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Crítica: O Artista

cartazes-the_artistNum ano em que o Oscar foi voltado para tentar resgatar o público para as salas de Cinema, O Artista (The Arstist, França/Bélgica, 2011) polarizou a disputa com A Invenção de Hugo Cabret e assim como o longa-metragem de Martin Scorsese é outra obra de resgate da História do Cinema, não menos ousada e que tem quase o mesmo encanto, só que com um pouco mais de maturidade.

Contando a trajetória do ator fictício George Valentin (Jean Dujardin) durante as década de 1920 e 30, a produção é arrojada por ser quase totalmente muda, seguindo os passos da evolução tecnológica da época, quando os filmes começaram a introduzir o som nas telas, e da carreira do astro entra em decadência. E tudo se torna mais rico com a ideia de Michel Hazanavicius, diretor e roteirista, de contar essa história metalinguisticamente, ao manter O Artista mudo mesmo depois que o som é introduzido.

Emulando muito bem as produções da época, a fotografia em preto e branco também tem proporção de tela 4 x 3 característica do período, antes das câmeras em cinemascope – inventadas na década de 1950. Além disso, são bastante evocativos os grandes letreiros na abertura do longa.

E mais,  Hazanavicius não se cansa de brincar com a plateia contemporânea ao quebrar a expectativa de diálogos ou sons ambientes em vários momentos, a exemplo das palmas no fim da exibição do filme de Valentin, as quais o personagem ouve e agradece, mas que o espectador apenas pode ver. Ou no letreiro que está na coxia do cinema com os dizeres: “Por favor, silêncio detrás da tela”. Ou até mesmo no “Bang!” que surge num momento crucial da trama e causa alta tensão.

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Mas há ainda duas passagens explorando esse silêncio de maneira ousada. Uma é no diálogo entre George e a nova estrela Peppy Miller (Bérénice Bejo) numa escadaria, momento que dura minutos e  há apenas duas ou três falas transcritas em cartelas, mas que ainda sim é possível captar os sentimentos de pesar e empolgação dos personagens. Depois, um diálogo, já no terceiro terço do filme, no qual não existe trilha alguma para ditar o que você deve sentir, mas que é possível entender, se emocionar e perceber a o quanto é genuíno tudo aquilo.

Para que o diretor tenha tanta segurança nesses instantes, precisou de dois elementos: primeiro a trilha sonora de Ludovic Bource, não invasiva, mas que sabe emoldurar muito bem as nuances do longa. E fechando vem o elenco de O Artista, uniforme em suas atuações e que tem nos protagonistas grande força carismática. Jean Dujardin parece ser só dentes no início brilhante de George Valetin, mas que, aos poucos, se torna taciturno e preocupado, mas ainda com aquele sorriso guardado para momentos em que o passado glorioso vem à tona de alguma forma. Só o olhar dele nas filmagens de A German Affair já valeria muitos prêmios. Da mesma forma que  Bérénice Bejo brilha no tocante abraço que ela dá no paletó de Valentin, como se ele a abraçasse de volta.

Cheio de símbolos em cena – em sua última produção, George se afunda na areia movediça, ele também se recusa a falar com a esposa, como nas telas –, o longa ainda tem espaço para o genial pesadelo sonorizado de  George e faz referência direta a vários atores que perderam espaço depois da sonorização do Cinema, a exemplo de John Gilbert, ao mesmo tempo que lembra o caminho de ascendente de estrelas como Greta Garbo. Porém o mais importante é perceber o valor da época para a lapidação de uma arte que se transformou em indústria e ainda sim é encantadora. Tanto que um filme europeu consegue criar uma pequena jóia cinematográfica sobre um momento tão americano do Cinema.

Nota: 9

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2 responses

  1. Carlos Guimarães Coelho

    Eu daria nota 10, Vinícius. Achei esse filme um primor. E nele há uma imagem que incluo na minha coleção de cenas que consideram antológicas no cinema: quando o ator derrama o copo de uísque em cima de sua imagem refletida na mesa de espelho. Aquilo é de uma plasticidade e de uma metáfora impressionante. Fora isso, é um grande filme. E uma bela homenagem ao cinema.

    25 de Março de 2012 às 12:50 PM

    • O filme é cheio de imagens que falam por si, um excelente trabalho de direção, que não subestima a inteligência da platéia. Acho a cena em que Bejo se abraça usando o paletó de Dujardin fantástica, linda mesmo.

      25 de Março de 2012 às 2:14 PM

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