Go ahead, punk. Make my day.

Archive for Agosto, 2013

Entrevista: Antônio Pinto

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Um artista renomado sempre traz aquela expectativa (pré-conceito?) de que poderá não te recepcionar muito bem para uma entrevista – como no meu caso, uma entrevista de última hora. Não foi o caso de Antônio Pinto, compositor de trilhas trilhas sonoras no Brasil e lá fora, como na Inglaterra e nos Estados Unidos. Entre os trabalhos mais importantes do músico estão as trilhas de Cidade de Deus, Abril Despedaçado, Colateral, O Senhor das Armas e Senna.

Boa praça, entre um cigarro e outro, durante 15 minutos Antonio falou ao Blog Cinefilia sobre o processo de criação para um filme de ação e para um poético, sobre como acabou sendo “a amante” de Michael Mann e mostrou toda a empolgação sobre o trabalho mais recente, Serra Pelada, dirigido pelo amigo Heitor Dhalia, com quem faz sua terceira parceria.

A única coisa que ele não quis comentar foi sobre um trabalho para Hollywood, com um grande estúdio e possivelmente em uma animação. Disney? Pixar? Blue Sky? Sem resposta.

*

Como ainda ainda penso que a composição para Central do Brasil seja o melhor trabalho de Antônio Pinto, comecei a entrevista falando a respeito do longa de Walter Salles, de 1998 –  inspirado pelos assovios dos músicos do Udi Cello Ensemble pelos corredores dos bastidores e pela emoção de ver a música ser tocada ao vivo em uma apresentação no Teatro Municipal de Uberlândia.

Apresentação

Blog Cinefilia – Acho que sua música faz o final do Central do Brasil

Antônio Pinto – Tenho uma história curiosa. Quando eu peguei o Central, o Waltinho (Salles) pediu para eu pegar um maestro experiente para fazermos juntos (a música). Então, fomos assistir ao primeiro corte e não tinha trilha ainda. Quando acendemos a luz, no fim do filme, todo mundo estava chorando na sala. O filme é realmente muito emocionante, mas com a música, aquele momento (o desfecho), há uma duplicação da emoção. A cena te faz chorar, com a música ela te faz chorar pra frente. As gotas de lágrimas começam a voar (risos).

Compor aqui no Brasil e fora tem alguma diferença?

Tem várias. Cada dia mais as coisas estão ficando mais parelhas e aqui as produtoras começam a ter um pouco mais de dinheiro para trabalhar. O interessante comigo é que antes até de fazer Cinema, eu trabalhava com publicidade. Fazia a música e o áudio inteiro, do diálogo ao efeito. Quando fui para o Cinema, já houve uma diferença. Eu ficava só com a música, não mais com o som. Quando cheguei nos Estados Unidos, o que eu fazia na música, tinham seis pessoas para fazer. Então, tem o editor, o supervisor, o chefe… Foi interessante, eu comecei a ganhar mais dinheiro e trabalhar menos (risos). O brasileiro tem essa coisa de aprender tudo na raça e acho que isso leva à originalidade e a uma identidade muito forte. Quando eu falo para alguém que está começando, eu digo que se você quer estudar, vai estudar, mas vai ver filme, o máximo que puder. E ficar antento em quais as resoluções que um compositor tomou e criar a sua maneira de fazer música para Cinema.

Você fez filmes poéticos como Central do Brasil e com mais ação. Essa mudança é difícil?

De maneira nenhuma. O que eu gosto de fazer não é só a música, mas fazer o filme. Quando eu estou em um trabalho com o diretor, com o produtor, com o editor, a gente está junto terminando o filme. Não gosto de chegar no último mês, pegar um monte de música temporária e copiar… Eu quero contar a história junto com o cara. A diferença não existe, já que estou fazendo a obra junto com o autor.

Você foi trabalhar junto com o James Newton Howard…

(Interrompendo) Isso é uma mentira… Tenho uma história muito mais interessante de quando eu fui fazer o Colateral. Fui ao Oscar com o Cidade de Deus e já tinha ido com o Central do Brasil, sem pretensão alguma, inclusive. Naquela primeira vez, o Waltinho me arrumou uma reunião com um agente. Ele me disse que em Los Angeles tem sete agências de compositores e é uma batalha ir de reunião em reunião. Eu disse, “já entendi o que você quis dizer, mas dá pra pagar, pelo menos, o almoço?” (risos). Mas quando estava a uma semana de ir ao Oscar de novo (agora com o Cidade de Deus), eu recebi um telefonema. “Oi, eu sou Bryce, eu sou agente de música em Los Angeles e quero representar você”. Nessa hora eu imaginei um gordinho de camisa florida em um trailer no Texas fumando um charuto e com uma revista de Cinema na mão. Eu não precisei assinar nada e ele disse que marcaria um monte de reunião. Dois dias depois nasce meu segundo filho. Mas eu fui. Em L.A. encontrei o Bryce, um italianinho novo, na casa dos 30 anos. No carro, ele me entregou uma apostila com as informações da reunião e eu nem olhei direito. Chegando no local do encontro, ele me apresenta um cara chamado Michael Mann, que eu nem sabia quem era, na minha ignorância. Conversei com ele como estou falando contigo e ele disse que gostou do meu trabalho no Central e tal e fomos ver o filme que ele estava fazendo. Quando começou, me aparece na tela Tom Cruise e Jamie Foxx e eu… (cara de espanto). Saí de lá, me acalmei um pouco e pensei “vou continuar do mesmo jeito”. Peguei uns pedaços do filme, voltei para o Brasil, fiz algumas coisas e enviei. Passaram-se dois meses e eu desisti. Aí me liga o Bryce falando que eu precisaria fazer três trechos do filme pro Mann. Viajei pra lá de volta. Logo recebi os equipamentos e comecei a fazer uma, duas três trilhas e quando eu me dei conta eu era a amante do Sr. Michael Mann. James Newton Howard nunca soube que eu estava trabalhando junto no projeto. Só soube quando o filme estava sendo mixado, deu um chilique e queria quebrar tudo…

Michael Mann fez isso?

Ele é louco (risos). Ele trabalha seis editores, seis editores de música… Ele tem o processo dele… Acabei fazendo 40% da trilha e ao invés de ficar uma semana acabei ficando três meses e meio. E meu filho aqui no Brasil.

Você está trabalhando em uma animação…?

Não posso dizer nada sobre isso (risos). Não está fechado ainda.

Mas é um trabalho colaborativo?

Não, assinatura Antônio Pinto. Mas eu quero que você fale do Serra Pelada, o melhor filme brasileiro desde Cidade de Deus (risos).

Veja, então, no vídeo abaixo, Antônio Pinto e a expectativa sobre Serra Pelada, que tem no elenco Wagner Moura e estreia dia 18 de outubro nos cinemas.


Imagem

Ben Affleck será o novo Batman? #Xatiado

Batman


Um personagem, uma frase – Garota da Vitrine

Shopgirl

(Diálogo)

Ray – Quero que você saiba que lamento o modo como tratei você

Mirabelle – Eu sei

Ray – Eu amei você…

(Um abraço, uma troca de olhares, câmera se afasta de Ray)

Off – “Ao ver Mirabelle se afastar, Ray Porter sentiu uma perda. Como é possível, ele pensou, sofrer por uma mulher que manteve à distância para não sentir falta dela quando a perdesse?”

(Narrador, Steve Martin – Garota da Vitrine, 2005)


Resumo (12 a 18 ago)

scorpio rising posterScorpio Rising* (Idem, 1964). De Kenneth Anger

Experimental é a palavra que mais acompanha esse curta-metragem de Kenneth Anger, mas é sempre bom lembrar que o filme trabalha paralelos e imagens aparentemente desconexas para criar unidade e uma mensagem sobre subversão e messianismo. Ainda que não pareça, Anger segue a velha cartilha de três atos, com um início que apresenta seus personagens, um desenvolvimento que mostra o que a “trama” tem a dizer, e um desfecho para aquelas pessoas. Estamos falando de motoqueiros nazista aparentemente gays, que adoram suas motos e um Führer, causam certa destruição e são movidos por ideais e pela trilha sonora da produção, cheia de hits de Elvis Presley, The Crystals e até Ray Charles. A subversão aqui vem de várias formas, como nas imagens paralelas de uma aparente Jesus conduzindo seus discípulos assim como os motoqueiros se dirigem para o local de discurso de mentor. Até mesmo a proposta de nazis homossexuais é polêmica por si só. Da mesma forma que os diálogos são excluídos e as músicas falam no lugar dos atores, a exemplo de quando “Torture”, de Kris Jensen, toca com uma cena de abuso (sexual?) é mostrada. Underground característico de seu criador, mas que é uma grande aula de como o Cinema é imagem e o que a soma delas pode falar. Nota: 8,5

black_dynamite_ver3Black Dynamite* (Idem, 2009). De Scott Sanders

Entrando na mesma onda que Quentin Tarantino e Robert Rodriguez de filmes tipo Z criados para serem assim, se aproveitando da estética blaxploitation para fazer rir, Black Dynamite tem um personagem-título fodão que junta dúzias de frases de efeito com cenas de ação absurdas para agradar o público ávido por tosquidão milimetricamente pensada. A trama aqui, obeviamente, não faz o mínimo sentido e sai do assassinato do irmão do protagonista e vai parar no mais alto escalão da política americana setentista, com uma pequena passagem por terras orientais. Melhor nem perguntar como isso acontece. Basta rir e se deixar levar pela proposta do longa, que diverte bastante, ainda que te deixe escapaa a atenção em alguns momentos devido à grande zona que é seu roteiro. Chama atenção por alguns bons diálogos – “Shhh, mama, você vai acordar as outras vadias” -, mas não mantém pudores de filmes como Machete (irmão temático) e a nudez é guardada para poucos momentos se pensarmos no quanto Black Dynamite é citado como garanhão. Nota: 7,5

shopgirl posterGarota da Vitrine (Shopgirl, 2005). De Anand Tucker

Um filme que surpreende por ser delicado, romântico e pé no chão. Além do mais, tem direção inspirada e um cenário que interage muito bem com seus personagens. Veja as cenas em que o céu se transforma em ruas, postes e uma claraboia. Uma linda cena repetida ao longo da produção, que mostra a preocupação do cineasta Anand Tucker em não ser apenas um romancezinho. Afinal, ele tem à mão um belo texto de Steve Martin que fala sobre como uma pessoa pode se ligar a outra e de que forma uma menina do interior vai para a cidade grande entender o tipo de isolamento que se pode experimentar em meio a milhões de outras pessoas. A garota do título é Claire Danes em uma atuação minimalista, depressiva e em busca de alguém para preencher seu coração. Ela tem duas opções: um moleque besta, mas sincero, ou um homem que quer encontrar alguém, mas que exige certo distanciamento. Todos vão aprender a amar, mas cada um a seu preço. O filme é daqueles  que evita a qualquer custo o excesso de doçura e ainda assim é cativante. Uma emoção genuína, que ganha ainda mais tons nas cores verdes e azuis que acompanham a protagonista, meio que em tom de solidão e esperança. O símbolo vai e volta no apartamento da moça, em suas roupas e na iluminação dos ambientes. Outro trabalho bem feito pela equipe do longa, que ainda termina com um diálogo extremamente emocionante. Nota 8,5

therock posterA Rocha (The Rock, 1996). De Michael Bay

Pois é, essa é daquelas aventuras que não iriam muito longe se não houvesse um elenco para ajudar nas cenas de ação. Todo mundo sabe que Bay baseia seus longas apenas na plástica e nas cenas de correria, entretanto, dessa vez, foi muito feliz na escalação de medalhões como Ed Harris e Sean Connery junto a um ainda contido Nicolas Cage. O drama do primeiro, com o charme do segundo, aliado à boa cara de bobão inteligente do último dão uma liga diferente à produção. Fora que os cacoetes de Bay nessa época ainda eram um pouco menos intensos, como os travellings com angulações baixas, o que já não irrita – e isso ajuda muito. Mas o melhor é ver que em meio às cenas de tiros, explosões e pancadaria – predominantes, claro – existe um vilão humano e heróis carismáticos. O coronel Harris pira e ameaça a própria pátria com armas de destruição em massa. Enquanto isso, Connery é instável, mas não deixa de ser confiável quando a trama demanda – e olha que fica sempre uma pontinha de dúvida sobre ele. Com isso, Cage tem o caminho bem iluminado para se passar por astro de ação, sem ser o clichê fortão para tal e se baseia numa atuação correta e cômica às vezes. Nota: 8

*Filme assistido pela primeira vez


Stranger – O novo mistério de J.J. Abrams?

Stranger

Lá vem J.J. Abrams de novo com projetos misteriosos. Sua produtora, a Bad Robot, soltou um teaser na internet sem explicar nada. Chamado apenas de Stranger, o vídeo traz imagens em preto e branco de uma pessoa andando pela praia, um céu estrelado e alguém com a boca costurada – imagem estranha, que contradiz a narração calma que poderia nos levar a crer se tratar de um drama. Não foi o que ficou parecendo com o final.

A mensagem que fica é “Ele chegou sem saber nada de si mesmo. Quem ele é? Logo ele saberá”. E nós, também?


O Iluminado feat. A Carruagem Fantasma

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Você sabe de onde veio a inspiração de Stanley Kubrick para a famosa cena de O Ilumniado, “Here’s Jhonny”? A origem é o terror sueco de 1921, A Carruagem Fantasma, dirigida por Victor Sjöström.  Claro que a genialidade de Jack Nicholson, que bolou a frase que ficou famosa, e um movimento de câmera de Kubrick deixaram a cena do terror de 1980 com identidade própria, mas é óbvia a influência.

Deixe-me fazer entender com o vídeo abaixo.


Bergman vs. Kane (e Welles)

Ingmar-Bergman“Pra mim, ele é um embuste. É vazio, não é interessante, está morto. Cidadão Kane, filme do qual eu inclusive tenho uma cópia – é o queridinho dos críticos, sempre no topo de todas as enquetes, mas eu acho uma chatice. As performances dos atores são inúteis. A quantidade de respeito que esse filme tem é absolutamente inacreditável”.

Ingmar Bergman sobre Cidadão Kane e seu diretor, o cineasta Orson Welles

Orson-Welles