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Archive for Fevereiro, 2014

Crítica: 12 Anos de Escravidão

12 anos de escravidão posterSteve McQueen nunca foi de filmar de maneira naturalista, muito pelo contrário, cada plano dele é pensado e a câmera se movimenta da forma que ele determina, sem muito espaço para improvisos. Por vezes ele é hermético, o que não deixou filmes como Hunger ou Shame menos humanistas. O interessante é que com 12 Anos de Escravidão (12 Years a Slave, EUA/Reino Unido, 2013) ele conseguiu seu filme mais palatável, ainda que um pouco abaixo em relação a seus antecessores. O que não denigre, de forma alguma, a qualidade da produção.

O grande trunfo da produção é manter a mão firme de McQueen e o quanto ele consegue tocar o público pontualmente e criar, por meio desses poucos momentos, uma aura muito bonita para o filme. A história em si, baseada em fatos, ajuda. Ela acompanha o caso intrigante de Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor), que, enganado, acaba vendido ilegalmente como escravo ainda que fosse um homem livre, com mulher e filhos, nos Estados Unidos do século XIX. Um pesadelo, que como o título deixa claro, dura mais de uma década.

E é terrível comprovar logo no início do filme o tipo de tristeza que Solomon passa em um paralelo feito entre a imagem da troca de olhares sem qualquer significado entre o protagonista e outra escrava e o plano em que ele relembra da esposa, deitados na cama do casal. A diferença da fotografia fria e escura da senzala e da cor quente do flashback em um mesmo tipo de enquadramento só acentua o momento.

É uma passagem terna, mas sem arroubos de emoção. O filme vive de pequenos cutucões de grande repercussão se assimilados pelo espectador. Evita a pieguice e ainda sim não deixa de ser um libelo humanitário. Atente-se, por exemplo, ao momento em que Solomon recebe o violino do mestre vivido por Benedict Cumberbatch. “Espero que isso traga mais alegria nos próximos anos”, diz o proprietário do escravo. Frase cortante que não deixa o homem esquecer a situação absurda pela qual passa. O olhar de Ejiofor ao receber o instrumento é tristemente minimalista.

12 anos de escravidão

De ritmo bem cadenciado, 12 Anos guarda duas cenas-chave para explorar para valer a emoção do espectador. A primeira está na agonia de um castigo dado a Northup, quando é suspenso pelo pescoço e deixado por horas apenas com as pontas dos pés no chão para evitar seu enforcamento. O fato da direção e da montagem segurarem o momento por muito tempo e de Ejiofor pisar de maneira desesperada na lama para sobreviver desperta raiva e revolta por tamanha humilhação a um ser humano. Ver outras pessoas, negras e brancas, passarem por ele com indiferença é pura crueldade.

O outro momento é um plano de 5 minutos sem cortes no qual uma escrava é açoitada quase até a morte depois de conseguir um sabonete para que pudesse tomar banho. Em uma combinação de indignação e pena do lado de cá da tela e de culpa, desejo, raiva e superioridade idiota por parte do mestre vivido por Michael Fassbender, McQueen poderá ter sua carreira lembrada por essa cena.

Se há defeitos aqui eles estão em no fato de seu ápice ficar perto de uma resolução meio anticlimática que envolve um Brad Pitt de discurso avançado para aquela época e o final meio choroso para um filme tão centrado. Fora que é difícil sentir os 12 anos pelos quais Solomon passa como escravo. Uma passagem de tempo mais evidenciada poderia fazer mais pelo trabalho de McQueen.

Nota: 8,5

12 anos de escravidão

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Cuerdas – O curta hit (e lindão)

Cuerdas

Primeiro quem me falou desse curta-metragem foi minha namorada, Caroline Aleixo, depois vi uma avalanche de compartilhamentos por redes sociais. Pra mim, já é um hit na internet. Compreensível. Cuerdas é um filme extremamente fácil de gostar, tem  história politicamente correta e com final um tanto manipulador, mas quem poderá dizer que não se trata de um desfecho emocionante? Dirigido por Pedro Solís García, ele recebeu o prêmio Goya de Melhor Curta de Animação.

O filme trata da amizade entre duas crianças, uma menina chamada Maria e um menino com paralisia cerebral. O título “cordas” faz referência ao uso delas para que haja interação entre os dois – é uma sacada genial do filme. Há uma mensagem de tolerância e contra o preconceito que derrete corações gelados.

Confira e chore – mesmo não tendo encontrado em versão HD ou de qualidade melhorzinha pela web.

UPDATE: Tiraram do ar e não achei outros 😦

UPDATE 2: Subiram de novo! No ar!

São 10 min e 50 seg.


Resumo (17 a 23 fev)

robocop__1987_posterRoboCop – O Policial do Futuro (RoboCop, 1987). De Paul Verhoeven

À primeira vista trata-se apenas de um filme de orçamento grande, com muita ação e uma ideia minimamente atraente para um público jovem. Mas dê uma chance ao policial robô! Paul Verhoeven tem mais a dizer do que apenas algumas balas cruzando os fotogramas. Ele fala de desumanização e a retomada da identidade em um futuro no qual o caos e as grandes corporações parecem ser os mandantes. Repare que há sempre mais bandidos (de baixo e alto escalão) pelo filme do que “gente normal”. A Detroit proposta aqui é super urbanizada em um futuro decadente, no qual o Estado nem se mostra e a TV junto com as grandes empresas fazem o papel dele, seja dando pão ou circo – ou a segurança privatizada da OCP. É dali que nasce o robô policial que não tem consciência de sua condição mecanizada. Quando ele descobre, surge uma das melhores passagens do filme, durante sua volta para casa e as lembranças que, revisitadas por meio de uma montagem muito bem feita por Frank J. Urioste, emenda momento antigos e atuais junto à direção precisa de Verhoeven – com câmera em movimento. Fora que o longa é extremamente satírico e não se importa em ser “ridículo” para zoar uma sociedade à beira da falência. Isso e o elemento violência que aqui começa com um policial sendo desmembrado com tiros e termina com um vilão derretendo depois de ter contato com lixo tóxico. Um pequeno clássico. Nota: 8,5


Daniel Craig adolescente – já tinha cara de velho

Depois de Natalie Portman, mais um post sobre atores e seus velhos tempos. Dessa vez é o atual James Bond, Daniel Craig. Nessa foto que circula pela internet, mesmo na adolescência, o ator já tinha cara de 40 anos.

Craig

 


O teste de Natalie Portman para O Profissional

Leon-the-Professional

Antes de qualquer mortal se apaixonar pela lindeza Natalie Portman em O Profissional, de 1994, a equipe da produção pôde perceber o quanto a jovem era talentosa mesmo com apenas 12 anos na época do teste.

No vídeo a seguir, gravado em 1993, você descobre como foi a audição dela para o ótimo filme de Luc Besson. A futura Mathilda se mostra segura e sorridente e você entende o motivo dela ter ganhado o papel – e depois o mundo.

Esse foi o primeiro trabalho em um longa-metragem de Natalie.


Resumo (10 a 16 fev)

MoonLunar* (Moon, 2009). De Duncan Jones

Quando você assiste a Lunar, parece que verá uma homenagem a Andrei Tarkovsky e seu Solaris. Há muito de Kubrick e 2001 – Uma Odisséia no Espaço também. Só que Duncan Jones consegue criar uma trama própria e aproveitar muito bem seu protagonista, Sam Rockwell. Estranho e criativo, o filme tem na trama os dias do astronauta Sam Bell em uma base na Lua que capta e envia energia solar para a Terra depois de um futuro tenebroso com o esgotamento energético no planeta. Não é nem bom falar muito sobre a trama que lentamente deslancha com reviravoltas que garantem o interesse da plateia, enquanto o diretor deixa de lado exibicionismos e se concentra em dirigir para seu ator em cena e para o crescimento do filme – as muitas maneiras que Jones encontra de colocar dois Rockwells interagindo já me bastaram como exercício cinematográfico. E é bom que se lembre o quanto o ator está bem em cena. Ele trabalha personalidades diferentes durante o desenrolar da narrativa e, contido, parece ser realmente pessoas diferentes e parecidas ao mesmo tempo. Por vezes claustrofóbico, por vezes viajado e em outras horas emocionante, Lunar chega ao final com um saldo positivo sem querer reinventar a roda, mas entrega o que promete e ainda tem a voz calma de Kevin Spacey na versão humanizada (se é que isso seja possível) do HAL 9000. Veja também Contra o Tempo. Nota: 8,5

*Filme assistido pela primeira vez


Crítica: A Menina que Roubava Livros

the-book-thief-posterÉ difícil acompanhar certa história quando esta não te oferece um conflito ou quando faz isso de maneira chocha. Dessa forma, é bem interessante ( e contraditório) o desenvolvimento do núcleo que protagoniza A Menina que Roubava Livros (Thr Book Thief, EUA/Alemanha, 2013). Se há algo que faz você avançar pela trama sem tensão são os personagens, que fluem pelo longa-metragem enquanto a história parece ser imposta, e não feita por eles.

A protagonista é Liesel Meminger (Sophie Nélisse), a menina que foi adotada pelos Hubermann, Hans (Geoffrey Rush) e Rosa (Emily Watson), na Alemanha nazista da II Guerra Mundial. Aos poucos a retraída menina começa a entender do que se trata o conflito internamente, enquanto tenta se adaptar à nova realidade familiar. O que mais a assusta é a forma como é tratada sua maior paixão: os livros. Muitos deles proibidos e queimados em praça pública.

Percebe-se, no entanto, que no roteiro de Michael Petroni (adaptação do livro de Markus Zusak) a trama envolvendo incursões do exército de Hitler pela vida da garota não tem lá grande resultado se comparado à interação familiar. A única exceção seria o acolhimento do jovem judeu Max (Ben Schnetzer), que não rende mais do que muito barulho por parte do segredo da família e uma cena solitária de “tensão” na qual um guarda nazista visita a casa e logo deixa o lugar. Outro exemplo são as invasões de Liesel à casa da primeira dama em busca de livros. Não há qualquer momento em que isso pareça perigoso – a certa altura ela chega a ter uma discussão com o melhor amigo em voz alta no jardim da residência.

Fora que o montador John Wilson é um verdadeiro sabotador. Junto a algumas narrações e o próprio roteiro há alguns desperdícios de boas cenas que poderiam aumentar a emoção de A Menina que Roubava Livros. Tome a passagem do bombardeio em que a população se esconde um abrigo e, de repente, Hans empunha seu acordeon para acalmar as pessoas com uma canção. Quando você menos espera a cena acaba e o que tinha potencial para humanizar ainda mais aqueles personagens se torna frustrante. É como se o filme dissesse: “Ok, já está feito, vamos à frente”. Da mesma forma que quando a jovem Liesel começa a contar uma história no mesmo abrigo, a montagem inventa uma elipse por meio de uma imagem no front de guerra que não casa com a cena nem traz tensão para o momento.

De qualquer forma, a relação paternal entre Rush e Sophie Nélisse realmente aproxima a plateia do filme. Ainda que conte com certa forçada para que Emily Watson pareça uma megera em seu primeiro encontro com a jovem e pela forma como trata o marido, o ator veterano e a jovem conseguem dinâmica própria: ela com um olhar vivo e ele com personalidade carismática e de incentivo à filha adotiva. Isso e mais o crescimento de Emily que, aos poucos, se humaniza.

Se o texto de Petroni não consegue criar uma pano de fundo relevante, a relação entre a protagonista e Max e também com Rudy (Nico Liersch) é das mais interessantes. A garota vive delicadamente na linha entre a amizade verdadeira e um amor adolescente ingênuo. O que leva a um rumo igualmente ambíguo, entre a tristeza e a beleza.

Nota: 7,5

A Menina que Roubava Livros