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Crítica: Os Miseráveis

Les MiserablesSe Os Miseráveis (Les Misérables, 2012, Reino Unido) teve sucesso em sua concepção, não foi por conta dos cenários bem feitos nem as canções bem ensaiadas, mas sim a escalação de Hugh Jackman para o papel principal e por ter uma Anne Hathaway tão inspirada. Enquanto os dois estão na frente da câmera o longa parece se iluminar. Da mesma forma que nos momentos em que a trama os deixa de lado para seguir adiante, as coisas quase caem no ostracismo.

Desde o primeiro minuto, quando um navio imponente surge na tela sendo arrastado por Jackman, na pele de Jean Valjean, a expressão dura do ator deixa claro o quão amargurado ele se tornou em quase 20 anos de prisão pelo roubo de um pão. Sua libertação e o sofrimento que se segue são mostrados com montagem rápida (outro trunfo do filme) e pelo menos mais dois momentos fora de série para o protagonista. O primeiro acontece logo após sua saída da prisão, quando canta de maneira melancólica no alto de um morro sob o luar durante o início da noite. Um ambiente natural que dificilmente vai se repetir durante a narrativa. A outra passagem é aquela que define Jean, quando ele ganha seu maior número solo, cantando dentro de uma igreja de forma intensa, terminando nos limites de um precipício ao rasgar sua condicional.

Da mesma forma que Anne atrai a atenção desde o primeiro momento. A tristeza da história de Fantine poderia facilmente se esvair em tanta miséria, mas a interpretação da atriz tem força e beleza. Não é à toa que o momento em que canta “I Dreamed A Dream” seja, sem dúvida, a coisa mais bela que os quase 160 minutos de Os Miseráveis têm a oferecer. A cena emocionante é toda filmada em close e vale cada minuto com Anne variando sua performance do choro às notas mais altas.

Pena que o diretor Tom Hooper (de O Discurso do Rei) dê a mesma chance para atores sem o mesmo vigor de atuação e voz. Assim, a câmera fechada nos rostos de Russell Crowe, Amanda Seyfried e Eddie Redmayne são um desperdício de tempo. Cada um deles tem um momento só seu em cena, os quais não vão a lugar algum além da sonolência. Da mesma forma que Samantha Barks, na pele de Éponine, tem aqui um belo veículo para sua entrada no Cinema, num papel de destaque. Só que ela é obrigada a mostrar a voz (e a beleza) num enorme clichê, ao cantar “On My Own” sob chuva forte, lamentando um amor impossível.

Hugh-Miserables

Os problemas na direção também passam pelos incompreensíveis enquadramentos que jogam os atores para o canto da tela e não dizem a que veio. Seus ângulos oblíquos por vezes também não levam a nada e até minam a força de algumas cenas. Esse tipo de enquadramento é usado para ressaltar que algo não está certo e um bom exemplo de como ele é mal usado por Hooper é um reencontro num convento entre importantes personagens que deveria ser terno, mas estranhamente ganha um enquadramento tortuoso – e te arranca da cena.

E se montagem ágil de Os Miseráveis pode surpreender aqueles que imaginam que aqui há um musical pedante, é complicado para Chris Dickens e Melanie Oliver manterem o ritmo e ainda encadear a passagem de uma canção para outra quando roteiro opta por suprimir quase completamente os diálogos e o diretor não tem muita criatividade nas transições. Assim, cenas importantes parecem se amontoar, como quando há uma morte em um hospital e, em seguida, Jackman e Crowe passam a duelar, sem dar a devida importância ao momento anterior.

Perdendo força entre o segundo e terceiros atos, quando Jackman sai de cena (por alguns instantes) para que a história sobre a revolução siga seus rumos, os roteiristas William Nicholson, Alain Boublil, Claude-Michel Schönberg e Herbert Kretzmer também não conseguem estabelecer bases para que se acredite no amor entre os personagens de Amanda e  Redmayne. Muito menos compreensível ainda é o destino dado a Crowe, sem qualquer emoção que o justifique.

Ainda sim, as cenas que fecham Os Miseráveis se fazem belas (de novo) por conta de Jackman e Anne. Eles conseguem extrair de um momento nada original, uma despedida delicada e ao mesmo tempo grandiosa.

Nota: 7,5

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