pelo mundo. Resultado? Ganhou o remake hollywoodiano com o diretor de Cloverfiled, Matt Reeves, e a jovem Chloe Moretz (a Hit Girl de Kick Ass). Mas você pode perguntar: “E aí? É bom ou não?”. Eu digo: importa? A pergunta que deve ser feita é: tem motivo pra existir?

Veja o caso de [REC]. Em 2007, o terror espanhol pegou todas lições de filmagem em primeira pessoa de A Bruxa de Blair e reciclou os longas de zumbis com sua câmera subjetiva num enrendo intenso e amedrontador. Apenas um ano depois, nos Estados Unidos, ele se tornou Quarentena e foi refilmado praticamente cena a cena, só que com diálogos em inglês.

Claro que o maior motivo é satisfazer o olho grande que quer faturar sobre um enredo já testado e aprovado, só que agora com a vantagem de ter rostos conhecidos do grande público estadunidense.  The Girl with the Dragon Tattoo terá Daniel Craig no elenco, enquanto Quarentena foi protagonizado por Jennifer Carpenter, que esteve O Exorcismo de Emily Rose. Entretanto, o público por lá realmente não é muito chegado em filmes legendados, afinal, são a indústria mais forte do Cinema do mundo, o que não falta é título falado na língua pátria. Ler pra quê, né?

Nos últimos anos, o cinema de terror asiático também foi explorado a exaustão. O Chamado é uma exceção digna em meio a tantas falhas. O remake de Ringu apenas foi o mais famoso, depois dele qualquer fita oriental mediana que despontava no mundo mereceu uma versão ocidental. Do Japão ainda veio Ju-On, que ficou famoso dessa lado do planeta como O Grito. Da Coréia do Sul saiu Medo, refeito como O Mistério das Duas Irmãs. Até produções taliandesas como o regular Espíritos – A Morte Está ao Seu Lado ganharam uma reimaginação yankee. Nesse caso, o fraco Imagens do Além. O brasileiro Walter Salles entrou numa dessas e refez para um estúdio de Hollywood o drama de terror japonês Água Negra. Focou mais no teor dramático e foi esculhambado pela crítica.

Por falar em brasileiros, há alguns anos, o forte O Invasor, de Beto Brant, quase chegou às telas norte-americanas com o título The Trespasser. O desconhecido cineasta Frank E. Flowers chegou a ser anunciado e queria levar a história dos subúrbios paulistanos para as colônias cubanas em Miami. Alguém aí lembrou de Scarface? Ainda bem que não vingou. Pelo menos até hoje. Senão poderia acontecer o mesmo que Nove Rainhas. O elogiado filme policial argentino se transformou em 171. Preciso dizer mais?

*Texto originalmente publicado na Resvista Meio & Midia CULT (ed. 72) – Junho de 2011

 

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