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Crítica: Django Livre

djangounchainedNão adianta, Quentin Tarantino é sempre a maior atração dos próprios filmes. Tudo bem, desde Cães de Aluguel, um elemento ou outro acaba recebendo atenção em relação aos longas, seja uma orelha partida, a volta de um grande astro (John Travolta), a adaptação de Elmore Leonard, um nazista carismático (Christoph Waltz). Mas sempre que o cineasta lança um novo trabalho, os holofotes se voltam pra ele pedindo explicações e querendo saber o motivo dessa e daquela referência. Até mesmo a polêmica envolvendo um possível posicionamento racista no mais novo trabalho, Django Livre (Django Unchained, 2012, EUA/Alemanha/França), fez Tarantino voltar à mídia para dar mais algumas palavras às massas. Só que ainda que a grande estrela de seus filmes seja ele mesmo, o diretor/roteirista tem sempre algo a mostrar e não é só conversa vazia.

Que ele ama faroestes, todos já sabem desde Kill Bill vol. 2. Django é sua maior realização nesse sentido. Mas, como era de se esperar, há um ingrediente a mais: a libertação de um escravo para que a narrativa ganhe seu norte. Ele é o personagem-título e vai render uma série de ótimas cenas. Salvo pelo alemão caçador de recompensas chamado Dr. King Schultz (Waltz), Django vai ajudá-lo a encontrar um de seus procurados e ambos irão atrás da esposa do ex-escravo, que está nas mãos de um perigoso fazendeiro chamado Calvin Candie (Leonardo DiCaprio).

O clima de sua obra é estabelecido desde a primeira cena, com paisagens poeirentas e com a trilha de Luis Bacalov. O filme segue as regras dos westerns com certa fidelidade, incluindo bons cacoetes do gênero, como as silhuetas no entardecer avermelhado e os personagens durões. Mas há espaço para todo tipo de invencionice do diretor, como os zooms tirados dos longas blaxploitation setentistas e a própria violência quase caricata que Tarantino tanto gosta. E que tal um letreiro para marcar uma elipse temporal?

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O sangue jorra bem e há espaço para um verdadeiro banho dele durante um tiroteio no último terço do filme, o que não impede as inúmeras cenas hilárias espalhadas pelos 165 minutos da produção. Algumas preparadas com cuidado, a exemplo da grande piada que envolve Django num cavalo, uma cidade pequena, um xerife e um agente federal. Outras que  parecem ter sido escritas pelo Monty Python, como a nonsense cena dos sacos na cabeça, cuja maior referência é a KKK. Da mesma forma que o riso cede espaço para o drama em sequências como  quando cães matam um homem ou uma mulher é tirada de um poço debaixo do sol escaldante.

Contudo, você sabe, tudo isso é menor que a busca incansável de Tarantino pelo estilo. Além da fotografia esverdeada ou em alto contraste nos flashbacks, em Django, a ótima trilha sonora – que inclui desde temas de Ennio Marricone e Jerry Goldsmith e canções de Jhonny Cash e do rapper Rick Ross – faz um papel fundamental na hora de criar o clima desejado. Pena que o recurso seja usado em excesso, chegando ao ápice nos momentos finais, quando, em poucos minutos, três ou quatro músicas sejam empilhadas em momentos que caberiam uma apenas. O efeito colateral é cortar o clima da anterior – vide cavalgada de volta do protagonista à Candieland.

E como não poderia de ser, ainda que o aspecto estilístico do longa seja seu maior atrativo – ao lado dos diálogos nada preguiçosos -, as excelentes atuações do elenco tão o toque final à obra. Vá lá que  Waltz apenas recicla seu Hans Landa de forma  a transformá-lo num mocinho, mas é um trabalho de excelência. Entretanto, Foxx é um cara que sai do medo completo nas cenas iniciais e chega numa segurança quase altiva no decorrer da trama – a cena da escolha do figurino mostra bem essa transição. DiCaprio também deixa sua marca, com maneirismos afetados em contraste ao perigo que o personagem transmite, o qual será revelado em certo momento, quando sua mão se machuca e sangra. Um ferimento real que não fez o ator deixar o personagem e continuou a atuar. Tarantino, claro, gostou e deixou rolar.

Nota: 8,5

Django Livre - Foxx e Franco Nero, o Django original

P.S. Vê o cara ao lado de Foxx nessa foto aí em cima? Pois é, ele é Franco Nero, o Django original

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