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Crítica

Crítica: Planeta dos Macacos – O Confronto

dawn_of_the_planet_of_the_apes_posterFilmes sobre conflitos normalmente buscam levar o espectador a tomar partido de algum dos lados. Há o bandido e o herói. O mais interessante em Planeta dos Macacos – O Confronto (Dawn of the Planet of the Apes, EUA, 2014) é justamente dar um pouco mais de profundidade a esse tipo de dicotomia. A tensão gerada na primeira hora do longa somada ao fato de que vilões e mocinhos existam em ambos os lados da guerra humanos versus símios faz do filme um grande salto em termos de qualidade se comparado a seu antecessor.

Há equilíbrio nos elementos do roteiro de Mark Bomback, Rick Jaff e Amanda Silver. Assim como essa ponderação gera rimas na trama. O filme começa com belas cenas de diálogos falados quase inexistentes nas quais pode-se observar o desenvolvimento da sociedade liderada por César (Andy Serkis), o símio que desencadeou a revolta dos primatas. Eles querem viver na floresta sem a intervenção humana. Por outro lado, homens e mulheres sobrevivem à epidemia do vírus criado em laboratório visto em Planeta dos Macacos – A Origem. Passados alguns anos desde os eventos do longa anterior, os sobreviventes da doença nem sabem da existência de uma sociedade de macacos inteligentes. Os interesses de ambos vão se esbarrar quando os homens andam pela floresta para reativarem uma usina hidrelétrica, o último recurso de energia em São Francisco.

Há uma tensão muito grande entre os grupos e o que é mais bacana é que há preconceitos e respeito de ambas as partes. Existem humanos que culpam os macacos pela morte em larga escala de pessoas, da mesma forma que existem símios que veem todos os humanos como carrascos ambiciosos. No meio disso tudo, há a ponderação de César e de Malcolm (Jason Clarke). Eles são os responsáveis pela diplomacia que falta a boa parte dos companheiros de seus respectivos grupos. Mas o filme se chama O Confronto, o quer dizer que a convivência pacífica logo será quebrada – e isso toma proporção exatamente pela boa construção da paz temporária e tênue vista antes da guerra eclodir.

Dawn of the Planet of the Apes

As rimas surgem em momentos como aquele em que um macaco ataca humanos com uma arma e, mais à frente, um humano aponta um dos fuzis para seus companheiros no intuito de dar tempo a uma possível resolução do tal conflito. Ou no melancólico momento em que o filho de César fica horrorizado com a guerra, o qual faz menção indireta à fala de Malcolm sobre seu filho e como ele viu coisas cruéis demais para sua idade.

Por outro lado é bom perceber que em termos visuais essa continuação também supera o trabalho anterior. Seja nas figuras dos macacos, em especial o trabalho de Serkis e dos efeitos que dão textura ao líder a dos demais primatas, seja na fotografia acinzentada da floresta – o que dá o contraste de tons ideal ao fogo do ataque à base humana. A cidade de São Francisco tomada por plantas e com construções em ruínas é outro detalhe importante para reforçar a briga entre humanidade e natureza por espaço – um reflexo da luta entre as espécies.

Prejudicado por ter no confronto armado seu verdadeiro clímax muitos minutos antes do término do longa, o que quebra bastante o ritmo da narrativa, esse novo Planeta dos Macacos pode até escorregar ainda em detalhes como colocar uma família confraternizando na varanda de uma casa em meio ao ataque símio. De qualquer forma tem um diretor (Matt Reeves, de Cloverfield) que sabe aproveitar bem seus personagens e tem senso estético – repare na câmera acoplada ao canhão de um tanque e na razoavelmente longa tomada em que é usada. Além disso, consegue abrir e fechar arcos dramáticos principais e deixar algumas pontas soltas para uma inevitável continuação.

Nota: 8

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Crítica: Guardiões da Galáxia

Guardians of the Galaxy posterÉ para não haver dúvida: Guardiões da Galáxia (Guardians of the Galaxy, RUA, 2014) é o melhor filme que a Marvel Studios produziu – talvez o primeiro Homem de Ferro esteja lado a lado dessa produção. Primeiro: em matéria de grupo, a interação desse é mais bacana do que dos próprios Vingadores. Segundo: aqui estão as melhores piadas de todos o longas da gigante dos quadrinhos. Terceiro: aqui ou ali você pode até se emocionar. E por último: esse é o filme mais arejado do universo Marvel, seja nas piadas adultas, seja por não se levar a sério.

A história de juntar gente, ou melhor, heróis que não se bicam já foi vista em Os Vingadores, em 2012. Só que aqui há menos heroísmo e mais malandragem ao formar um grupo com caçadores de recompensa, ladrões e assassinos que não estão ligando muito para o futuro do universo. Essa falta do peso da responsabilidade faz com que o arco que vai transformá-los em companheiros de guerra seja muito mais divertido.

E aí entram as boas escolhas de elenco. Chris Pratt como Peter Quill cria uma mistura de fanfarrão, herói clássico e menino chorão. Enquanto isso, Zoe Saldana dá certa seriedade à alienígena Gamora sem pesar demais. As voz de Bradley Cooper para o guaxinim Rocket é certeira para um animal criminoso e esperto, enquanto Vin Diesel como Groot mostra certa habilidade de flexionar três palavras por todo o filme – o trabalho dele na dublagem de O Gigante de Ferro, com certeza, foi referência. Dave Bautista, um brutamontes vivendo um brutamontes, se beneficia da obviedade de seu personagem – mas com bom timing cômico. Por outro lado Glenn Close parece ter sido escolhida apenas para viver uma chefe de estado com reconhecimento rápido da plateia, já que a atriz é completamente desperdiçada. Assim com o talento de Djimon Hounsou. Quase acontece o mesmo com John C. Reilly, que se salva com algumas piadinhas lá e cá.

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Por falar em gracinhas, enquanto o roteiro de Nicole Perlman e James Gunn (também diretor) cria uma trama entre o original (apresentando e interagindo os personagens) e o que tangencia o universo Marvel (introdução do Orbe, uma joia do infinito), oferece ainda momentos hilários. Com dez minutos de filme você já estará feliz na cadeira com a cena de créditos, que coloca Pratt para dançar enquanto chuta uns monstrinhos e os usa como microfone para cantar “Come and Get Your Love”, do Redbone. Nada que se compare com o galanteador de segunda que Quill ao se orgulhar dos exercícios de alcova e soltar a seguinte frase quando Gamora diz que sua nave é imunda: “Ela não tem ideia. Se tivéssemos uma uma luz negra, a nave pareceria uma pintura de Jackson Pollock”. O mais interessante é que o bom humor (adulto ou besteirol) se mantém nas cenas de ação, como na tentativa de captura de Quill em Xandar, ou na quebra de sentimentalismo/solenidade, a exemplo do pós-salvamento de Gamora no espaço e quando Quill deixa o Orbe cair ao entregá-lo ao Colecionador.

O papel da trilha sonora nesse sentido também é importante usando clássicos pop/bregas/rockers/descolados de décadas atrás, como “The Pina Colada Song”, do Rupert Holmes, “Cherry Bomb”, do Runaways, ou “Ain’t No Mountain High Enough”, de Marvin Gaye and Tammi Terrell. Na cena de abertura, por exemplo, ela faz graça com “I’m No in Love”, do 10cc, mas logo em seguida subverte a expectativa ao criar uma cena realmente emocionante para introduzir um importante elemento da trama: os dramas familiares. Fique atento ainda para o momento embalado por “I Want You Back”, do Jackson 5 – ótimo.

Mas se o roteiro é divertido, sofre um pouco por não ter um vilão que realmente ameace os heróis – eles passam mais tempo tentando acertar os ponteiros entre si e entre os vários personagens em cena do que amedrontados pelo malvadão Ronan. O próprio ainda demora convenientemente a tomar providências contra uma frota que bloqueia o avanço de sua nave, o que torna as coisas um tanto artificiais no final. Sorte do público que os momentos seguintes ficam entre o humor nonsense (com uma dança), a emoção (com um sacrifício) e o heroísmo (inevitável, né?). Isso sem contar as belas maquiagens e direção de arte do longa.

Nota:8,5

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Crítica: Frankenstein – Entre Anjos e Demônios

Frankenstein - Entre Anjos e DemôniosEu não sei de quem foi a ideia, mas atribuir superforça ao personagem-título desse filme de ação de visual gótico talvez tenha sido a escolha mais nonsense de Frankenstein – Entre Anjos e Demônios (I, Frankenstein, Austrália/EUA, 2014). Ou talvez a pior ideia tenha sido o título nacional. Enfim. O caso é que praticamente nada funciona nessa produção do mesmo time que produziu Underworld – Anjos da Noite. O filme insere a criatura saída da cabeça da escritora Mery Shelley em um embate entre com demônios e gárgulas. Guerra essa que é tratada como secreta, mas em alguns embates só o roteirista e diretor Stuart Beattie consegue entender como algo daquela proporção poderia ser secreta – inclusive com ataques ao luar com dezenas de envolvidos.

Com visual idêntico ao da série Anjos da Noite, Frankenstein tem protagonistas e antagonistas perigosamente parecidos com os filmes sobre a guerra entre vampiros e lobisomens e, pensando bem, até a pendenga entre gárgulas e capetas tangencia o Underworld. Ah! E ainda tem uma cientista que duvida da própria ciência – cética até o limite.

Releitura infantil de um personagem de grande apelo dramático e com desperdício completo de um ator que depois de fazer o Duas Caras em Batman – O Cavaleiro das Trevas poderia ter entrado em projetos de maior relevância: Aaron Eckhart. Ainda que seja bonito ver muitas imagens sombrias, o filme falha até como projeto de ação, com sequências burocráticas e efeitos visuais de segunda escondidos por toda essa escuridão.

Nota: 4

Frankenstein - Entre Anjos e Demônios


Crítica: A Vida Secreta de Walter Mitty

Walter MittyBen Stiller dirigiu cinco filmes, fora as produções de TV e curtas. Mas ainda que ele esteja por trás de pelo menos outro filme de grande qualidade, Trovão Tropical, é bem provável que ele tenha conseguido com A Vida Secreta de Walter Mitty (The Secret Life of Walter Mitty, EUA, 2013) algo próximo de um limite criativo. Ele conta a história do personagem-título (Stiller), que tem vida morna e trabalha para uma grande revista enquanto sonha em largar toda aquela mesmice e simplesmente viver. A oportunidade vem quando ele precisa achar um negativo importante enviado pelo fotógrafo cultuado Sean O’Connell (Sean Penn), mas que se perdeu de alguma forma.

Em um road movie com mensagem clara, “viva!”, Stiller é criativo em suas piadas visuais e naquelas que dependem apenas do seu jeito abobado. O protagonista aos poucos substitui sua imaginação poderosa por aventuras de verdade e ambos os momentos são ótimos, seja numa perseguição irreal e com ação absurda pelas ruas da cidade, seja no momento em que o gigante avião no qual viaja pousa em um aeroporto menor que a aeronave.

Momento responsável pela melhor utilização das músicas incidentais do filme. Antes de finalizar no tal terminal, a sequência começa com um lindo travelling que acompanha a corrida de Walter com capas da revista com personagens históricos de fundo até ele mesmo se tornar um entre John Kennedy e John Lennon. Pronto, os sonhos se tornam realidade ao som da belíssima e sugestiva “Wake Up”, do Arcade Fire. Isso sem contar na importância de “A Space Oddity”, de David Bowie, em toda a narrativa – no filme, ela é chamada de “Major Tom”.

Terminando ainda com a participação de Penn, que sedimenta a mensagem da produção, A Vida Secreta de Walter Mitty é daqueles filmes que te deixam leve sem apelarem para o sentimentalismo, mas que abusa da criatividade e se torna cativante. Há ainda uma bela fotografia.

Nota: 8,5

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Crítica: Malévola

MalévolaO tempo todo há algo de estranho em Malévola (Maleficent, EUA/Reino Unido, 2014). Começa pelo nome da protagonista que, de início, é boazinha e ainda assim tem a alcunha de malévola. Não dava para mudar? Enfim. A estranheza passa também pela falta de ritmo do longa e, no fim de tudo, na falta de graça do programa inteiro. Que é lindo visualmente, convenhamos, mas é beleza demais para uma história que brilha tanto quanto uma velinha acesa a céu aberto às 13h.

O filme é mais uma das revisões de contos de fadas que a Disney vem fazendo, como aconteceu com Enrolados, Alice no País das Maravilhas e com Encantada. Dessa vez é a vilã de A Bela Adormecida que ganha sua versão do conto clássico. Focado na vida da fada desde sua infância, descobrimos que tanta maldade vem de uma grande decepção da juventude e se trata, no fim das contas, de uma desforra. Novidades que abarcam, inclusive, a relação entre Malévola e a princesa Aurora.

Tudo contato com muito esmero em ambientes, caracterização e fotografia. Desde o reino de Moors e suas múltiplas cores ao reino humano, um tanto mais obscuro. Repare como a fotografia muda da luz à penumbra após a batalha pelo reino das criaturas mágicas. Perceba também a criatividade no visual das criaturas e, obviamente, como Angelina Jolie ganha os traços da personagem da animação de 1959 por meio de maquiagem e efeitos visuais.

É de ressaltar que o som do filme é poderoso e bem montado. Pena que as qualidades plenas do projeto parem aí. Nem a esperada boa interpretação de Angelina consegue atingir o patamar de qualquer expectativa. Perceba que há sim um show da atriz, mas em um único momento, no qual, já com a famosa roupa preta, ela lança sob a pequena Aurora a maldição do sono eterno. Instante em que Jolie esbanja ironia e maldade. O que vem antes e o que se passa depois é um misto de tristeza que não dá pena e vilania disfarçada de dor de cotovelo. E tome olhares com pálpebras semi-abertas.

Enquanto o roteiro de Linda Woolverton inclui dezenas de narrações em off explicativas, a trama, que segue o crescimento da princesa, começa a disparar piadinhas sem um pingo de graça entre a jovem, a protagonista e as três fadas que se responsabilizam pela criação da garota. É quando o ritmo cai na mais profunda chatice, já que não faz rir e se mostra como obrigação para que a certa altura você entenda melhor a proximidade da vilã em relação a Aurora.

Por falar na princesa, chega a cortar o coração ver uma atuação tão bonita quanto a de Elle Fanning (sorrisos e mais sorrisos iluminados) ser consumida por um personagem que não diz a que veio. Ponto para Sam Riley que tira da cartola o carisma necessário para o corvo Diaval. Imelda Staunton, na pele de uma das fadas, e Sharlto Copley, como Stefan, são mais desperdícos de talento.

Contando com uma pequena reviravolta no terceiro terço, Malévola a essa altura já cansou e entediou tanto a plateia que não há muito o que fazer. Terminada a projeção, melhor voltar ao clássico.

Nota: 5,5

Maleficent


Crítica: Transcendence – A Revolução

transcendence-posterAssistir a Transcendence – A Revolução (Transcendence, Reino Unido/EUA/China, 2014) é uma experiência um tanto frustrante e um tanto surpreendente (negativa e positivamente). De início curioso e desfecho interessante, a produção tem um desenvolvimento altamente tortuoso. Motivo pelo qual chama atenção ter conseguido atrair um elenco de tamanho peso.

Iniciado com ritmo lento, mas nunca pedante, Transcendence mostra como o desenvolvimento tecnológico está próximo de atingir uma Inteligência Artificial superior, não só autoconsciente, mas que pode se desenvolver como nada visto anteriormente. Um atentado terrorista de uma organização que abomina esse tipo de avanço, porém, leva à morte dos melhores pesquisadores que desenvolvem daquelas tecnologias, inclusive a do personagem de Johnny Depp, Will Caster. A solução é simplesmente tentar transferir a consciência dele para um computador, o que pode ou não ser um bom negócio.

Apesar das inúmeras possibilidades apresentadas pelo longa, elas nunca encontram uma explicação à altura, seja ela verossímil ou não. Os porquês não existem, simplesmente. Veja o caso do uso intensivo da nanotecnologia. Ainda que o horizonte do artifício seja bem largo, é meio ingênuo representar as nanopartículas como uma nuvem que pode tudo, desde regenerar tecidos, como reconstruir painéis e até mesmo se transformar em meio de controle remoto de seres humanos (que ainda ganham superforça). E o que dizer da jogada de inserir um vírus de computador em um sistema como o PINN/Caster por meio de tecido sanguíneo? Tentar pelo menos explicar como um programa como o vírus será convertido em hemácias (ou algo do tipo) e depois reconvertido em dados, ninguém quer. Não vou nem comentar o monitoramento até de hormônios sem, aparentemente, haver qualquer dispositivo no corpo da pessoa em questão. Aceite, o filme diz.

Transcendence  Depp

É interessante ver tantas inconsistências em um filme que chega a citar a frase que diz que “o importante não é o destino, mas sim a jornada”, tida por muitos como a explicação da essência de 2001 – Uma Odisséia no Espaço, uma das ficções-científicas mais importantes do Cinema. Outra tangência com o filme de Stanley Kubrick é o fato da versão digital de Depp ter entonação mansa e sem sentimentos da mesma forma que HAL 9000, a inteligência artificial do filme de 1968.

E aí temos outro problema em Transcendence: a falta de atuações convincentes de gente do calibre de Morgan Freeman, Paul Bettany, Cillian Murphy e Rebecca Hall. O que só reflete a falta de profundidade dos personagens, que parecem apenas seguir o fluxo da história e atenderem ao interesse da mesma. Veja como Rebbeca, ainda que “cega” pela “volta” de seu marido, passa a refletir justamente quando um contra-atraque começa a ser arquitetado.

O que é uma pena, pois se o texto de Jack Paglen sabe fazer alguma coisa é trabalhar a trama e esconder intenções para brincar com quem é vilão ou mocinho até o final. Desfecho que não deixa de ser curioso ao criar um tipo de alerta sobre o desenvolvimento humano sobre o planeta sem alarde “ecochato” e ainda derrubar expectativas.

Nota: 6

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Crítica: A Culpa é das Estrelas

A Culpa é das Estrelas posterNão há motivo para condenar um filme por ele ser romântico ou ingenuamente bonito. Características presentes fortemente no grande romance da vez, A Culpa é das Estrelas (The Fault in Our Stars, EUA, 2014). Inspirador para românticos, bom programa para casais e um filme bacaninha para quem busca apenas aquecer o coração, ele sofre pela falta de ambição e por alguns clichês, mas sobra em carisma e proximidade.

O filme é basicamente a aproximação, cortejo e conquista entre os jovens Hazel e Gus, os bons Shailene Woodley e Ansel Elgort. Mas como é de praxe existir aquele elemento de conflito, aqui a história trata de algo um tanto sinistro: ambos passam por um tratamento de câncer, o que dá ao amor deles um toque de emergência e insegurança. Dela principalmente, que se define muito bem como uma granada que pode explodir a qualquer momento. O fato de Hazel carregar um balão de oxigênio o tempo inteiro dá uma boa ideia do quanto o câncer da moça é avançado e o que ela diz não deixa de ser uma verdade.

O que não importa ao apaixonado Gus, que desde o primeiro momento não tira o olho dela, literalmente – a cena de apresentação entre os personagens é pura doçura. Mas aí também começam os tropeços de A Culpa é das Estrelas. Primeiro que não há nesse mundo uma pessoa tão bem humorada e legal quanto Gus. Quer um exemplo? Para quem diz que quer deixar uma marca no mundo, entregar troféus de conquistas a um amigo para que este destrua em nome de sua raiva contida é um tanto contraditório. Mais: quando eles falam de virgindade, o rapaz inventa uma história de círculo dos virgens que é divertidamente irreal (e bestinha), afinal, não custa responder a uma pergunta sem ser a pessoa mais criativa desse mundo, basta ser natural e dizer algumas palavras. Fora que a história de manter um cigarro na boca como forma de “rir na cara do perigo” seria apenas ingênua se não fosse idiota – mesmo sem fumar ele compra maços e financia a tal indústria do tabaco que a própria Hazel questiona, mas depois esquece.

São problemas que, aos poucos, porém, se dissolvem em meio à dinâmica e a química entre os atores. Se de um lado Elgort tira leite de pedra com um personagem que beira a caricatura, a bonitinha Shailene volta a mostrar serviço depois de Os Descendentes, ao criar uma Hazel um tanto mimada, outro tanto sonhadora mesmo quando a doença não lhe dá trégua e bastante humana em seu medo de se apaixonar. O roteiro de Scott Neustadter e Michael H. Weber, baseado no livro de John Green, consegue captar uma ou outra intimidade do casal até que você se ache o melhor amigo dos dois – perceba como eles transformam um “O.K.” em motivo de choro.

Ainda que o texto seja repleto de falas em off, muitas completamente desnecessárias, o diretor Josh Boone consegue falar com recursos de imagem, como no momento em que mostra os personagens mais do que despidos, mas na naturalidade de Gus em deixar sua perna amputada à mostra depois de um momento especial para o casal. O filme vai além: perceba a sutileza do vestido da moça combinar com a cor da camisa dele no jantar, o que representa bem a proximidade e o amor inevitável dos jovens. Só não são compreensíveis as palmas vindas de desconhecidos no primeiro beijo dos dois – sem sentido e cafona. De qualquer forma é bem representativo que a mãe de Hazel, vivida por Laura Dern, deixe um banho para atender ao chamado da filha e passe toda a dedicação dela em uma única cena.

Choroso e previsível, o desfecho do filme, no entanto, não deixa de ser emocionante e não irrita, pois, além de garantir um tipo de “happy end”, deixa o sofrimento suspenso no ar e não poupa minutos de demonstrações de amor (não doce demais) e tristeza até lá.

Nota: 7,5

P.S. Que seja desculpada minha ignorância, mas o que são os malditos Gênios?!?

A Fault In Our Stars