Go ahead, punk. Make my day.

Crítica: Somos Tão Jovens

somos-tao-jovens posterUma palavra simples pode definir Somos Tão Jovens (Idem, Brasil, 2013): artificialidade. Exceto por uma única cena de sentimento real, os pouco mais de 100 minutos de filme não se aprofundam e as atuações do elenco secundário chegam a ser vergonhosas em alguns momentos. Thiago Mendonça até consegue criar uma boa visão do protagonista, o músico Renato Russo, e recebe a ajuda da boa companheira de cena Laila Zaid – ela é Ana, melhor amiga do cantor. De resto, somente o trabalho musical de Carlos Trilha, que faz as versões instrumentais das canções do Legião Urbana para a trilha do longa se salva com dignidade.

Esta não é uma biografia completa da vida do artista que se tornou um poeta do rock nacional –  grande graduação no gênero. É a tentativa de buscar o período em que Renato Manfredini Júnior se torna o Russo, entre a ascensão e a queda do Aborto Elétrico e pouco antes do estouro do Legião. Anos que o roteiro de Marcos Bernstein, ao invés de mergulhar no sentimento de isolamento e tédio do artista, desperdiça apenas para citar aqui e ali curiosidades sobre a vida do músico – é citada a fonte de inspiração para “Eduardo e Mônica” e que o Legião Urbana fez o primeiro show na cidade de Patos de Minas por meio de um engano dos contratantes. O resultado até entretém, mas fica longe de criar uma conexão entre plateia e protagonista – caso a primeira não seja formada apenas por fãs do artista e que 2 Filhos de Francisco soube fazer com gosto.

Fora que a boa intenção de Bernstein em tentar encaixar versos ou títulos de músicas de Russo nos diálogos falha miseravelmente por não soarem naturais. Pior que isso somente o sotaque sul-africano que Sérgio Dalcin desfila em seus poucos minutos em cena como Petrus. Repare como ele simplesmente perde a pronúncia no momento em que chora dentro de um armário.

laila-zaid-e-thiago-mendonca

Por falar em elenco, é difícil curtir as “participações especiais” de personagens como Herbert Vianna ou Dinho Ouro Preto, quando o primeiro é interpretado por Edu Moraes com um tipo de dicção que lembra a dos imitadores de Pelé e o segundo mal consegue falar – e quando o intérprete Ibsen Perucci abre a boca para falar do Punk Rock parece que decorou uma lição para a escola. Não é bom nem falar nada sobre o quanto Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá parecem dispensáveis sob a ótica do filme.

O que aumenta a pressão sobre o trabalho de Mendonça na pele do biografado. Se não há a genialidade que Daniel de Oliveira conseguiu em Cazuza – O Tempo Não Pára, ele é convivente o bastante não só dançando como o músico, mas flexionando os diálogos de maneira a emular o verdadeiro Renato e até cantando com voz próxima do ídolo – ainda que seja perceptível a diferença em vários momentos, o que não diminui a coragem de Thiago. A química entre ele e Laila Zaid, então, consegue injetar a genuinidade que falta a Somos Tão Jovens. Não é à toa que a amizade dos dois rende o ponto alto do longa ao som de uma das bonitas músicas de Renato, já nos minutos finais. Pena que o Thiago Mendonça tenha que lidar com a mania que muitos roteiristas têm de criarem biografados como poetas 100% de seu tempo, assim como aconteceu, por exemplo, com Virginia Woolf, em As Horas, ou o próprio Cazuza. O Renato Russo de Somos Tão Jovens sempre tem uma frase esperta/reflexiva/poética na ponta da língua. Ele não fala como gente normal, ele tem “pílulas de saber” a serem distribuídas às pessoas.

E se a reação de muitos ao desfecho da cinebiografia é de revolta, o problema não foi o ponto onde Bernstein e o diretor Antonio Carlos da Fontoura resolveram terminar essa história, mas a forma como isso acontece: seca, sem um clímax real e um conflito não resolvido – afinal, se aquele era o destino de Renato, formar sua Legião, faltou criar a estrada que apontava aquele caminho – como mostrar a aproximação dos membros do grupo com o cuidado que existe ao falar do Aborto Elétrico. Do jeito que ficou, mais parece falta de opção para chegar a um final.

Nota: 5,5

renato somos-tao-jovens

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2 responses

  1. Danny Caetano

    Ah, eu gostei muito deste filme :/

    8 de Maio de 2013 às 11:07 PM

    • Opa! Legal que as opiniões sejam diferentes. O que mais curtiu?

      9 de Maio de 2013 às 10:10 AM

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