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Crítica: Os Descendentes

cartazes-descendants_01A certa altura do amargurado Os Descendentes (The Descendants, EUA, 2011), o patriarca Matt King, vivido por George Clooney, diz que a família dele é como um arquipélago, com entes vivendo separados como ilhas. A trama, sem querer estragar o desfecho, é sobre um tipo de pangeia se formando.

Flagrando um momento crítico para a família King, a narrativa gira em torno da coma de Elizabeth King, a mãe que sofreu um acidente quase fatal e se tornou o centro das atenções do clã, se transformando também no catalisador dos choques das pessoas ao seu redor. E eles não são poucos: a filha mais nova, Scottie (Amara Miller), anda incontrolável e agressiva, a mais velha, Alex (Shailene Woodley), bebe e está distante física a sentimentalmente dos pais e o chefe da família não sabe se remenda as coisas em casa ou se resolve a venda de uma importante área virgem que pertence a ele, aos irmãos e aos primos.

É desse cenário nada bonito que Alexander Payne tira mais um longa agridoce, como já havia feito com Sideways – Entre Umas e Outras e As Confissões de Schmidt, mas de maneira um pouco mais emocional, pode-se dizer. Não que as marcas registradas não estejam lá, afinal, é possível rir e se sentir incomodado com as situações que ele cria, assim como já aconteceu com Paul Giamatti e seu vinho raríssimo, bebido com um hambúrguer barato, ou com Jack Nicholson e a compra de congelados depois da perda da mulher. O ótimo ator da vez é Clooney, que protagoniza uma das corridas mais tragicômicas que o Cinema já viu, após saber que sua mulher não era exatamente uma vítima imaculada. Quando ele sai em disparada, com suas roupas tipicamente havaianas e com passos estranhos, você não sabe se ri ou chora daquilo tudo.

Aliás, Payne desenvolve belas cenas para boa parte do elenco, que brilha, junto com sua direção – que adora closes. Sempre tendo a notícia mais trágica de todas como ponto de partida, as jovens Shailene e Amara choram e emocionam. A primeira, submersa numa piscina, como num rio de lágrimas, e a segunda sendo a criança que é, fazendo cara de choro e procurando apoio com lágrimas nos olhos deixando a revolta pré-adolescente de lado.

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Aliás, é neste momento que a montagem minimalista de Kevin Tent mostra que pode fazer muito pela produção. Para mostrar o pranto de Scottie, há um corte no exato momento em que ela recebe o comunicado, trocando a posição da câmera para que a atriz mirim saia da cara de tristeza para as lágrimas, o que chega a ajudar no resultado final da atuação. Fora que colocar a única cena em que se vê Elizabeth/Liz saudável com vento no rosto em alto mar para abrir o filme e, em seguida, impactar a plateia com a mulher já debilitada ao máximo no hospital, é uma boa estratégia do diretor.

Já não tão feliz é adoção da narração em off. Se de um lado Os Descendentes é aberto com um excelente discurso de Clooney sobre o que as pessoas acham de morar no Havaí (“Paraíso? Paraíso que se foda”), do outro lado essa mesma narração conflita com imagens que dizem muito mais por si, a exemplo da escada que King/Clooney enfrenta para chegar até o consultório do médico responsável pelo tratamento de Liz. Sozinho, o enquadramento em plongée mostrando ator subindo os vários lances consegue passar a dificuldade da situação pela qual passa o personagem, porém a narração interfere no momento, dando informações nem sempre necessárias e ainda tira a atenção da plateia daquele ótimo momento.

Da mesma forma que a falta de energia que circunda os personagens – salvo alguns poucos momentos já citados –, não “atinge a veia” do espectador como poderia. Talvez seja uma tática para aflorar certa estranheza relativa à gravidade da situação – a qual poderia trazer reações muito mais passionais. De qualquer maneira, Os Descendentes trata afetivamente os conflitos dos King e ainda reserva uma imagem extremamente terna para fechar o ciclo pelo qual eles passam.

Nota: 8,5

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