Go ahead, punk. Make my day.

Archive for Junho, 2012

Crítica: MIB – Homens de Preto 3

men-in-black-3-poster1Em 1997, o primeiro MIB foi uma grande brincadeira com a ficção-científica, adaptada das histórias de Lowell Cunningham para a Malibu Comics. Deu certo, fez moda com seus ternos pretos e óculos escuros e a continuação era inevitável. Cinco anos depois, MIIB – Homens de Preto II usou uma boa embalagem de homenagem aos clássicos trash do gênero, mas a trama era puro repeteco com piadas nem sempre engraçadas. MIB – Homens de Preto 3 (Idem, EUA, 2012) veio, uma década depois, para corrigir todos os erros de seu antecessor.

Começa pelo roteiro de Etan Cohen, que trabalha viagens no tempo, elemento comum na ficção, de forma criativa. Aqui o Agente J (Will Smith) tem que voltar à década de 1970 para evitar a morte de  K (Tommy Lee Jones). Tudo por conta de uma estratégia esperta do vilão mais interessante que a série criou até aqui, Boris, O Animal (Jemaine Clement), o qual dá a entender que realmente traz perigo à dupla de protagonistas desde a sua fuga de uma prisão na Lua.

Contudo é o maluquinho Griffin (Michael Stuhlbarg) que se torna a peça mais fascinante do filme. Ele é a parte criativa do roteiro, com seus poderes de antever instantaneamente o que o futuro reserva, levando em consideração acontecimentos que podem modifica-lo radicalmente. Se em determinado momento ele cria uma visão compartilhada com K e J muito empolgante com seu belo visual em um estádio, na sua apresentação parece um louco, até que se pode entender seus poderes. A atuação de Stuhlbarg, de olhos grandes e expressão iluminada, só deixa o personagem melhor.

Só não ganha da excelente emulação que Josh Brolin faz de Lee Jones no K setentista. Quando ele aparece pela primeira vez, sua expressão é fechada e as falas contidas, mas ao longo da história Brolin vai mostrando um lado mais descontraído, como no diálogo dentro do carro, o qual faz Smith se perguntar o que teria acontecido para que, com o passar dos anos, K se tornasse tão mal humorado.

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A resposta vem com um elemento extra, ainda não explorado pela série, a emoção. Por todo o filme é possível perceber salpicadas de drama, inclusive nas piadas – sim, nas piadas. Os discursos de despedida a Zed, por exemplo, são para rir, mas os gritos e as poucas palavras do momento deixam uma sensação incômoda no adeus a um personagem importante nos longas anteriores. Depois vem a relação entre K e J, muito mais próxima e que exige de seus intérpretes pelo menos uma cena dramática de verdade. A morte de Lee Jones no presente é antecipada por uma tensão crescente, culminando num quadro em que Smith está sozinho e recebe a última ligação do parceiro, que se vai também sozinho. A sequência é única nos três longas e só comparável ao final, que pode arrancar algumas lágrimas da plateia facilmente.

Outra novidade em MIB 3, a terceira dimensão, parece ter sido incluída apenas para a ótima cena de viagem no tempo, quando J despenca de um prédio e viaja por eras entre dinossauros e até entre os suicidas do crash da bolsa de Nova York, de 1929. De resto, o 3D é totalmente dispensável, apelando para os batidos objetos sendo arremessados contra a tela.

O pacote de MIB 3 é fechado com as boas e velhas piadas entre as diferenças de época e suas tecnologias – um neuralizador gigante, outro ligado à bateria num cinturão –, além de quebra de expectativas como um Andy Warhol questionando a arte de sua época – assista e entenda.

Nota: 8,5

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Resumo (20 a 24 jun)

dreamsmaycomeAmor Além da Vida (What Dreams May Come, 1998). De Vincent Ward

Dizer que temos aqui um filme profundo é exagero, mas o esmero visual do longa de Vincent Ward é tal que se torna impossível não se deixar levar pela história absolutamente romântica. Robin Williams evita um pouco as piadas e se torna uma escolha interessante para um papel que, em tese, exigiria um galã. Sorte de Ward, que tem nas mãos um ótimo ator em busca de um personagem diferente em sua filmografia e que se sai muito bem como o homem que morre e vai até o inferno buscar a esposa suicida. Antes disso, baseado no amor pela pintura que ambos têm, o longa cria cenas inacreditavelmente bonitas ao pôr na tela um paraíso feito de tinta. O ápice é o momento em que uma árvore roxa se desfaz com a tristeza da perda da personagem de Annabella Sciorra – não menos bonita. A direção de arte, apoiada em bons efeitos visuais, vai além e cria inúmeros outros ambientes de beleza ímpar, seja apostando na luzes ou na escuridão. Repare no contraste do céu criado pela filha de Williams, iluminado em tons dourados, com a biblioteca obscura onde se encontra Max Von Sidow. De resto, é manter o coração aberto para a emoção que a trama vai extraindo – a sacada aqui é elaborar momentos ternos no início da trama para depois começar a desfazer a ligação entre os personagens e ir reconectando um a um com uma surpresinha ou outra. Se não vai mudar sua vida – ou quem sabe mude, afinal, Amor Além da Vida é calcado inteiramente em doutrinas espíritas –, é um exercício de beleza raro e (spoiler) final feliz. “Quando eu era jovem, encontrei uma linda garota num lago”… Nota: 8


Meme: 300 ou O Rei Leão?

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Clique aqui e veja o fim da história: 300 ou O Rei Leão?

Com a dica é de Fabio Henrique Canudim


Resumo (11 a 19 jun)

cilada-comCilada.com* (Idem, 2011). De José Alvarenga Jr.

Eu até entendo que Bruno Mazzeo tente entrar no mundo do Cinema usando o seu “produto” de maior repercussão – o humorístico de TV, Cilada. Também entendo a ideia de manter o protagonista de Cilada.com com seu nome, Bruno, buscando identificação imediata com a plateia – da mesma forma que faz com seu interesse amoroso, Fernanda (Paes Leme). Contudo, para que comédia funcione, as piadas devem ser boas. Isso, parece que Mazzeo não entendeu, pois além das piadas do longa serem absolutamente sem graça, são forçadas e em ritmo episódico. Um dos casos mais problemáticos abre o filme, quando Bruno está aos amassos com uma belezura qualquer atrás de uma tela iluminada e a sombra dos dois é projetada. Primeiro que os efeitos visuais do momento parecem ter saído de 1950, tamanha a precariedade da silhueta, segundo que esta é uma piada autoplagiada pelo diretor José Alvarenga Jr., que havia feito a mesma coisa em Os Normais, de 2003, e pior: na verdade, o “cineasta” copiou o momento de Austin Powers – O Agente ‘Bond’ Cama, de 1999. Mas a situação consegue ser piorada, pois se você reparar bem, as sombras dos pombinhos é projetada de tal maneira que elas vão se encaixando nos cenários preparados para o discurso do ator Marcos Caruso, como numa janela ou “atrás” de uma mureta, numa forçada de barra que não acrescenta nada a já sonolenta sequência. Isso sem contar que o imbróglio que dá origem a todo a trama, o tal vídeo que mostra Bruno numa ejaculação precoce, simplesmente é esquecido a certa altura da história e resolvido com uma frase que poderia ter sido dita no primeiro reencontro do protagonista com Fernanda. Por falar em ejaculação, assistir ao momento em que Bruno participa de uma terapia para ejaculadores precoces que sujam as próprias caras (mesmo de calças) ao falarem de mulheres é simplesmente constrangedor. Nota: 3

fifth-elementO Quinto Elemento (The Fifth Element, 1997). De Luc Besson

Esse é um filme que não tem nenhum compromisso com a realidade, afinal, a trama trava uma luta do bem contra o mal sem muitas explicações. Eles simplesmente existem e devem se digladiar para que o mundo seja ou destruído. O mal é uma massa quase amorfa e o bem uma mulher com as belas formas de Milla Jovovich, do alto de seus 22 aninhos. Há alienígenas, padres, um empresário inescrupuloso, um radialista escandaloso e um taxista. Dessa mistura incrivelmente estranha nasce um filme ultracolorido e divertido. Dizer que aqui existe um ficção científica é mera justificativa para o fato dele se passar no futuro e traquitanas tecno-bizarras aparecerem na tela. E na maioria das vezes ela serve muito bem, seja nos figurinos descolados de Jean-Paul Gaultier ou em toda a concepção visual do quadrinista Moebius para o filme. Dali, Luc Besson pisa forte no acelerador e cria cenas de ação vibrantes (um salto em meio a carros voadores, um tiroteio num cruzeiro interplanetário) ou momentos (quase) líricos como a recriação do Ser Supremo. A montagem com cortes rápidos e constantes só não é o melhor elemento do filme por causa dos personagens. Bruce Willis é o clichê dos clichês, mas de atuação charmosa, enquanto Milla tem o melhor trabalho de sua carreira, imprimindo empolgação quando precisa e olhar choroso para ganhar a plateia. No corner oposto, o vilão patético vivido por Gary Oldman é quase uma continuação de sua atuação agressiva/cômica de O Profissional. Nota: 8

cidade-de-deus-poster01Cidade de Deus (Idem, 2002). De Fernando Meirelles

O trunfo de Cidade de Deus é uma mistura fantástica de talentos bem dosados. Boa parte dos atores era amadora e foi trabalhada pela equipe de Fátima Toledo meses antes de entrar em cena, resultando em diálogos naturais e quase sempre com improvisos. Depois temos a direção de Meirelles, incrivelmente criativa e com um olhar esteticamente moderno que gerou muita controvérsia sobre a forma ter vencido a batalha sobre o conteúdo, gerando, inclusive o termo “cosmética da fome” em comparação à Estética da Fome de Glauber Rocha. Polêmica que por si já valeria a espiada no filme. Trabalhando muito próximo a Fernando Mirelles, o diretor de fotografia César Charlone faz não só um trabalho inteligente na divisão de cores nas diferentes fases do longa –  indo do avermelhado romântico da década de 60, aos coloridos anos 70, chegando à obscura década de 80 –, como ainda foi responsável pela viabilidade e até mesmo pela filmagem de cenas como a ótima perseguição à galinha na abertura do filme. Depois vem a montagem de Daniel Rezende, ágil e finalizador de um dos momentos tecnicamente mais impressionantes de Cidade de Deus: a história da Boca dos Apês, quando são contados anos de idas e vindas do local com apenas um enquadramento e a amarração milimétrica feita por Rezende. Por fim, guiando tudo, está o roteiro de Bráulio Mantovani, baseado no livro de Paulo Lins. Fragmentado e ainda sim inteligível, além de ter sido escrito através de uma logística complicada, absorvendo diálogos criados pelos atores durante sua preparação, o texto indicado ao Oscar é redondo, conseguindo amarrar as várias pontas que solta durante o longa. Em suma, perfeito. Nota: 10

*Filme assistido pela primeira vez


Crítica: Prometheus

prometheus_poster_07Com o perdão do trocadilho infame, assistir a Prometheus (Idem, EUA, 2012) é esperar por uma promessa que não vai se cumprir. Não se trata de spoiler, mas para um filme que tem a primeira metade com a missão de criar expectativa e levantar questionamentos sobre a origem da vida na Terra, a parte final é frustrante pelo desperdício de tamanho potencial.

A cena de abertura do longa é um bom exemplo do que pode vir por aí: em tom contemplador, a câmera voa por belas paisagens – algumas parecem telas impressionistas – até encontrar uma figura pálida ao lado de uma cachoeira. Ele bebe algo e sua morte parece criar vida. Dali começam a surgir os pontos de interrogação na cabeça da plateia, os quais terão ligação com a descoberta dos cientistas Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e Charlie Holloway (Logan Marshall-Green) de que não estamos sozinhos no Universo e que, possivelmente, pinturas rupestres mostram de onde, afinal, viemos todos nós.

É um início empolgante, que vai ganhando corpo com a viagem até a lua LV 223 para estudar essa tese. A introdução de David, o androide vivido por Michael Fassbender, é ainda mais promissora, pois se trata de um trabalho notável do ator, com sua movimentação mecânica e lógica que parece querer ultrapassar a barreira de sua programação, seja aprendendo Filosofia, seja pelo mistério que envolve o personagem.

A chegada em LV 223, o mesmo planeta visto em Alien – O 8º Passageiro e Aliens – O Resgate (correção: o planeta da série Alien é o LV 426), e a descoberta de pirâmides e seres gigantes conhecidos como Engenheiros – que mais tarde você acaba descobrindo se tratar de outra figura famosa da série Alien – dão forma à questão primordial da produção: quem são nossos deuses? As coisas, claro, não saem como o esperado, interesses maiores que a própria pesquisa estão envolvidos e a trama começa a descarrilar.

Para começar, não se sabe se o roteiro de Jon Spaihts e Damon Lindelof não tem estofo para responder as perguntas que ele mesmo faz ou se há uma descarada vontade de deixar pontas soltas para uma continuação. Fato é que o próprio filme dá um tiro no pé ao criar um momento no qual a protagonista Elizabeth Shaw passa a fazer inúmeras perguntas relevantes a determinado personagem e devido à força das circunstâncias nenhuma delas tem retorno. Para tentar preeencher esse espaço, um pequeno mistério é revelado gerando um novo conflito sobre os objetivos dos Engenheiros e Prometheus passa a ser um filme de ação com algum terror. Dessa forma, preguiçosamente, a produção emula um final que, na verdade, está longe do apontado pelo ponto de partida.

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Tudo bem que Ridley Scott cria boas cenas, seja na estranha figura aracnídea que aparece na porta da nave, seja na agonia de uma cirurgia para a retirada de um corpo estranho do abdômen de determinado tripulante. Mas mesmos essas passagens tâm sérios problemas, como a falta de motivação para a narrativa da primeira e o absurdo prosseguimento da segunda, quando a pessoa consegue correr após ser cortada profundamente.

E mais: ainda que Elizabeth ganhe certa profundidade ao confrontar seu cristianismo com a realidade do filme de que nossos deuses eram astronautas, é difícil acreditar que ela, cientista racional (em tese) ainda continue com sua fé ao saber disso. Em determinado momento alguém chega a comentar o fato: “Mesmo assim, você continua a acreditar?”. Mais uma vez faltaram explicações.

Ainda que problemático, não se pode dizer que este é um filme ruim, já que consegue, ao menos, prender a atenção até o minuto final. Além de ter uma ótima fotografia lúgubre como pede a narrativa – mas o 3D fica prejudicado por conta da escuridão extra dada pelo uso dos óculos.

De excepcional mesmo somente as várias referências à série Alien, que vão fazer os fãs procurarem com avidez. Elas são colocadas inteligentemente por todo o longa, seja num mural com a figura de uma das criaturas, seja em vermes ácidos, na nave na qual foram encontrados os ovos aliens ou no café da manhã pós-hibernação até chegar a LV 223 – só faltou a broa de milho.

E é interessante perceber a expansão tão grande de um mundo por meio de um prelúdio. Pena que ele ande só meio caminho.

Nota: 7,5

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Resumo (4 a 10 jun)

Alien-3-posterAlien 3 (Idem, 1992). De David Fincher

Mostrando personalidade desde o primeiro minuto, Alien 3 altera o famoso tema da 20th Century Fox e estabelece o clima de tensão que David Fincher, então estreante, pretende dar ao filme. Ainda que muitos considerem o longa-metragem apenas uma colagem do que já havia sido feito anteriormente, é nítido que exista um identidade, seja no ambiente da prisão-siderúrgica espacial, seja no clima entre a ação e o terror, passando pelas cenas mais violentas de toda a série. Fincher trabalhou no limite entre a criatividade e o cabresto da Fox, que praticamente ditou o que o cineasta vindo dos clipes e dos comerciais deveria fazer. Ainda há um ótimo terço final no qual o Alien da vez cai na armadilha humana de portas e chumbo fervente, enquanto a câmera subjetiva emula a movimentação do monstro em giros ousados e muita correria. Pena que a sequência obrigue o bichão a matar praticamente todo mundo em cena, como se o roteiro não soubesse o que fazer com tantos personagens. Mas a coragem do final, com Ripley dando cabo de seu destino, é digno de aplausos. Isso sem contar nos momentos iniciais, sem muita solenidade, mas que fez uma excelente ponte com os longas anteriores por meio de uma montagem entrecortada e de poucas imagens, que ainda sim faz a introdução com estilo e confiando na inteligência da plateia. E tem mais: Sigourney Weaver de cabeça raspada se transformou num ícone. Mesmo que haja um discurso daqueles motivacionais e algumas mortes que acontecem em momentos convenientes demais, não acho possível dizer que aqui temos um filme ruim. Nota: 8

alien -resurrection-posterAlien – A Ressurreição (Alien – Resurrection, 1997). De Jean-Pierre Jeunet

Cinco anos antes, a Fox deixou com que a série fosse finalizada corajosamente, mas parece ter se arrependido e deu um jeito de burlar a morte de Ellen Ripley com a onda científica da época: clonagem. A forma com a qual conseguiram uma amostra de sangue da protagonista (200 anos antes!) é contada de maneira displicente e aceitado isso, a plateia até tem uma distração, que é o investimento do roteiro de Joss Whedon na relação maternal de Ripley com a criatura que estava dentro dela. Se em 1986, Cameron fez de Ripley mãe da pequena Newt, agora existe uma ligação direta entre a Alien Rainha que foi gerada em seu peito e depois retirada, além dos bichões que surgem posteriormente. Para a missão foi chamado o diretor francês Jean-Pierre Jeunet, que até tenta emular a direção de arte vitoriosa da produção original de Ridley Scott, contudo a hitória sem ter pra onde caminhar acaba se tornando um monte de cenas de ação sem muita graça enquanto a trama envolvendo Ripley ganha seus momentos-chave: o nascimento, a descoberta do motivo de sua clonagem, o choque dos testes anteriores com bizarros fetos híbridos e, enfim, a “evolução” da espécie, com um novo ser criado de um útero que a Rainha ganha durante a experiência genética. Para ser ter uma ideia de como as coisas são descartáveis na história concebida por Whedon, a partir do momento em que a nave onde se passa o filme é atacada pelos aliens, a tripulação militar foge, sobrando um ou dois cientistas e quem realmente interessa para a trama: além da protagonista, Winona Ryder e seus companheiros piratas espaciais. O clima afetado do filme, com piadas estranhas, respinga até mesmo em Sigourney Weaver, que tem atuação blasé, enquanto a montagem do filme é sem ritmo e, por vezes, desconexa – a exemplo do momento em que a Ripley é levada para o ninho dos aliens. Retomada chocha da série. Nota: 6

*Ainda nessa semana: crítica de Prometheus


Crítica: Drive

Drive_posterDrive (Idem, EUA, 2011) pode ser qualquer coisa, inspiração “Mad-Maxiana”, indie ou pop, mas, acima de tudo, é um exercício estilístico monumental, que entretém, conta uma ótima história e já escreveu nos anais cinematográficos mais um personagem emblemático: o motorista vivido com gosto por Ryan Gosling.

Desde os primeiros minutos, quando aparecem os primeiros créditos escritos em letra cursiva num tom rosa, você percebe que o longa do diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn não será comum. O ponto de partida da trama – piloto de cenas de ação de Cinema de dia, piloto de fuga à noite e apaixonado por Carey Mulligan e seu pequeno filho – até pode não ser original, mas a maneira com a qual o longa foi feito é o ‘X’ da questão. Basta notar, por exemplo, a ótima imagem concebida por Refn no momento em que o título surge na tela. Icônica, nela há Gosling enquadrado de baixo para cima, ao volante, tendo o letreiro ao seu lado, ao som de “Nightcall”, de Kavinsky & Lovefoxxx. Ali, ele está imponente com seu instrumento de trabalho.

Essas sacadas estilosas estão espalhados por todo o longa e o exemplo maior é a jaqueta de escorpião do protagonista, buscada incansavelmente pelo diretor para simbolizar o personagem. Além disso, se você sempre achou que um palitinho na boca era algo brega, corre um sério risco de mudar de opinião ao assistir a Drive.

A fotografia é outra característica interessante da produção. Trabalhando cores em tons amarelados e alaranjados, é possível percebê-las nas cenas noturnas e também nas belas imagens de fim de tarde, que têm uma função importantíssima em determinado momento: o driver dá uma carona para Carey e seu filho e os leva a um passeio aos canais da cidade de Los Angeles. Quando a luz incide amarela e aconchegante dentro do veículo e Gosling busca proximidade com a família, a moça (e a plateia) já foram ganhos pelo charme do personagem.

E que personagem! Um homem caladão, que faz seu trabalho sujo sem perder a hombridade – ele apenas dirige, o que vem antes ou depois é problema do contratante – e, claro, mostra seu lado humano arriscando a vida pela mocinha. Mas ainda há mais camadas, pois se pressionado, o driver consegue ser ameaçador e violento sem pestanejar, vide a cena do martelo. Ryan Gosling capricha na cara de mal e no olhar profundo, fazendo com suas mandíbulas rangendo ao ser provocado falem por si.

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As envolventes sequências nas quais ele presta seus serviços escusos são outro prato cheio de estilo. As primeiras cenas provam isso, com uma fuga feita mais com inteligência do que com correria, em que o Chevy Impala vai sendo escondido junto com os bandidos no banco traseiro até que há um único momento que necessita de uma aceleração forte. Nessa hora a montagem das imagens só perde para o ótimo desenho de som da sequência. Os efeitos sonoros da troca de marcha e do ronco do motor quase guiam a tensão da plateia na cena, sendo milimetricamente montados para que a aceleração final dê o tom do momento crítico.

A trilha sonora também tem papel significativo e exatamente nesse momento, a canção “Tick of the Clock”, de The Chromatics, oscila, indo e vindo com seus toques eletrônicos, levando com ela a tensão da cena. A escolha das canções da trilha é tão boa que a música “A Real Hero”, de College com Eletric Youth, tem um verso só para descrever o protagonista – “Be a human being and a real hero”.

Juntando todos esses bons momentos, a cena que talvez melhor simbolize Drive é aquela no elevador: ante ao perigo, o motorista beija a mocinha e depois explode em violência. Para eles, a luz diminui, a montagem ganha um slow motion elegante, a câmera os busca em zoom e a trilha de Cliff Martinez emoldura o momento. Para o inimigo, os cortes da montagem são acelerados e a bota de Gosling insiste em bater em sua cabeça.

Da mesma forma que o final em aberto e não esperado de Drive vai ser só uma das várias cenas que irão martelar em sua cabeça.

Nota: 9

Drive The Hammer Down