Go ahead, punk. Make my day.

Entrevista: Antônio Pinto

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Um artista renomado sempre traz aquela expectativa (pré-conceito?) de que poderá não te recepcionar muito bem para uma entrevista – como no meu caso, uma entrevista de última hora. Não foi o caso de Antônio Pinto, compositor de trilhas trilhas sonoras no Brasil e lá fora, como na Inglaterra e nos Estados Unidos. Entre os trabalhos mais importantes do músico estão as trilhas de Cidade de Deus, Abril Despedaçado, Colateral, O Senhor das Armas e Senna.

Boa praça, entre um cigarro e outro, durante 15 minutos Antonio falou ao Blog Cinefilia sobre o processo de criação para um filme de ação e para um poético, sobre como acabou sendo “a amante” de Michael Mann e mostrou toda a empolgação sobre o trabalho mais recente, Serra Pelada, dirigido pelo amigo Heitor Dhalia, com quem faz sua terceira parceria.

A única coisa que ele não quis comentar foi sobre um trabalho para Hollywood, com um grande estúdio e possivelmente em uma animação. Disney? Pixar? Blue Sky? Sem resposta.

*

Como ainda ainda penso que a composição para Central do Brasil seja o melhor trabalho de Antônio Pinto, comecei a entrevista falando a respeito do longa de Walter Salles, de 1998 –  inspirado pelos assovios dos músicos do Udi Cello Ensemble pelos corredores dos bastidores e pela emoção de ver a música ser tocada ao vivo em uma apresentação no Teatro Municipal de Uberlândia.

Apresentação

Blog Cinefilia – Acho que sua música faz o final do Central do Brasil

Antônio Pinto – Tenho uma história curiosa. Quando eu peguei o Central, o Waltinho (Salles) pediu para eu pegar um maestro experiente para fazermos juntos (a música). Então, fomos assistir ao primeiro corte e não tinha trilha ainda. Quando acendemos a luz, no fim do filme, todo mundo estava chorando na sala. O filme é realmente muito emocionante, mas com a música, aquele momento (o desfecho), há uma duplicação da emoção. A cena te faz chorar, com a música ela te faz chorar pra frente. As gotas de lágrimas começam a voar (risos).

Compor aqui no Brasil e fora tem alguma diferença?

Tem várias. Cada dia mais as coisas estão ficando mais parelhas e aqui as produtoras começam a ter um pouco mais de dinheiro para trabalhar. O interessante comigo é que antes até de fazer Cinema, eu trabalhava com publicidade. Fazia a música e o áudio inteiro, do diálogo ao efeito. Quando fui para o Cinema, já houve uma diferença. Eu ficava só com a música, não mais com o som. Quando cheguei nos Estados Unidos, o que eu fazia na música, tinham seis pessoas para fazer. Então, tem o editor, o supervisor, o chefe… Foi interessante, eu comecei a ganhar mais dinheiro e trabalhar menos (risos). O brasileiro tem essa coisa de aprender tudo na raça e acho que isso leva à originalidade e a uma identidade muito forte. Quando eu falo para alguém que está começando, eu digo que se você quer estudar, vai estudar, mas vai ver filme, o máximo que puder. E ficar antento em quais as resoluções que um compositor tomou e criar a sua maneira de fazer música para Cinema.

Você fez filmes poéticos como Central do Brasil e com mais ação. Essa mudança é difícil?

De maneira nenhuma. O que eu gosto de fazer não é só a música, mas fazer o filme. Quando eu estou em um trabalho com o diretor, com o produtor, com o editor, a gente está junto terminando o filme. Não gosto de chegar no último mês, pegar um monte de música temporária e copiar… Eu quero contar a história junto com o cara. A diferença não existe, já que estou fazendo a obra junto com o autor.

Você foi trabalhar junto com o James Newton Howard…

(Interrompendo) Isso é uma mentira… Tenho uma história muito mais interessante de quando eu fui fazer o Colateral. Fui ao Oscar com o Cidade de Deus e já tinha ido com o Central do Brasil, sem pretensão alguma, inclusive. Naquela primeira vez, o Waltinho me arrumou uma reunião com um agente. Ele me disse que em Los Angeles tem sete agências de compositores e é uma batalha ir de reunião em reunião. Eu disse, “já entendi o que você quis dizer, mas dá pra pagar, pelo menos, o almoço?” (risos). Mas quando estava a uma semana de ir ao Oscar de novo (agora com o Cidade de Deus), eu recebi um telefonema. “Oi, eu sou Bryce, eu sou agente de música em Los Angeles e quero representar você”. Nessa hora eu imaginei um gordinho de camisa florida em um trailer no Texas fumando um charuto e com uma revista de Cinema na mão. Eu não precisei assinar nada e ele disse que marcaria um monte de reunião. Dois dias depois nasce meu segundo filho. Mas eu fui. Em L.A. encontrei o Bryce, um italianinho novo, na casa dos 30 anos. No carro, ele me entregou uma apostila com as informações da reunião e eu nem olhei direito. Chegando no local do encontro, ele me apresenta um cara chamado Michael Mann, que eu nem sabia quem era, na minha ignorância. Conversei com ele como estou falando contigo e ele disse que gostou do meu trabalho no Central e tal e fomos ver o filme que ele estava fazendo. Quando começou, me aparece na tela Tom Cruise e Jamie Foxx e eu… (cara de espanto). Saí de lá, me acalmei um pouco e pensei “vou continuar do mesmo jeito”. Peguei uns pedaços do filme, voltei para o Brasil, fiz algumas coisas e enviei. Passaram-se dois meses e eu desisti. Aí me liga o Bryce falando que eu precisaria fazer três trechos do filme pro Mann. Viajei pra lá de volta. Logo recebi os equipamentos e comecei a fazer uma, duas três trilhas e quando eu me dei conta eu era a amante do Sr. Michael Mann. James Newton Howard nunca soube que eu estava trabalhando junto no projeto. Só soube quando o filme estava sendo mixado, deu um chilique e queria quebrar tudo…

Michael Mann fez isso?

Ele é louco (risos). Ele trabalha seis editores, seis editores de música… Ele tem o processo dele… Acabei fazendo 40% da trilha e ao invés de ficar uma semana acabei ficando três meses e meio. E meu filho aqui no Brasil.

Você está trabalhando em uma animação…?

Não posso dizer nada sobre isso (risos). Não está fechado ainda.

Mas é um trabalho colaborativo?

Não, assinatura Antônio Pinto. Mas eu quero que você fale do Serra Pelada, o melhor filme brasileiro desde Cidade de Deus (risos).

Veja, então, no vídeo abaixo, Antônio Pinto e a expectativa sobre Serra Pelada, que tem no elenco Wagner Moura e estreia dia 18 de outubro nos cinemas.

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