Go ahead, punk. Make my day.

Crítica: Trapaça

american hustle posterTrapaça (American Hustle, EUA, 2013) é um filme de atores, com elenco afiadíssimo. Mas trata-se de um filme de roteiro também, com seu texto de bons diálogos, boas situações e tensões em diferentes campos. Da mesma forma que essa é uma produção de diretor arrojado, que sabe o que está fazendo. Trapaça, então, é um belo espécime cinematográfico, certo? Se é!

O longa-metragem trata da dupla de trapaceiros vivida por Christian Bale e Amy Adams que têm um golpe perfeito: tira dinheiro de desesperados de maneira tão escusa (e aparentemente simples), que nem a pessoa lesada poderá reclamá-lo às autoridades depois. Só que os donos do jogo caem numa armação do FBI e passam a servi-lo em troca de se manterem longe da prisão. Eles agora são ajudantes de Bradley Cooper, agente afobado do bureau, e vão entrar em um esquema para fisgar peixes corruptos cada vez maiores da política. A começar pelo político vivido com entusiasmo por Jeremy Renner. Tudo poderá correr relativamente bem, se a amalucada Jennifer Lawrence deixar. Ela é esposa de Bale, o qual, é de se imaginar, tem um caso com Amy – e o círculo se fecha.

É o roteiro de Eric Warren Singer e do diretor David O. Russell que garante o interesse pela trama, ao saber explorar os diferentes níveis de golpes que monta durante a trama. Chega certo momento que você não sabe até onde aquilo vai e as trapaças se tornam cada vez maiores. Isso é mais a tensão sexual que envolve todos os principais personagens, que também não têm controle algum de quem pega quem. O filme é tão cheio de peças a serem pregadas que para você descobrir como se dá o triângulo amoroso entre Amy, Bale e J-Law há uma certa demora e até uma inversão de expectativa quando o ator sai da cama da primeira enquanto ela dorme para encontrar a verdadeira esposa.

Mas como já dito, o elenco é o destaque. Difícil encontrar tanta gente boa trabalhando tão bem em alto grau de exigência. Bale tem uma caracterização bizarra, com barrigão e careca bisonha, o que poderia ser muleta, mas é como a personagem de Adams diz: ele tem presença – da mesma forma que sabe quando as coisas estão saindo do controle, ele demonstra a sensação sem que o personagem perca a postura. Sua parceira principal é a golpista ideal: linda, carismática e sem medo de inventar papéis – e Amy mostra o motivo de ser uma das melhores (talvez a melhor) atriz dessa geração: sai do cinismo ao mais completo drama compondo uma pessoa de verdade e única. Enquanto Lawrence tenta fazer uma personagem real, já que o roteiro dá poucas razões de existir. Basicamente ela está ali como catalisadora de conflitos sexuais e criminais – e olha que o jeito falastrão e exagerado da moça é perfeito para marcar sua passagem. Renner é o boa-praça e Cooper cria um agente inteligente e ambicioso, o qual tem a ansiedade como grande inimigo. Mais um personagem de maneirismo exagerados, mas que ganha uma cena antológica no momento em que pega os golpistas no início de tudo – também trabalhando com sentimentos conflitantes sem perder a postura quando se revela do FBI.

american-hustle bale

O melhor de O. Russell, no entanto, não está em seus exibicionismos e movimentação no quadro ou em com sua câmera que lembra bons momentos de Martin Scorsese. É ele quem dá liga a tanta gente conectada na trama e que estão em uníssono na qualidade das atuações. Não é à toa que ele atraiu tanta gente boa, inclusive, Robert De Niro, uma das escolhas mais acertadas de todo o filme. Ele tem apenas uma participação, só que uma ponta importante para a narrativa. O objetivo dele estar ali é estabelecer um limite do perigo, ou seja, as coisas estão indo longe demais. Mas como fazer isso rapidamente? Basta ser conhecedor o bastante de Cinema e lembrar que a persona de De Niro é o mafioso truculento e perigoso de Os Bons Companheiros e o Dom Corleone jovem de O Poderoso Chefão 2. Pronto, isso e mais uns míseros segundos dele com uma arma matando alguém e você também o temeria.

Só que Trapaça também é um filme estiloso demais. Se passa naquela década de 70 over, em que um decote deve ser quase topless. Aquele 70’s em que os ternos sejam de cores berrantes e lapelas gigantes. Da mesma maneira que os cabelos, exceto o de Bale, tenham penteados extravagantes. O que combina bem com a trilha sonora montada com Tom Jones, Donna Summer e The Temptations. Características que, por si, valem o ingresso.

E se essa é uma produção de atores, direção, roteiro e visual bacanas, há muito pouco que o desabone. Se ele se faz por meio de trapaças, é honesto pacas ao oferecer seu melhor um programa altamente satisfatório.

Nota: 8,5

american hustle

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s