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Crítica: Noé

Noah-PosterVindo de um trabalho absolutamente impecável e complexo chamado Cisne Negro, o cineasta Darren Aronofsky resolveu dar sua visão para a história bíblica de Noé (Noah, EUA, 2014). Um filme que não tem um terço da profundidade do filme anterior do diretor, mas que nem por isso pode ser desconsiderado. Há a marca visual de Aronofsky e algumas camadas a serem descobertas. Só que no fim das contas, o épico não passa de um filmão comercial com alguma concessão artística.

O filme começa rápido em um prólogo que conta que Noé é descendente de Set, irmão de Caim, que matou Abel. Isso, de acordo com o roteiro de Aronofsky ao lado de Ari Handel, o faz diferente do restante dos homens, que descendem de Caim e têm como certeza que o mundo é seu por direito e devem desfrutar dele. É rasteiro, mas eficiente e a retidão de Noé é estabelecida rapidamente para que se entenda o tipo de sacrifício que ele vai se propor (e também à família) para atender o pedido do Criador – a palavra Deus nunca é citada. Ele, então, passa a construir a famigerada arca com a ajuda de seu avo, Matusalém, para interpretar seus sonhos.

Sonhos esses que mostram a boa mão do diretor para a questão visual. São cenas bizarras, mas lindas, que ilustram os recados divinos. Há flores que nascem e crescem de uma gota de chuva, uma montanha verde em contraste com o ambiente opressor entre o sombrio e o desértico, corpos embaixo d’água e corpos em chamas que caem do céu. Ainda que existam essas, as que ilustram a Criação Divina por meio de conceitos darwinistas de Evolução são as mais inteligentes, bonitas e sensatas do filme.

Mas há inovações também – o que não quer dizer que sejam aceitas de peito aberto pelo público. Não deixa de ser surpreendente o filme utilizar anjos caídos transformados em seres de pedra como um tipo de criatura comum pelas bandas de cá. Mas ainda que os personagens pareçam uma aberração do enredo, eles são soluções do roteiro para a cena em que uma horda tenta tomar a arca ou como apenas uma família poderia ter construído tal nave sem ajuda. Da mesma forma que Matusalém ser um feiticeiro boa praça/misterioso pareça um tanto estranho. Só que em uma história que se passa em um tempo completamente diferente do atual e que ainda tem todo o misticismo religioso por trás merece ser vista de maneira diferente.

O caso é que Noé investe em visual mas tem um protagonista que merece a ponta do elenco. Russell Crowe capricha na cara de sofredor/pilar da família e conquista a simpatia até o início do terceiro ato do filme, quando a arca é fechada e o clã passa a lavar a roupa suja. Primeiro que protagonista se torna um tipo de Jack Torrance a certa altura, quando passa interpretar por si ordens de Deus. Segundo que esse é o momento em que a bela Jennifer Connelly mostra serviço em um papel que não lhe dá muitas opções em cena. Há uma passagem em especial, tristemente raivosa, em que ela questiona a vontade divina/Noé e diz que o marido se tornará um solitário odiado por quem o amou. Jennifer capricha (também) no choro e você se sente emocionado junto dela. A atuação é tão boa que chega a eclipsar a choradeira de Emma Watson durante aqueles minutos.

Prejudicado pelo 3D que não traz nada à produção e por excesso de efeitos visuais (os quais criam câmeras virtuais que giram demais e se movimentam largamente para quase nada), Noé está mais para Titanic do que para Fonte da Vida no tocante à ambição artística, mas ainda sim consegue bons resultados e termina como um filme grandioso, de certa tensão e plasticamente bonito. Além de conseguir cativar um público que procura uma visão diferente daquela que está no Velho Testamento da Bíblia e, assim, conseguir alguma originalidade.

Nota: 7,5

noah-2014

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