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Crítica: 12 Anos de Escravidão

12 anos de escravidão posterSteve McQueen nunca foi de filmar de maneira naturalista, muito pelo contrário, cada plano dele é pensado e a câmera se movimenta da forma que ele determina, sem muito espaço para improvisos. Por vezes ele é hermético, o que não deixou filmes como Hunger ou Shame menos humanistas. O interessante é que com 12 Anos de Escravidão (12 Years a Slave, EUA/Reino Unido, 2013) ele conseguiu seu filme mais palatável, ainda que um pouco abaixo em relação a seus antecessores. O que não denigre, de forma alguma, a qualidade da produção.

O grande trunfo da produção é manter a mão firme de McQueen e o quanto ele consegue tocar o público pontualmente e criar, por meio desses poucos momentos, uma aura muito bonita para o filme. A história em si, baseada em fatos, ajuda. Ela acompanha o caso intrigante de Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor), que, enganado, acaba vendido ilegalmente como escravo ainda que fosse um homem livre, com mulher e filhos, nos Estados Unidos do século XIX. Um pesadelo, que como o título deixa claro, dura mais de uma década.

E é terrível comprovar logo no início do filme o tipo de tristeza que Solomon passa em um paralelo feito entre a imagem da troca de olhares sem qualquer significado entre o protagonista e outra escrava e o plano em que ele relembra da esposa, deitados na cama do casal. A diferença da fotografia fria e escura da senzala e da cor quente do flashback em um mesmo tipo de enquadramento só acentua o momento.

É uma passagem terna, mas sem arroubos de emoção. O filme vive de pequenos cutucões de grande repercussão se assimilados pelo espectador. Evita a pieguice e ainda sim não deixa de ser um libelo humanitário. Atente-se, por exemplo, ao momento em que Solomon recebe o violino do mestre vivido por Benedict Cumberbatch. “Espero que isso traga mais alegria nos próximos anos”, diz o proprietário do escravo. Frase cortante que não deixa o homem esquecer a situação absurda pela qual passa. O olhar de Ejiofor ao receber o instrumento é tristemente minimalista.

12 anos de escravidão

De ritmo bem cadenciado, 12 Anos guarda duas cenas-chave para explorar para valer a emoção do espectador. A primeira está na agonia de um castigo dado a Northup, quando é suspenso pelo pescoço e deixado por horas apenas com as pontas dos pés no chão para evitar seu enforcamento. O fato da direção e da montagem segurarem o momento por muito tempo e de Ejiofor pisar de maneira desesperada na lama para sobreviver desperta raiva e revolta por tamanha humilhação a um ser humano. Ver outras pessoas, negras e brancas, passarem por ele com indiferença é pura crueldade.

O outro momento é um plano de 5 minutos sem cortes no qual uma escrava é açoitada quase até a morte depois de conseguir um sabonete para que pudesse tomar banho. Em uma combinação de indignação e pena do lado de cá da tela e de culpa, desejo, raiva e superioridade idiota por parte do mestre vivido por Michael Fassbender, McQueen poderá ter sua carreira lembrada por essa cena.

Se há defeitos aqui eles estão em no fato de seu ápice ficar perto de uma resolução meio anticlimática que envolve um Brad Pitt de discurso avançado para aquela época e o final meio choroso para um filme tão centrado. Fora que é difícil sentir os 12 anos pelos quais Solomon passa como escravo. Uma passagem de tempo mais evidenciada poderia fazer mais pelo trabalho de McQueen.

Nota: 8,5

12 anos de escravidão

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