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Crítica: O Hobbit – Uma Jornada Inesperada

thehobbit-teaserposterComo a comparação é inevitável e até necessária para que aquele mundo seja entendido em sua plenitude, não, O Hobbit – Uma Jornada Inesperada (The Hobbit – An Unexpected Journey, EUA/ Nova Zelândia, 2012) não está no mesmo patamar que O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel como representante de mais uma trilogia saída da Terra Média criada por J.R.R. Tolkien. O que não o impede de ser um filme de qualidade técnica quase irretocável e que diverte que é uma beleza.

O ponto de partida aqui não é muito diferente daquele vivido há mais de dez anos com Frodo, um hobbit que é recrutado pelo mago Gandalf para uma aventura inimaginável para um ser tão pequeno e pacato. A nova saga acontece décadas antes dos eventos de O Senhor do Anéis e o hobbit recrutado é Bilbo Bolseiro, tio de Frodo, que vai formar um grupo com anões e com o próprio mago cinzento para reaver o reino anão de Erebor, tomado pelo dragão Smaug.

Com um tom um pouco mais leve que seus antecessores, Uma Jornada Inesperada tem a maior parte da comédia reservada para os minutos iniciais, quando os anões invadem a casa de Bilbo para a reunião que vai definir a missão até a Montanha Solitária, onde está Erebor, e a retomada do reino.

É nesse momento também que se vê o melhor do ator Martin Freeman, que interpreta Bilbo de forma sutil e com grande simpatia. Repare na qualidade do trabalho dele no primeiro diálogo com Gandalf, pontuado por reações minimalistas e que causam muita graça. Pronto, em minutos, Freeman faz a plateia esquecer o (também) excelente trabalho de Ian Holm, que o interpretou anteriormente.

O cineasta Peter Jackson, que não é bobo, não deixa de dar familiaridade ao projeto, afinal, ele sabe que muitas pessoas estarão nas salas de cinema para reencontrar um mundo que as encantou e salpica a produção de referências cinematográficas à adaptação de Tolkien anterior, inserindo vários trechos de temas conhecidos de O Senhor dos Anéis na trilha de O Hobbit ou mesmo deixando claro o grande fascínio de Bilbo quando de sua passagem por Valfenda. E nada como rever as pequenas e charmosas casas dos hobbits no Condado para se sentir em casa na volta à Terra Média. Jackson as mostra mais belas do que nunca, por meio da fotografia suavizada de Andrew Lesnie.

Sim, o filme tem um quê sentimental para muita gente que é impossível ser dissociado durante a apreciação de Uma Jornada Inesperada, o que, de forma alguma, atrapalha no reconhecimento de problemas de roteiro, como no excesso de flashbacks para que a história de vários personagens seja contada – lembre-se o filme inteiro é um flashback saído do diário de Bilbo já envelhecido.

E mais: num dos momentos mais importantes da trama, o protagonista encontra o Gollum mais uma vez interpretado por Andy Serkis – e seu precioso. O momento isolado da narrativa não apresenta um problema sequer, com o pequeno monstro se mostrando já com a personalidade dividida (como os fãs aprenderam a amá-lo) e mais assustador que nunca (ainda que encantador em certos pontos). Mas se o jogo de charadas com o Bilbo diverte, toda a passagem escancara como a sequência anterior envolvendo a captura de hobbits por orcs é problemática por não dar uma sequência lógica para o encontro com Gollum e, pior, para a fuga que acontece logo em seguida. Faça um teste e imagine como toda a sequência dos orcs ficaria apressada sem a intervenção da cena das charadas.

E olha que Jackson até tenta esconder o problema com um movimento de câmera que acompanha certo personagem mergulhando na escuridão próxima do buraco onde Bilbo e Gollum se encontram. Nem assim aquela transição da narrativa consegue naturalidade.

Mas como dito anteriormente, ainda que os sentimentos pelas histórias da Terra Média levadas ao Cinema não atrapalhem uma análise mais fria, são eles que dão outra dimensão a uma solução um tanto mandrake para um momento crucial no terceiro terço do filme. Ações de coragem e honra de certos personagens somadas à aparição das águias invocadas por Gandalf emocionam, como já aconteceu outras vezes em O Senhor dos Anéis – mesmo que aqui a demora para que isso aconteça seja milimetricamente calculada para o instante mais dramático.

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48fps

Apesar dos pesares, talvez O Hobbit – Uma Jornada Inesperada deixe para a história do Cinema a ousadia de ser o primeiro grande lançamento comercial a apostar no formato de 48 frames por segundo (fps). A taxa de quadros que é o dobro do habitual do Cinema (24 quadros por segundo) pode não ser apreciada por muita gente, mas ninguém poderá negar a qualidade que isso traz à imagem – e alguns efeitos colaterais.

O poder técnico da produção ganha muito com os 48fps, pois o 3D se torna mais nítido e a imersão em cenas grandiosas é um absurdo. Repare como o embate entre os gigantes de pedra se torna vertiginoso tamanho o grau de detalhamento dos seres. Momento que só perde para a perfeição da invasão de Smaug à Montanha Solitária, que ainda ganha um som poderoso.

A nova tecnologia, claro, exige mais dos efeitos visuais e os problemas são evidenciados como a falta de naturalidade dos pratos sendo jogados de um lado para o outro pelos anões na casa de Bilbo e nos vários momentos em que o mago Radagast, O Marrom, pilota sua carruagem de coelhos. Assim como a movimentação dos wargs, nessas passagens a câmera parece acelerada e artificial.

A textura da imagem “mais limpa” pode incomodar e ser estranha inicialmente, mas não há como negar que leva as produções à frente e a novas possibilidades.

Nota: 8,5 the-hobbit-an-unexpected-journey-ian

10 responses

  1. Aleishow

    Ótima crítica, bom filme e pouco páreo com O Senhor dos Anéis. Mas, claro, vamos esperar o restante da trilogia para consolidar ou não a opinião. Pela primeira vez concordei com uma análise cinematográfica sua, por completa. rsrs
    Ansiosa para dezembro de 2013 chegar e até lá ler à obra de Tolkien. Sem mais.

    20 de Dezembro de 2012 às 1:17 AM

  2. Hahaha! Não deve ser a primeira, sério?

    20 de Dezembro de 2012 às 1:17 AM

  3. Eduardo Almeida

    A cena da invasão de Smaug foi foda!!
    Xaradas no escuro!!!
    Parabéns pela critica!!!

    20 de Dezembro de 2012 às 1:36 AM

  4. Yuri Diniz

    Eu não esperava um LOTR. Acho que nunca vou criar essa expectativa sobre um filme, já que LOTR é perfeito. Mas mesmo assim o filme não me encantou demais, creio que eu esperava alguma coisa diferente.
    O livo a narrativa é rapida e a história é centrada na recuperação do tesouro dos anões e na luta contra o Smaug. O filme faz muitos rodeios, inventa muita coisa (o vilão do filme, o orc Arzoc, acho q nem aparece no livro) e até se torna contraditorio (o Bilbo q nunca havia pegado em uma espada luta bem contra o Arzoc mas paga vexame contra o gollum ¬¬).
    Também não gostei da maneira que o Bilbo pegou o anel, já q foi diferente de como mostrado em LOTR. Mas relevo…
    As atuações, por outro lado, foram incriveis, principalmente do gandalf e bilbo.
    Enfim, para o proximo filme não vou exigir fidelidade ao livro, adaptação é assim mesmo né (principalmente para 3 filmes, tem que inventar muita coisa). Creio que será melhor.

    20 de Dezembro de 2012 às 1:38 AM

    • Gosto de filmes que ousam e se criam a partir dos livros. Adaptações invariavelmente são assim e as melhores mostram personalidade. A fidelidade não é garantia de bom filme.

      20 de Dezembro de 2012 às 2:03 AM

  5. Aleishow

    Prefiro de longe a cena com a lendária guerra de trovões. Oda! Muitíssimo oda!

    20 de Dezembro de 2012 às 1:47 AM

  6. Concordei com o Yuri.

    20 de Dezembro de 2012 às 10:21 AM

  7. Michel Jucá

    Achei que o Peter Jackson foi covarde, pois ficou na zona de conforto e fez um filme exclusivo para agradar determinado grupo. O roteiro é fraco, nada que justifique esperar a trilogia terminar. Começou mal, tudo pelo dinheiro. Ganancioso feito os anões. Tecnicamente brilhante, o Gollum está perfeito.

    20 de Dezembro de 2012 às 2:35 PM

    • Concordo que o o roteiro deixa a desejar. Esticar a história para três filmes de mais de 2h30 pode fazer mal para os demais filme. Veremos…

      20 de Dezembro de 2012 às 4:09 PM

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