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Crítica: Faroeste Caboclo

Faroeste CabocloFaroeste Caboclo (Idem, Brasil, 2013) é uma adaptação como todas deveriam ser, com personalidade e que respeita o material original, mas que não o considera intocável. Primeiro, o diretor René Sampaio soube fazer Cinema e não teatrinho filmado, depois o grupo de três roteiristas soube rearranjar a história contada por Renato Russo na música homônima para que o longa ganhasse andamento cadenciado e redondo. Para fechar a conta, é difícil achar algum ator no filme que não esteja abaixo do excelente.

A vitória do filme pode não ser surpreendente, mas chama a atenção por ter Marcos Bernstein com um dos responsáveis pelo roteiro. Depois de escrever o medíocre Somos Tão Jovens, ele continuou com mais esse projeto que envolve o Legião Urbana, mas, dessa vez, faz um ótimo trabalho ao lado de Victor Atherino e José Carvalho. É interessante perceber que o mesmo recurso mal usado na cinebiografia de Russo, o de incluir versos do compositor na fala dos personagens, aqui funciona que é uma beleza, quando João de Santo Cristo diz, sobre seu novo empreendimento, que “logo, logo os malucos da cidade souberam da novidade”.

Mas o grande trunfo do roteiro, que teve um primeiro tratamento de Paulo Lins (Cidade de Deus), é saber cortar aquilo que poderia diminuir a fluidez da história e ainda criar pontes que a letra de Russo não dá. Um exemplo muito claro é a ausência do “general de dez estrelas”, que mesmo sendo uma excelente crítica à ditadura, o filme prefere se ater aos crimes envolvendo tráfico e as disputas de mercado de Santo Cristo e Jeremias. Primeiro dá mais pessoalidade à briga entre os dois, segundo aproxima ainda mais o protagonista de Maria Lúcia, no sentido de que ela é um troféu para Jeremias e o real amor de João.

A história é basicamente a mesma da canção e há detalhes que farão a plateia mais fanática vibrar, como as luzes de Natal em Brasília (instaladas pela produção especialmente para as filmagens) e o tiro de soldado e a explicação da morte do pai de João ou mesmo a ótima rima visual que envolve a Winchester 22 e o passado do protagonista. A montagem do filme é cheia desse tipo de rima, que justifica magnificamente elipses, como a passagem de tempo marcada por um balde que desce em um poço girando com um relógio e ainda expõe a dureza e mesmice da vida do jovem no sertão da Bahia.

Faroeste Caboclo - Maria Lúcia e João de Santo Cristo

Além disso, direção, roteiro e desenho de som casam um momento que poderia ser dos mais clichês, mas que somados à atuação de Fabrício Boliveira e Isis Valverde serve como pontapé inicial para o relacionamento do casal do western nacional. João foge da polícia e invade o quarto de Maria Lúcia, que escuta um disco com fones. Ela se assusta com a presença dele, mas os fones se soltam do aparelho de som e o volume alto abafa os gritos e dali pra frente, Santo Cristo convence a moça de que está apenas escondido e logo se vai. O fundamental aqui é ele dizendo seu nome como forma de ganhar confiança. No dia seguinte uma flor de madeira, feita pelo aprendiz de carpinteiro, sela o amor entre eles de forma emocionante. O que é importante para justificar os enormes perrengues pelos quais irão passar e ainda sim se manterem juntos até o fim, como todos sabem.

Por falar em personagens, nada é mais emblemático no longa que as atuações. Boliveira, cuja persona na produção é movida por provocações, fala pouco, mas quando deve e deixa no olhar do ator a verdadeira atuação, vide os momentos na cadeia. Isis, que a princípio parece uma garota de classe média chata, cresce durante o transcorrer da trama e o trabalho da atriz ganha peso. Assim como Felipe Abib cria um vilão sarcástico, imaturo e escroto. Enquanto dois coadjuvantes roubam a cena, Antonio Calloni e César Troncoso. O primeiro exibe charme e perigo, enquanto o segundo parece ser a melhor escolha de elenco – com seu sotaque ele evita um dos problemas mais graves de Somos Tão Jovens, afinal, ele é um (ótimo) estrangeiro real e não um ator tentando ser, como no ridículo trabalho de Sérgio Dalcin. O único porém é Marcos Paulo, que não tem muito o que fazer em cena como pai de Maria Lúcia.

É de ressaltar ainda a adaptação western para o Planalto Central, algo que a produção consegue com bons e sóbrios resultados, como os sacos de cocaína presos em um gol (nada mais brasileiro), simbolizando enforcados, no duelo final entre os antagonistas. Além, claro, dos cacoetes de montagem e direção que buscam detalhes e imagens em silhueta tópicas do gênero.

Enfim, um épico nacional que trouxe às telas (com qualidade) a história eternizada pelas letras de Renato Russo. Cerca de 100 minutos que valem tanto quanto os 9 minutos do material original.

Nota: 8,5

Faroeste Caboclo - Jeremias

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