Go ahead, punk. Make my day.

Resumo (1º a 7 out)

carnage-posterDeus da Carnificina* (Carnage, 2011). De Roman Polanski

Um filme exige respeito quando tem fôlego para segurar o interesse da plateia com a trama se passando praticamente dentro da sala de um apartamento. Esse resepeito, no caso de Deus da Carnificina, não é demandado só na direção de Polanski, mas também no texto que o diretor escreveu ao lado de Yasmina Reza, baseado na peça do último. Lixando vários tipos de vernizes, desde a correção política até a cordialidade burguesa, o filme começa numa simples briga entre dois garotos de 11 anos e prossegue na tentativa dos pais de resolver a agressão de maneira mais afável e racional. Óbvio que isso não vai acontecer da maneira esperada e uma visita rápida se transforma numa briga quase épica entre os casais vividos por Kate Winslet e Christoph Waltz e Jodie Foster e John C. Reilly. As discussões, que passam pelo cinismo, por contradições e idealismo, vão quebrando os preceitos de cada um dos personagens. O que dá espaço para momentos hilários como aquele em que Waltz diz ser livre pouco antes de atender o incansável celular, que exige sua atenção a todo o momento. Ou mesmo o absurdo momento em que Winslet vomita no meio da sala, o que escancara a reprimida problemática entre os personagens. A boa condução de Polanski também faz a diferença, explorando ao máximo a sala na qual os atores ficam durante quase o tempo todo, seja posicionando um ator em segundo plano para mostrar as reações do ator em destaque, indicando o quanto o local é pequeno para tanta animosidade e demonstrando a inteligência do cineasta na movimentação por um local com tais dimensões. Mais: repare como no início a reunião dos casais vai durar apenas alguns minutos, mas algo sempre traz os visitantes para dentro do apartamento novamente, o que eleva a tensão logo de saída. Niilista, o filme vai terminar da maneira mais absurda possível, bem ao gosto da forma como a reunião “cordial” começou. Nota: 8,5

Limite 1931Limite* (Idem, 1931). De Mário Peixoto

Dizer que este é um filme hermético e pretensioso, a meu ver, não é exagerado, depreciativo ou razão para afastar espectadores. Exige mais da plateia, claro, contudo assistir a um filme mudo e  experimental datado de 1931 pode ser uma ótima oportunidade de abrir um novo caminho dentro do mundo do Cinema, que hoje vive uma contradição: exige-se cada vez menos em termos de texto em meio à avalanche de imagens digitais da produção estadunidense (a indústria com os maiores braços da produção cinematográfica), mas cuja plateia não consegue assistir a um longa baseado em imagens que consegue falar por si (como o bom Cinema deve ser). Por isso é tão difícil para o que se pode chamar de “espectador médio” ver um filme como Limite – ao mesmo tempo em que é tão importante para que seu mundo cinematográfico se abra. Claro, há aqueles que amam a arte, mas há aqueles que veem nela apenas entretenimento. Como participante do primeiro grupo eu digo: Limite, ainda que difícil, trata-se de uma obra obrigatória. Não por conta das atribuições de um dos maiores filmes brasileiros de todos os tempos, mas por saber trabalhar a imagem com inteligência e beleza. Como bem lembrou o crítico Guido Bilharinho, em seu livro “Seis Cinestas Brasileiros”, o filme é composto de imagens belas por si só, mas que crescem juntas. Seja no momento em que objetos de costura são filmados lentamente em planos-detalhe, seja em seu significado (a mulher que olhava para a janela sendo “chamada” de volta ao trabalho e à realidade). Ou ainda pela inteligência de certos quadros, a exemplo daquele em que a mulher vê seu marido no alto da escada dormindo. Ela mantém a mão esquerda sobre o corrimão mostrando a aliança, enquanto o homem tem sua mão direita a mostra. A mensagem da cena vai ser finalizada no corte até a mão esquerda dele, mostrada em close, ainda de aliança, com unhas grandes e voltada pra baixo. Toda a cena, sem qualquer cartela (fala), deixa claro o problema entre o casal e nos informa que ali havia um enlace. É triste, informativa e bela plasticamente. Fragmentado e altamente simbolista, o longa, está longe de ser perfeito, sobram imagens sem função aparente e o ritmo, por vezes, é lento além da conta por causa de tais imagens. Entretanto, o filme em si cumpre um papel importante de busca artística – e o melhor é que a busca é frutífera. Nota: 8,5

*Filme assistido pela primeira vez

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