Go ahead, punk. Make my day.

Archive for Setembro, 2011

Trilha

A saga de Harry Potter no Cinema chegou ao fim. Muitos já sabiam o caminho que a história iria seguir antes mesmo da primeira parte de HP e as Relíquias da Morte estrear. Mas foi justamente este o melhor filme da série. Contemplativo e divertido ainda que muitas vezes mau. Com um ritmo completamente diferente de todos os filmes até ali, HP 7.1 ainda guardou aquela que talvez seja a cena mais bonita que nem J.K. Rowling esperava.

O momento é de tensão. Harry e Hermione estão em busca de uma forma para destruir Lord Voldemort. Estão sozinhos. Ron desapareceu. O mundo está todo nas costas daqueles jovens. Adolescentes com o a missão de salvar não só o chamado mundo da magia, mas também o mundo de ‘trouxas’ onde nasceram. A busca segue e chega uma hora que a pressão é grande demais.

Eis que surge no radinho uma música…

Ao som da belíssima “O Children”, de Nick Cave, Harry e Hermione conseguem alguns poucos instantes de alívio e dá ao mundo cinéfilo uma cena que já nasce antológica.

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Crítica: A Árvore da Vida

thetreeoflife_posterA Árvore da Vida (The Tree of Life, EUA, 2011) é um filme sobre questionamentos e com poucas respostas. Terrence Malick vai fundo na dor dos personagens e além. Ele quer saber que dor é essa que  o homem sente, frente a um Universo tão grande. Qual o significado dela a não ser para nós mesmos?

As primeiras cenas do filme dão conta da morte de um dos filhos do casal vivido por Brad Pitt e Jessica Chastain. Já aqui,  Malick começa sua saga de imagens incrivelmente lindas. Chega a ser um absurdo ver como o diretor consegue extrair beleza de cada um dos fotogramas em meio a tanta lástima. A mãe chora, seus olhos estão vermelhos e inchados, surge a imagem de cabeça pra baixo das sombras de crianças brincando. A sombra da lembrança que seria boa, mas que causa sofrimento e por isso está invertida.

Essa lamúria é captada com closes nos atores, principalmente de Jessica, e imagens fragmentadas, num ritmo que vai dar a linha narrativa do filme. Um excelente trabalho de montagem, que aqui teve cinco profissionais, incluindo o brasileiro Daniel Rezende, de Cidade de Deus e Tropa de Elite.

Em outra frente, Malick mostra Sean Penn, filho crescido do casal, amargo, distante do pai e extremamente angustiado com a educação austera que teve. Para ressaltar tudo isso, entra em ação a impecável direção de arte. No futuro, Penn caminha por ambientes abertos, cheios de vidros e tem uma casa quase totalmente branca. Vazio em oposição ao passado, no que parece ser a década de 50. Há uma boa escolha de locações, por meio da vizinhança simples e de ruas bonitas, além de casas aconchegantes. Ajuda muito a fotografia de Emmanuel Lubezki, sempre iluminada como numa boa recordação.

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Mas é a partir dessa questão particular que o cineasta começa a perguntar se aquilo tudo é realmente significativo dentro de um contexto maior. A tese que ele elabora é que os seres humanos são partículas perdidas numa história muito anterior. São uma parte da Criação e não o Objetivo dela. Aí ele dá o maior salto no tempo desde 2001 – Uma Odisséia no Espaço, vai até a formação da Terra e segue a evolução da vida no planeta. Mas como já foi dito, esse é um filme de perguntas. O cineasta parece não ter tanta certeza da pequenez do ser humano dentro dessa criação, tanto que filma o nascimento do primogênito de Pitt e Jessica como um verdadeiro milagre, vide a incrível imagem do pequeno pé do bebê nas mãos do pai, como se dissesse que cada detalhe daquele ser é sagrado.

A Fé, então, parece ser o porto seguro das pessoas para que se mantenham firmes no pensamento de que o homem é o centro do universo. Uma Fé frágil, abalada na primeira grande provação: a perda do filho que a mãe ofereceu a Deus desde o nascimento. Outra tese contestada pelo próprio Terrence, na busca dos personagens por algo transcendental, que mesmo ao questionar Deus, atestam a existência de algo espiritual, a exemplo da linda e melancólica frase de Penn, “Irmão. Cuide de nós. Guie-nos. Para o fim dos tempos”.

Se não fosse um filme profundo, A Árvore da Vida, ainda continuaria sendo um triunfo estético, com sua câmera fluída, cheia de movimentos leves, mas constantes e a trilha sonora maravilhosa, de Alexandre Desplat, somada a óperas já existentes. As camadas do longa são tantas, que além da discussão transcendental e da forma, ele também é uma densa discussão das relações familiares, com um filho inconformado, um pai cheio de defeitos e que cobra força dos filhos, uma mãe subserviente, mas de amor absoluto e a proximidade inabalável dos irmãos. Mas este é apenas um aspecto do que se pode chamar de obra de arte.

Não se trata de um filme fácil, mas é um trabalho recompensador.

Nota: 9

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Clipando

Os integrantes do R.E.M. anunciaram ontem o fim da banda, muitos fãs vão ficar na saudade. Mas muitos deles não sabem que Stipe e companhia têm uma ligação indireta com o Cinema, além das trilhas sonoras.

Em 1991, o grupo soltava o clipe de “Losing My Religion”, um verdadeiro marco, aclamado na MTV e pelos realizadores dessa mídia. O vídeo foi dirigido por Tarsem Singh, um realizador indiano que caprichou nos temas religiosos no clipe, misturando vários tipos de fé, seja cristã ou hinduísta.

Belas e estranhas imagens que creditaram o diretor para a cadeira principal na em A Cela, filme de 2000. O longa protagonizado por Jennifer Lopez trazia a bela entrando na mente de um matador para descobrir o paradeiro de uma vítima. Não se tratava de um grande roteiro, contudo o visual foi arrebatador, cheio de surrealismo e beleza.

Da mesma forma que o clip de quase uma década antes, com o qual deixo vocês em  mais um Clipando.

 


Resumo (12 a 18 set)

Fantasia1940Fantasia (Idem, 1940). De Walt Disney

Um filme cuja abordagem, há 70 anos, era tão diferente do que havia sido feito até ali, que era necessária não só a figura de um narrador, mas de um verdadeiro mestre de cerimônias para introduzir a plateia aos movimentos musicais que inspiraram animações que vão do mais lúdico ao transcendental e abstrato. As animações ganham traços geniais e são ambiciosas ao retratar a visão de vários artistas para óperas consagradas, na maior parte das vezes mostrando algo novo para a composição original. Como a abstração do primeiro movimento, de Johann Sebastian Bach, ou o balé bizarro em A Dança das Horas, de Amilcare Ponchielli. Alguns segmentos, porém, sucumbem por serem ambiciosos demais, como a Criação e derrocada dos Dinossauros na obra de Stravinsky, que se torna pedante depois de mais de 20 minutos. Contudo, finalizar de forma corajosa com uma madrugada endemoniada ao som de A Night on Bald Mountain, de Mussorgsky, versus a manhã abençoada por Ave Maria, de Schubert, é algo que realmente mostra o quanto Fantasia estava à frente de seu tempo. Mesmo cheio de rigor e pompa. Nota: 8,5

fantasia_2000Fantasia 2000 (Idem, 1999). De Vários

A principal diferença entre o clássico e essa homenagem 60 anos depois é a forma. Aqui as coisas são muito mais leves e soltas, as introduções têm âncoras como Steve Martin e Bette Midler fazendo piadas e movimentos mais brincalhões, vide Le Carnaval des Animaux, de Camille Saint-Saëns, que conduz a história de um flamingo com um iô-iô. Ainda há traços daquele ar de obra de arte, seja no repeteco do fantástico O Aprendiz de Feiticeiro ou na linda sequência das baleias voadoras levada por Pines of Rome, de Resphighi. Agora, nada que se compare à beleza do fechamento de Fantasia 2000. Guiada por Firebird Suite, de Stravinsky, acompanhar a história do espírito da terra nascendo, padecendo e depois ressurgindo das cinzas é algo que o próprio Walt Disney teria que aplaudir e escolher um de seus movimentos originais, de 1940, para sacar e encaixar este. Nota: 7,5


Crítica: Assalto ao Banco Central

assaltoaobancocentral-cartazÉ claro que todo diretor de TV tem sua porção cineasta. Porém,  é claro que para pular de uma mídia para outra é preciso entender do riscado. O que funciona na telinha, quase sempre não dá certo na telona. Exemplo:  close no rosto de Hermila Guedes após ela ser contrariada. A cara de má e o movimento de câmera, diz o clichê, demonstram que algo vilanesco virá por aí. OK, ver isso na TV já é literal demais, no Cinema, então, com uma tela gigante, se transforma em comédia involuntária.

E antes fosse apenas esse o problema de Assalto ao Banco Central (Idem, Brasil, 2011), primeiro longa-metragem dirigido por Marcos Paulo. Investindo num roteiro pífio que tenta ser complexo, o filme é pobre e muitas vezes de gosto duvidoso. O tempo gasto para criar personagens é inversamente proporcional à enrolação para que o túnel cavado para o maior assalto feito no país. Não há muitos elementos que definem os ladrões, apenas que eles exercem determinada função dentro do bando – um é o engenheiro, outro é o tesoureiro, o recrutador, o chefe, enfim -, mas que no fim das contas nem todos conseguem uma designação certa. O desleixo para que a trama  simplesmente caminhe chega ao ponto de Tonico Ferreira, um comunista deslocado no tempo, soltar mais uma de suas frases óbvias sobre o Marxismo e um companheiro dizer: “Entendi, a gente não pode deixar ser explorado por ninguém”, de forma tão ingênua e idiota que é inacreditável que tal cena tenha sido mantida no corte final.

Mas isso não é totalmente culpa de Marcos Paulo. O que ele realmente faz é dirigir o longa burocraticamente e com uma falta de criatividade latente. Primeiro que não há muita ação, algo estranho para um filme sobre roubos. Quando ela acontece chega a ser vergonhosa, vide a sequência da carreta cheia de carros. Depois vem o mal gosto estético. Logo na abertura há uma cena de sexo exibida em paralelo a uma ferramenta se enfiando e destruindo concreto. Um comparativo machista e que não leva a nada. Contudo, o maior exemplo da falta de traquejo de Paulo é Milhem Cortaz. Tirando leite de pedra com o material que fora entregue a ele, a boa atuação é sabotada pelo diretor ao sempre incluir algo que o faria ainda mais mal. Seja a fumaça do cigarro que o envolve “misteriosamente” ou uma entrada para terminar uma briga pontuada pela trilha ao estilo western.

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A trilha sonora, por sinal, é outra que seria cômica se não fosse trágica. Quando não investe em temas absurdos, lembra os piores trabalhos de produções de baixo orçamento. Durante a elipse de vistoria à casa e ao túnel, o compositor André Moraes saca um tema de estilo celta (sabe-se lá o porquê) e calma, quando o filme demanda uma música com energia. Fora os temas para as cenas mais picantes parecerem saídos de soft porns.

A única boa ideia do filme é narrativa que leva o assalto ao mesmo tempo que mostra a investigação conduzida pela Polícia Federal após o fato. O problema é que mesmo tendo mais tempo para desenvolver a investigação, ela é superficial e não evita o anticlímax que seria a extensão para além do roubo em si. Fora que a montagem não é das mais elegantes em fazer os saltos temporais.

Pena que um dos casos mais intrigantes da história policial brasileira tenha dado origem a um filme tão mal acabado. Se há algo que segura a história é a curiosidade sobre pra onde o roteiro vai levar a trama, que chega ao final tentando ser um Zodíaco, propondo um desfecho para o que nunca foi explicado com precisão e ainda tentando ter algum estilo na cena final. Tentando.

Nota: 4,5

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100 Grandes ‘Cala Bocas’ do Cinema

Shut The Fuck Up!


Resumo (22 ago a 11 set)

Love-and-Other-Drugs-PosterAmor & Outras Drogas* (Love & Other Drugs, 2010). De Edward Zwick

Concebido para ser satisfatório como todas as outras comédias românticas que você vê no cinema, Amor & Outras Drogas vence por ser despojada e ter um ótimo elenco. Na verdade, o filme de Edward Zwick é colhudo o bastante para ser um doce sem deixar de levar em conta o aspecto sexual da coisa. Ver mulherengos é fácil em romances por aí, mas mostrá-los no ápice de sua conquista com poucos constrangimentos é para poucos. Ferir uma das regras de Nora Ephron – nunca mostrar sexo no durante -, faz deste um programa diferente dentro do gênero. Fora que Anne Hathaway está muito à vontade em várias cenas de nudez (nada explícito, não se preocupe ou se anime demais). Jake Gyllenhaal também está tranquilo e ambos desfilam bons diálogos, ainda que a história seja, no fim das contas, quadradinha: casal que quer só sexo causal, vai se envolver e no final um deles mostra que esconde um segredo que se torna a grande provação do amor. Apesar de querer evitar o chororô explícito – vide a cena do encontro das pessoas que sofrem com Parkinson -, é difícil aceitar que depois haja uma cena artificialmente exaltando tudo que foi visto anteriormente. Enfim, juntando a boa trilha sonora (Fatboy Slim, Bob Dylan, Porcupine Tree) e as “inovações” para o ambiente tão previsível das comédias românticas, estamos diante de um bom filme para curtir de leve. Bem Leve. Nota: 7

Los-Cronocrimenes-bLos Cronocrimenes* (Idem, 2007). De Nacho Vigalondo

Trabalhando basicamente o suspense ao invés de investir pesado numa ficção-científica que correria o risco de se tornar pobre visualmente, o diretor/roteirista/ator Nacho Vigalondo cria um filme cujo interesse só vai aumentando com o transcorrer da trama. Com um detalhe: ele não reinventa a roda, filma de forma simples e ainda cria alguns bons planos e personagens. O filme costura três linhas narrativas distintas/paralelas divididas a partir do momento que seu protagonista entra numa máquina do tempo e tanta entender e se livrar de um verdadeiro fardo, ser o primeiro homem a viajar no tempo. A narrativa instiga o espectador justamente por liberarar aos poucos explicações e novos elementos a serem analisados até chegar em um final mau, sem ser torturante. Vigalondo como diretor gosta de ser mostrar em planos largos e cheios de movimentos, mas com muito cuidado quando envolvem um mesmo fato sendo reapresentado de outro ponto de vista. Apenas força a mão em algumas situações, a exemplo do sobretudo de certo personagem, usado apenas para que a trama transcorra como começou. De qualquer forma o visual desse personagem é excelente para um “vilão”. Interessante é a frase que se pode formular para o filme: ele é simples, até onde dá pra ser simples com três viagens temporais acontecendo ao mesmo tempo a certa altura. De qualquer forma, muito eficiente. Nota: 8

*Filme assistido pela primeira vez