Go ahead, punk. Make my day.

Republicação: Roger Ebert (1942-2013)

O artigo a seguir foi uma bela homenagem feita pelo crítico Pablo Villaça por ocasião da morte de Roger Ebert, um dos maiores de todos os tempos, que faleceu nessa quinta-feira (4), por conta de um câncer.

Como li emocionado ao texto, pedi a Villaça para que pudesse republicá-lo aqui. Recebida autorização, espero que vocês também tenham o mesmo sentimento de reverência e amor que conseguir extrair do artigo.

Roger Ebert está morto.

Roger.

Rog, como assinava seus emails particulares e como passei a me dirigir a ele depois de um tempo necessário para me ajustar à realidade de que estava conversando com meu ídolo.

Ah, Rog.

Assim que soube de sua partida, minha mente me levou instantaneamente a uma manhã de abril de 2012 que permanece de forma inequívoca como uma das memórias mais significativas de minha vida. O Ebertfest havia chegado ao fim e eu havia decidido passar alguns dias em Chicago a fim de conhecer a cidade (uma viagem que Roger insistira que eu fizesse, chegando a pagar uma tour de “gângsteres” por acreditar que eu a apreciaria). Sabendo que eu permaneceria em sua cidade, ele e sua esposa Chaz me convidaram para uma cabine de Os Vingadores e, quando esta chegou ao fim, perguntaram se eu queria almoçar em seu hotel (a casa na qual moravam estava passando por reformas). Antes do almoço, nos reunimos na ampla sala do apartamento dos Ebert e conversamos por algumas horas – e Roger, que já não podia falar há alguns anos, se comunicava através do vocalizador de seu MacBook. Finalmente, Chaz perguntou se estávamos prontos para descer ao restaurante e, enquanto ia ao quarto buscar suas coisas, pediu que eu auxiliasse Roger a ir para o escritório, onde ele se sentaria para escrever a crítica do filme que acabáramos de ver (e na qual me citaria).

Ficamos sós, Roger e eu. Ele segurou meu braço e começamos a caminhar lentamente em direção ao escritório. Fragilizado por várias cirurgias e pelo câncer que o devastara anos antes, tomando parte de sua mandíbula, Rog andava com dificuldades e eu podia ouvi-lo respirar pesadamente. Em certo momento, comentei que havia ficado muito feliz de participar do Ebertfest e ele, apertando meu braço para que eu me virasse em sua direção, apontou para si mesmo, dizendo: “Eu também fiquei”.

Continuamos a caminhar. E, de repente, eu me dei conta de algo.

Aquele homem frágil que eu ajudava a percorrer uma breve distância era meu mentor. E eu não só devia a ele minha carreira como também devotava a ele meu amor.

Foi por ler os textos de Ebert (bem como os de Pauline Kael) que descobri que Cinema era mais do que passatempo. Foi através de suas palavras que enxerguei uma dimensão além das duas representadas na tela. Seu trabalho se tornou o meu. Larguei a Medicina, abracei a crítica e jamais olhei para trás. Sabia que devia isso a Roger, mas jamais me ocorreu que poderia lhe dizer isso.

Mas pude. Tornei-me colaborador de seu site. Tornei-me seu correspondente (e tenho uma pasta rotulada “Roger” apenas com os emails que trocamos, mesmo os mais tolos, por me ver incapaz de deletar um só deles). Tornei-me seu amigo. Em 2011, quando lamentei não poder ficar em Chicago após o primeiro Ebertfest ao qual comparecera, ele escreveu:

“Some day we will sit down, the two of us, and have a talk. If we had met before my illness we would never have stopped talking.”

Meses depois, quando encaminhei a ele um texto sobre uma garota morta precocemente que havia inspirado um texto melancólico, ele não apenas o publicou imediatamente como comentou:

 ”I posted your touching essay. I felt as I if I could imagine her smile.”

Este era Roger Ebert: do alto de sua fama como primeiro crítico de cinema a vencer o Pulitzer e um dos profissionais mais conhecidos e bem remunerados do planeta, encontrava tempo para elogiar moleques brasileiros que apenas brincavam com as palavras em comparação com a maestria com que ele as manipulava. A cada texto meu publicado, ele se dava ao trabalho de me enviar telas que mostravam o número de acessos e a repercussão do texto. Por que fazia isso? Porque era um homem único. Quando viu A_Ética e Morte Cega, enviou palavras que para sempre guardarei como as mais importantes de minha carreira:

“Your films are must-watchable. You are a true director. I anticipate reviewing your first feature.”

Ah, Rog. Isto agora não é mais possível, é? Como eu teria me sentido honrado ao ler suas palavras, mesmo que ácidas, sobre este hipotético longa.

Iniciei minhas colaborações com Roger através das críticas, mas logo passei a publicar pequenos ensaios em seu site sobre todo tipo de tema – e meu amigo e mentor, sempre receptivo, jamais recusou alguma, por mais “off-topic” que pudesse soar. Escrevi sobre a maneira com que lidamos com a morte na Internet, sobre o atirador que matou crianças em uma escola no Rio, sobre Marilyn Monroe. Às vezes, comentava apenas um simples (mas, acreditem, importantíssimo para mim) “I like the music of your prose. You allow emotion in.” (em resposta ao meu texto sobre Minha Vida Sem Mim); em outras, se expunha. Ao publicar o texto que escrevi sobre minha angústia ao alcançar a idade que meu pai tinha ao morrer, ele escreveu:

“Thank you my friend.

I have now lived ten years longer than my own father.

Gene Siskel was afraid he would die at the age his father died. And he did.

But our fathers still live, because here we are. And neither one thought he would have a son who was a film critic–although my father lived long enough to see my bylines in the local daily, and that made him very proud.

Now you’ve made me all emotional, you poet.”

Ser chamado de “poeta” por Roger foi como ser um aspirante a dramaturgo e ser elogiado por Shakespeare.

Roger, que agora está morto.

O que me leva de volta àquela manhã no hotel em Chicago.

Subitamente, percebi que ajudava meu ídolo, meu mentor, meu amado, meu amigo a caminhar. Estava frágil. Estava doente. Estava no fim da vida. E por aqueles breves minutos, se apoiava em mim para chegar ao seu escritório e produzir sua mágica, brindar o mundo com suas palavras.

Quando me dei conta disso, lágrimas começaram a escorrer. Virei o rosto para que ele não percebesse e as enxuguei. Em mais alguns minutos, o ajudei a sentar-se em sua poltrona e depositei o notebook em seu colo. Imediatamente, sua expressão se alterou e vi ali um homem completo, forte, único. Um artista. Ele me assoprou um beijo e saí da sala para me encontrar com Chaz.

Hoje sei que aquela seria a última vez que o veria vivo.

Um consolo, porém, é saber que pude comunicar a ele o quanto o amava. Em seu aniversário (o último de sua vida), enviei a ele o seguinte email:

“Rog,

you’re a special man. No, I’m not exagerating; you’ve touched so many lives in so many different countries and cultures that I’m truly speechless when I think about it.

I mean, I’ve been a film critic for 18 years now; I’m not a naïve newbie full of dreams – I KNOW how difficult it is for people in our profession to make people to think about what they’ve just seen; let alone for they to think about who they are and what they want to accomplish in life.

And yet, that’s the effect you have over people, Roger. You not only inspire them, but you push them, you help them, you lead them to be better.

Think about how many people tell you they became in love with movies because of you, who decided to become writers, film critics, journalists because of you.

 In a way, I am who I am because of you – and so you’ve also indirectly touched the lives of my children.

 That’s… amazing, this gift you keep giving us.

 Rog, I like to think I’ve accomplished a lot of things, that I’m a good writer, a good father and a reasonably nice human being.

 Having said that, one of the things that make me prouder is the fact I’ve managed to be able to call you “my friend”.

So, Happy Birthday, my dear, dear friend. And please keep giving us the gift of your words.

I truly love you.

Your friend, pupil and fan, Pablo”

Sua resposta, claro, foi tipicamente ebertiana: humilde, doce e pessoal.

“Pablo,

Your words made me blush.

We are very much the same. I just got a head start. This is a relay race, and you will not drop the baton.

R”

Juro que farei meu melhor para não derrubar o bastão, Rog. Por você. Pelo que representou e representa por mim. Por ter se tornado, de várias maneiras, a segunda figura paterna de alguém que perdeu o pai aos 5 anos de idade.

Amo você, meu amigo. Amo você.

pablo-roger

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