Go ahead, punk. Make my day.

Archive for Junho, 2013

Crítica: Guerra Mundial Z

World-War-Z-Poster-2013A certa altura, já com o caos zumbi estabelecido em Guerra Mundial Z (World War Z, EUA/Malta, 2013), Brad Pitt diz a uma família que lhe dá abrigo que “movimento é vida”. Até parece que o diretor Marc Forster e os roteiristas Matthew Michael Carnahan, Drew Goddard e Damon Lindelof estão fazendo um pequeno resumo do que será todo o longa, pois é na energia de cenas de ação incansáveis que está o vigor da produção. O filme simplesmente não para.

Tudo bem, há um respiro ou outro durante os 116 minutos da trama, o que não quer dizer que o ritmo não continue sempre em alta rotação – e com a soma de tensão aqui e ali. Desde a sequência de créditos é estabelecido esse clima tenso e de que algo não vai bem. Ao som de “The 2nd Law: Isolated System”, do Muse e relatos de comportamentos estranhos, Guerra Mundial Z não perde tempo e com menos de 15 minutos um pandemônio toma conta da tela. Lá está Brad Pitt e a família para fugir dos ataques de seres agressivos que outrora foram humanos. O primeiro ataque das criaturas é vital para estabelecer algumas regras, como o tempo de transformação e a forma como são ágeis e raivosos – até mais que os vistos em Extermínio.

O objetivo dos personagens, a partir dali, é se manter vivo enquanto uma cura pode ser pensada. O que há de criativo mesmo são as excelentes cenas de ação. O que acha de ataque num ambiente como um avião em pleo voo? Ou uma corrida desenfreada no topo de um prédio enquanto Pitt e a família tentam entrar em um helicóptero? Ou a maior de todas elas, em Jerusalém, quando uma horda de zumbis escala muralhas e invade a cidade sitiada? O diferencial aqui é a maneira como Forster acompanha a corrida (ou os saltos) dos mortos vivos por meio de câmeras virtuais ligeiras. Isso e mais a forma como a equipe elaborou os ataques em ondas completamente irracionais, mas tomada pela brutalidade das criaturas – o que permite a escalada das tais muralhas e as corridas desesperadoras dentro de Jerusalém. É quase épico e certamente impressionante. E não se engane, há uma dose certa de drama em meio à velocidade. Repare como Pitt para em certo momento na beirada do terraço de um arranha-céu por achar que está infectado e conta até ter certeza de que não se transformará e atacará suas filhas e esposa.

Outra detalhe bastante esperto da produção é o aspecto global da epidemia, que sai do quintal norte-americano. E, claro, o longa respeita umas das regras de ouro do subgênero: não há muitas explicações para os eventos que levam ao apocalipse zumbi. A novidade aqui é a aplicação do 3D convertido – uma atração dispensável, diga-se de passagem. Exceto por um único momento em que os errantes nervosos aparecem subitamente de frente a um plano subjetivo, o que se vê na tela é muita confusão com objetivos desfocados em todo o quadro. Além disso, na parte negativa do filme estão os variados momentos em que o protagonista é lançado convenientemente a um lugar. Os exemplos são muitos, da a invasão de Jerusalém – que até a chegada de Brad Pitt era um reduto da resistência humana – ao local de impacto do avião que o transportava, o qual está próximo de seu destino (um laboratório da OMS).

De qualquer forma, não deixa de ser interessante que um longa cheio de energia e correria termine em uma passagem na qual a montagem ágil dê lugar para momentos em que as unhas do espectador sofrem devido à tensão.

Nota: 8,5

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O Superman no Homem de Aço

O GIF abaixo mostra uma pequena homenagem dos realizadores do reboot da franquia  do Superman. A sacada é inserir rapidamente o rosto do intérprete original do herói nos cinemas, Christopher Reeve, em meio a uma passagem do novo longa, O Homem de Aço.

A face mais famosa do personagem é sobreposta ao rosto de Henry Cavill por alguns frames e se confunde ao novo ator que veste a clássica capa vermelha. Uma brincadeira bacana, difícil de se perceber, mas que marca o momento em que Clark Kent se torna o Super-Homem.

Super-Homem

Muito bacana e vi no Judão.


Resumo (17 a 24 jun)

Pulp FictionPulp Fiction – Tempo de Violência (Pulp Fiction, 1944). De Quentin Tarantino

Esse continua a ser o melhor filme de Quentin Tarantino por um motivo: ele usa a brecha aberta por Cães de Aluguel e a expande até se tornar uma verdadeira janela para mostrar um dos maiores filmes de gangsteres de rua estilizados e cheios de sacadas espertas que o Cinema já viu. Um roteiro criado quase como Literatura. O realizador não é Scorsese nem Coppola e cria estilo próprio, que é para não rivalizar com os clássicos e ainda sim ter seu lugar ao sol. A visão de Tarantino para os romances policiais sensacionalistas, como ele mesma os denomina no início do longa, traz ainda um artifício bem mais sofisticado que os 10 centavos que estampam a capa do filme: a cronologia fragmentada da trama. O cineasta mirou alto e conseguiu acertar o alvo. As várias histórias juntadas por fiapos conseguem resultados muito mais impactantes que se estivessem colocados na ordem cronológica. E olha que estamos falando de um filme de mais de 2h30min, com violência quase kitsch e no qual há policiais sadomasoquistas, bandidos que se drogam e falam de McDonald’s na Europa, chefões estuprados e uma mulher que cheira heroína. Tudo desenhado sem pressa, com cuidado e muito estilo, afinal de contas, metade de um filme de Tarantino é estilo, depois vem a forma – quase sempre tão boa quanto o item anterior. No caso de Pulp Fiction o equilíbrio é perfeito, pois ao mesmo tempo que temos uma longa tomada na qual Christopher Walken conta a história do valioso relógio de Bruce Willis, somos surpreendidos por uma dança que não é nada além de puro estilo escorrendo por entre os dedos à frente dos olhos de John Travolta ao som de Chuck Berry. O filme, claro, poderia ter uns 15 ou 20 minutos a menos para que fosse um tanto mais linear no ritmo, mas isso serve como incentivo para você aproveitar todas as músicas incidentais que Tarantino agrupa aqui. Do já citado Berry a Al Green, passando por Urge Overkill, essa é uma das trilhas mais comentadas de todos os tempos. Nota: 9


Crítica: Além da Escuridão – Star Trek

Star-Trek-Into-Darkness-PosterAssistir a Além da Escuridão – Star Trek (Star Trek Into Darkness, EUA, 2013) é, em boa parte, rever uma série de pontos já assistidos anteriormente, desde personagens que ressurgem a arcos dramáticos repetidos. No entanto, é novamente o senso de aventura de J. J. Abrams e sua direção que não dá trégua à ação que faz com que o filme se torne um programa agradável – ainda que quase dispensável em termos de Cinema.

O roteiro de Roberto Orci, Alex Kurtzman e Damon Lindelof começa a história em uma cena de correria, tensa e que chega a lembrar as introduções dos filmes de Indiana Jones, como verdadeiros exploradores – algo também já visto em Missão Impossível 3. Aparentemente, uma cena de salvamento que não tem relação com o resto do filme, mas que vai rimar no final da história com o mesmo tipo de atitude, como um tipo de agradecimento. Em seguida, vem a trama verdadeira, relativa a um homem misterioso chamado John (Benedict Cumberbatch), que cria caos e pânico na Terra, por meio de um ataque terrorista em Londres.

O mistério característico de Abrams é marcado ainda pela criatividade do belo plano em que a explosão é deixada em segundo plano pelo retrato de uma criança doente, que sublinha o sacrifício do pai para salvar a filha. Mas o que deveria ser uma cena dramática, se torna um grande furo logo em seguida, já que na apresentação do almirante Marcus (Peter Weller, o eterno RoboCop), o personagem explica que o homem infiltrado na Federação Unida dos Planetas lhe contou o motivo e quem poderia está por trás daquilo. O detalhe é que esse homem fez a explosão acontecer debaixo de seu nariz. Como ele poderia ter sobrevivido?

Superado esse problema por uma avalanche de efeitos visuais, que simplesmente não te deixam pensar muito, o longa segue com a volta de outro personagem notável na História trekker, o qual se torna a maior das repetições do longa – ainda que reedite uma fala célebre dos filmes Star Trek. Mas não é difícil perceber que a motivação do vilão aqui não é muito diferente da raiva que levou Nero (Eric Bana) a causar tumulto no filme anterior da série. Da mesma forma que o capitão Kirk (Chris Pine) ainda tem seus momentos imaturos, mas não como parte de sua personalidade, e sim como mais uma forma de levar a história à frente, esquecendo completamente de que no longa anterior ele passa pelo mesmo arco de maturidade. Aqui, de novo, depois de se mostrar ser moderadamente inconsequente, ele vai fazer algo heroico para mostrar que cresceu.

No entanto, é de se salientar que Abrams está mais comedido em suas movimentações de câmera se comparado à estreia no mundo de Spock e companhia e até mesmo, acredite, nos lens flare característicos na fotografia. O que não o impede de dar zooms rápidos e recorrentes em momentos de ação – você sabe, ninguém perde os hábitos facilmente. Mas é interessante que Além da Escuridão  não deixa de investir no bom humor, que aqui ganha o reforço de frases de efeitos – “Se me testar, vai falhar”, diz Spock (Zachary Quinto) em certo momento, com ótima reação de Bones (Karl Urban).

Usando bem a tensão causada por aqueles momentos em que só um Deus Ex-Machina – reparou que a Enterprise sempre tem uma forma de ser consertada nos momentos mais difíceis? – pode dar jeito, Além da Escuridão – Star Trek pode até não trazer muitas novidades, mas tem bom andamento, com ação e diversão suficientes para que aceite um ou outro problema sem estragar o programa.

Nota: 7,5

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Há alguns anos… – Psicose

Voyeur…

John-Gavin-Janet-Leigh-PsychoJohn Gavin e Janet Leigh na cama. À direita, no alto da foto, seriam os pés do Hitchcock no set de Psicose (1960)?


Resumo (10 a 16 jun)

star_trek_movie_posterStar Trek* (Idem, 2009). De J.J. Abrams

Abrams é um cara criativo e que sabe bem o tipo de tema com o qual trabalha: ação + ficção. Ele não tenta reinventar a roda com essa retomada da renomada marca Jornada nas Estrelas e apenas tira da cartola a forma com a qual os já consagrados Spock e Kirk acabaram se encontrando e dali fizeram uma das grandes parcerias da cultura pop. E sejamos francos, não há nada de muito original na forma como as coisas se desenrolam, parecem até mesmo aqueles casais de comédias românticas que se odeiam e, aos poucos, se conhecem melhor e se aproximam. Nem ao menos a ideia de viagem no tempo se torna um truque divertido como aconteceu, por exemplo, em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban. O que se tem aqui é um senso de aventura aguçado e um bom elenco trabalhando no máximo da química e fazendo com que a plateia relaxe e curta o que chamo de orgia de efeitos visuais. É impressionante a quantidade de CGI no longa, mas que são muito bem usados para imersão na aventura pelos confins espaciais. Ajuda muito a câmera inquieta da J.J. Abrams, cheia de movimentos que buscam estilo e a ação. Não é um filme espetacular, mas um espetáculo em forma de filme, que, acima de tudo, diverte. Ah! E tem Leonardo Nimoy! Nota: 7,5

little_princeO Pequeno Príncipe (The Little Prince, 1974). De Stanley Donen

Transformar o clássico de Antoine de Saint-Exupéry em um musical é, no mínimo, corajoso, mas também um boa “saída cinematográfica” para a história do aviador vivido por Richard Kiley que encontra o pequeno do título no deserto do Saara, depois que sua máquina voadora tem um problema mecânico. Tudo bem que algumas músicas acabem não funcionando como deveriam, a exemplo do tema principal que datou um pouco e da primeira canção entoada pelo piloto. Mas na maior parte do tempo as músicas divertem bastante a exemplo do ótimo tema da Serpente. Pena que o experiente diretor Stanley Donen (de Cantando na Chuva), acabe sendo condescendente com a presença do quase mítico Bob Fosse e estenda demais o número de apresentação do personagem em meio à dança do artista. Quase estraga a brincadeira. O que, por exemplo, não acontece com outras boas peças da trama como a graciosa e emocionante Raposa de Gene Wilder, de longe o melhor coadjuvante da história. Por falar em elenco, imagino que a escolha do garoto para viver o personagem-título não tenha sido fácil e de uma concorrência monumental – mas que valeu cada teste. Steven Warner é um baixinho loirinho e alvo de grande carisma e ainda por cima excelente ator para seus poucos 8 anos na época. Da inocência à raiva, passando pela decepção e alegria, o jovem faz metade do serviço de encantamento que este bom filme exerce. De resto fica o bom uso de lentes olho de peixe em encontros como com o Historiador ou com a própria Raposa, além dos belos e inúmeros movimentos da câmera de Donen. Um bela adaptação, sem dúvida. Nota: 9

*Filme assistido pela primeira vez


Crítica: Faroeste Caboclo

Faroeste CabocloFaroeste Caboclo (Idem, Brasil, 2013) é uma adaptação como todas deveriam ser, com personalidade e que respeita o material original, mas que não o considera intocável. Primeiro, o diretor René Sampaio soube fazer Cinema e não teatrinho filmado, depois o grupo de três roteiristas soube rearranjar a história contada por Renato Russo na música homônima para que o longa ganhasse andamento cadenciado e redondo. Para fechar a conta, é difícil achar algum ator no filme que não esteja abaixo do excelente.

A vitória do filme pode não ser surpreendente, mas chama a atenção por ter Marcos Bernstein com um dos responsáveis pelo roteiro. Depois de escrever o medíocre Somos Tão Jovens, ele continuou com mais esse projeto que envolve o Legião Urbana, mas, dessa vez, faz um ótimo trabalho ao lado de Victor Atherino e José Carvalho. É interessante perceber que o mesmo recurso mal usado na cinebiografia de Russo, o de incluir versos do compositor na fala dos personagens, aqui funciona que é uma beleza, quando João de Santo Cristo diz, sobre seu novo empreendimento, que “logo, logo os malucos da cidade souberam da novidade”.

Mas o grande trunfo do roteiro, que teve um primeiro tratamento de Paulo Lins (Cidade de Deus), é saber cortar aquilo que poderia diminuir a fluidez da história e ainda criar pontes que a letra de Russo não dá. Um exemplo muito claro é a ausência do “general de dez estrelas”, que mesmo sendo uma excelente crítica à ditadura, o filme prefere se ater aos crimes envolvendo tráfico e as disputas de mercado de Santo Cristo e Jeremias. Primeiro dá mais pessoalidade à briga entre os dois, segundo aproxima ainda mais o protagonista de Maria Lúcia, no sentido de que ela é um troféu para Jeremias e o real amor de João.

A história é basicamente a mesma da canção e há detalhes que farão a plateia mais fanática vibrar, como as luzes de Natal em Brasília (instaladas pela produção especialmente para as filmagens) e o tiro de soldado e a explicação da morte do pai de João ou mesmo a ótima rima visual que envolve a Winchester 22 e o passado do protagonista. A montagem do filme é cheia desse tipo de rima, que justifica magnificamente elipses, como a passagem de tempo marcada por um balde que desce em um poço girando com um relógio e ainda expõe a dureza e mesmice da vida do jovem no sertão da Bahia.

Faroeste Caboclo - Maria Lúcia e João de Santo Cristo

Além disso, direção, roteiro e desenho de som casam um momento que poderia ser dos mais clichês, mas que somados à atuação de Fabrício Boliveira e Isis Valverde serve como pontapé inicial para o relacionamento do casal do western nacional. João foge da polícia e invade o quarto de Maria Lúcia, que escuta um disco com fones. Ela se assusta com a presença dele, mas os fones se soltam do aparelho de som e o volume alto abafa os gritos e dali pra frente, Santo Cristo convence a moça de que está apenas escondido e logo se vai. O fundamental aqui é ele dizendo seu nome como forma de ganhar confiança. No dia seguinte uma flor de madeira, feita pelo aprendiz de carpinteiro, sela o amor entre eles de forma emocionante. O que é importante para justificar os enormes perrengues pelos quais irão passar e ainda sim se manterem juntos até o fim, como todos sabem.

Por falar em personagens, nada é mais emblemático no longa que as atuações. Boliveira, cuja persona na produção é movida por provocações, fala pouco, mas quando deve e deixa no olhar do ator a verdadeira atuação, vide os momentos na cadeia. Isis, que a princípio parece uma garota de classe média chata, cresce durante o transcorrer da trama e o trabalho da atriz ganha peso. Assim como Felipe Abib cria um vilão sarcástico, imaturo e escroto. Enquanto dois coadjuvantes roubam a cena, Antonio Calloni e César Troncoso. O primeiro exibe charme e perigo, enquanto o segundo parece ser a melhor escolha de elenco – com seu sotaque ele evita um dos problemas mais graves de Somos Tão Jovens, afinal, ele é um (ótimo) estrangeiro real e não um ator tentando ser, como no ridículo trabalho de Sérgio Dalcin. O único porém é Marcos Paulo, que não tem muito o que fazer em cena como pai de Maria Lúcia.

É de ressaltar ainda a adaptação western para o Planalto Central, algo que a produção consegue com bons e sóbrios resultados, como os sacos de cocaína presos em um gol (nada mais brasileiro), simbolizando enforcados, no duelo final entre os antagonistas. Além, claro, dos cacoetes de montagem e direção que buscam detalhes e imagens em silhueta tópicas do gênero.

Enfim, um épico nacional que trouxe às telas (com qualidade) a história eternizada pelas letras de Renato Russo. Cerca de 100 minutos que valem tanto quanto os 9 minutos do material original.

Nota: 8,5

Faroeste Caboclo - Jeremias