Go ahead, punk. Make my day.

Ensaio

Robin Williams morreu

Robin Williams

Pensei muito antes de escrever esse texto, uma vez que a morte de Robin Williams foi algo que me afetou mais do que poderia imaginar. Mas uma coisa não me saía da cabeça. Explico.

Essa existência é mesmo irônica. E triste. Não basta perdermos um dos maiores talentos do Cinema de todos os tempos, é preciso que ela repita algo triste que um dos maiores trabalhos desse Ator (sim, com letra maiúscula) havia mostrado: o suicídio.

Sociedade dos Poetas Mortos é um daqueles filmes inesquecíveis que marcam uma geração com seus questionamentos e reflexões sobre padrões de uma época. É o que faz o professor John Keating, vivido por Williams, que incentiva seus alunos a serem mais do que a escola e o final da década de 1950 exigem deles como seres humanos. Se por um lado aquilo se torna uma janela mais ampla para os olhos dos alunos, há a pressão social contra eles. O suicídio de um desses jovens mostra o peso sobre eles.

Pois Robin Williams, encontrado morto nessa segunda-feira, aparentemente sucumbiu ao peso de sua depressão. Ele teria se enforcado aos 63 anos. Não o julgo, não acho justo que se faça isso. Mas, obviamente, preferia que o talento do artista estivesse conosco. As lições de Sociedade dos Poetas Mortos podem não ter servido para o veterano ator, mas gostaria que ele pudesse aproveitar mais o dia, pois assim nós mesmos seríamos premiados como plateia. A vontade é subir em uma carteira velha e gritar “Ó capitão, meu capitão!” e evitar que Williams saia pela porta, expulso da vida como seu personagem de outrora. Não dá mais. Ele quis de outra forma.

O gênio de Aladdin está livre, como a Academia o homenageou. Da mesma maneira que Peter Pan voou para encontrar os garotos perdidos. Da mesma maneira que Alan Parrish voltou para sua casa ao fim da partida de Jumanji. Mas até que isso acontecesse, Robin foi um dos Sean Maguire que mostraram um bom caminho por entre o tortuoso mundo do Cinema, exatamente como fez a Will Hunting. Aliás, ele sim era um Gênio Indomável, mas que sempre teve um pé no mundo real, ainda que colorido. Do mesmo jeito que Mrs. Doubtfire acaba descobrindo que é apenas uma babá-personagem em um mundo onde as separações são inevitáveis.

É nessa hora que queríamos que Robin Williams fosse bicentenário e sua história não fosse de fim triste como a existência dos poucos anti-heróis vividos por ele. Pena que a solidão experimentada por Robin tenha sido tão grande quanto a Seymour Parish.

Gênio - Aladdin


A cena da boate de Cisne Negro

Um dos melhores filmes dos anos 2000, Cisne Negro é um filme complexo e que foi chamado de “terror para quem não gosta de filmes de terror”. O arco dramático da protagonista vivida por Natalie Portman é doloroso, belo e aterrador. Ela deixa para trás a inocência para aflorar seu lado escuro e se transformar no tal cisne negro.

Há um momento muito claro que aponta essa transformação. Ele começa na boate e termina em sexo. Por ser tão bem feito, o longa abusa da montagem e de mensagens subliminares nesse instante, que só mesmo por meio de um estudo detalhado, quadro a quadro, é que podemos perceber a genialidade da produção.

Na longa figura abaixo, você consegue perceber o mundo na cabeça de Nina quando o cisne começa a surgir. Eis o terror e deleite.

Cisne Negro


Nostalgia cinematográfica

Quase Famosos - Penny Lane

Você certamente já ouviu dizer que um filme serve como válvula de escape da realidade. Não é para menos, afinal, a arte é assim como um todo. O Cinema dá movimento ao que a Literatura descreve ou ao que a Pintura também pode fazer. O Teatro faz isso, mas de outra forma. No entanto, o que realmente me chamou a atenção, pela terceira vez em dois anos, foi como um filme pode reconectá-lo a determinada época e como certas lembranças ficam enraizadas (ou idealizadas) em sua memória, vindo a ressurgir ao colocarmos os olhos em determinada produção anos depois.

Lembro de uma amiga, ainda no colegial, dizer que precisava ver um filme que lhe fizesse chorar. Ela andava com problemas familiares sérios e como éramos muito ligados naquela época, percebia como essa amiga vinha se sentindo angustiada. Bom, ela encontrou o filme que lhe tirou da realidade e lavou sua alma por alguns instantes pelo menos: À Espera de um Milagre. Um belo filme, realmente. Mas essa é a típica sensação que nos leva ao Cinema: que sejamos tirados de nossos mundos e sejamos apresentados a outros, de maneira física, histórica ou imaginária.

Revi recentemente Quase Famosos, um filme que fala de algo que particularmente gosto muito, o rock. Só que dessa vez, não foi a música que me prendeu, mas a nostalgia, a qual me fazia voltar à primeira vez que o assisti. Não sei bem qual era o ano, sei que que foi após 2002. Havia formado um grupo de amigos muito unidos e estávamos, como de costume, fazendo uma daquelas reuniões de quem não tem muita grana, mas sabe o que quer. Bebíamos na casa de uma outra amiga e depois comíamos o sofrido macarrão feito por mãos e mentes alcoolizadas. Ninguém reclamava e todos se divertiam. Foi uma noite agradável, que terminou com a história de uma banda fictícia e algumas histórias reais do mundo rock.

Mas isso se passou há mais de uma década – e lá ficou. Tenho contato esparso com um ou dois membros daquele grupo e não sei do destino de boa parte deles. Eu tinha entre 18 e 20 anos e ainda procurava um rumo para minha vida profissional, mas achava que aquela história, entre meus amigos, duraria ainda muito tempo. Não foi o caso. Sei que quando a groupie Penny Lane entra em cena, com o rosto iluminado de Kate Hudson, um recorte veio à minha mente daquela e outras noites de sábado do início da década passada entre uma cerveja e outra. A trilha sonora do filme, então, não ajudava a esconder certa tristeza de perceber que nada é para sempre. Era bem o tipo de música que ficava empurrando para o resto da turma: rock setentista com muito Led Zeppelin. E não há como esquecer o sofá macio da casa alheia enquanto os pais da pessoa estão fora da cidade ou simplesmente não ligam para o que se passa na sala entre aquela molecada que não parecia amadurecer.

Não sou de acreditar em coincidências ou em destino, mas chega a ser irônico que poucos dias antes de rever Quase Famosos, também esteve na gaveta do meu blu-ray Conta Comigo. Talvez o filme mais nostálgico e belo que o cinema americano produziu em mais de cem anos. E lá estava eu me lembrando da minha infância e das tardes na casa da minha avó assistindo à Sessão da Tarde. Com menos de 12 anos eu procurava por aventuras como a dos quatro amigos do filme, hoje tento me lembrar dos meus colegas antes da adolescência.

Spirited Away

Foi assim com esses dois longas, foi diferente com A Viagem de Chihiro. Exceto pela saudade, claro. A animação japonesa revi em 2011. O longa de Hayao Miyazaki tem dois componentes que me deixariam emocionado de qualquer forma. O primeiro deles são as inúmeras cenas contemplativas de campos abertos ou inundados depois de uma forte chuva. O segundo é o belíssimo desfecho da trama, quando a protagonista descobre uma relação muito mais próxima com seu amigo Haku. De qualquer maneira, quando, novamente pude assisti-lo, era eu quem estava em uma época conturbada, em que muita coisa tinha mudado na minha vida e eu não sabia muito bem para onde ir. As coisas não iam bem e era minha vez de estar angustiado e me sentir um tanto solitário naquelas paisagens. Mas eu não tive a alma lavada ou entrei em qualquer catarse. Foi só melancolia.

Sim, filmes são válvulas de escape. Mas é difícil não chorar quando eles te levam a momentos tão importantes de sua vida. Maldita realidade. Maldita nostalgia.


Republicação: Roger Ebert (1942-2013)

O artigo a seguir foi uma bela homenagem feita pelo crítico Pablo Villaça por ocasião da morte de Roger Ebert, um dos maiores de todos os tempos, que faleceu nessa quinta-feira (4), por conta de um câncer.

Como li emocionado ao texto, pedi a Villaça para que pudesse republicá-lo aqui. Recebida autorização, espero que vocês também tenham o mesmo sentimento de reverência e amor que conseguir extrair do artigo.

Roger Ebert está morto.

Roger.

Rog, como assinava seus emails particulares e como passei a me dirigir a ele depois de um tempo necessário para me ajustar à realidade de que estava conversando com meu ídolo.

Ah, Rog.

Assim que soube de sua partida, minha mente me levou instantaneamente a uma manhã de abril de 2012 que permanece de forma inequívoca como uma das memórias mais significativas de minha vida. O Ebertfest havia chegado ao fim e eu havia decidido passar alguns dias em Chicago a fim de conhecer a cidade (uma viagem que Roger insistira que eu fizesse, chegando a pagar uma tour de “gângsteres” por acreditar que eu a apreciaria). Sabendo que eu permaneceria em sua cidade, ele e sua esposa Chaz me convidaram para uma cabine de Os Vingadores e, quando esta chegou ao fim, perguntaram se eu queria almoçar em seu hotel (a casa na qual moravam estava passando por reformas). Antes do almoço, nos reunimos na ampla sala do apartamento dos Ebert e conversamos por algumas horas – e Roger, que já não podia falar há alguns anos, se comunicava através do vocalizador de seu MacBook. Finalmente, Chaz perguntou se estávamos prontos para descer ao restaurante e, enquanto ia ao quarto buscar suas coisas, pediu que eu auxiliasse Roger a ir para o escritório, onde ele se sentaria para escrever a crítica do filme que acabáramos de ver (e na qual me citaria).

Ficamos sós, Roger e eu. Ele segurou meu braço e começamos a caminhar lentamente em direção ao escritório. Fragilizado por várias cirurgias e pelo câncer que o devastara anos antes, tomando parte de sua mandíbula, Rog andava com dificuldades e eu podia ouvi-lo respirar pesadamente. Em certo momento, comentei que havia ficado muito feliz de participar do Ebertfest e ele, apertando meu braço para que eu me virasse em sua direção, apontou para si mesmo, dizendo: “Eu também fiquei”.

Continuamos a caminhar. E, de repente, eu me dei conta de algo.

Aquele homem frágil que eu ajudava a percorrer uma breve distância era meu mentor. E eu não só devia a ele minha carreira como também devotava a ele meu amor.

Foi por ler os textos de Ebert (bem como os de Pauline Kael) que descobri que Cinema era mais do que passatempo. Foi através de suas palavras que enxerguei uma dimensão além das duas representadas na tela. Seu trabalho se tornou o meu. Larguei a Medicina, abracei a crítica e jamais olhei para trás. Sabia que devia isso a Roger, mas jamais me ocorreu que poderia lhe dizer isso.

Mas pude. Tornei-me colaborador de seu site. Tornei-me seu correspondente (e tenho uma pasta rotulada “Roger” apenas com os emails que trocamos, mesmo os mais tolos, por me ver incapaz de deletar um só deles). Tornei-me seu amigo. Em 2011, quando lamentei não poder ficar em Chicago após o primeiro Ebertfest ao qual comparecera, ele escreveu:

“Some day we will sit down, the two of us, and have a talk. If we had met before my illness we would never have stopped talking.”

Meses depois, quando encaminhei a ele um texto sobre uma garota morta precocemente que havia inspirado um texto melancólico, ele não apenas o publicou imediatamente como comentou:

 ”I posted your touching essay. I felt as I if I could imagine her smile.”

Este era Roger Ebert: do alto de sua fama como primeiro crítico de cinema a vencer o Pulitzer e um dos profissionais mais conhecidos e bem remunerados do planeta, encontrava tempo para elogiar moleques brasileiros que apenas brincavam com as palavras em comparação com a maestria com que ele as manipulava. A cada texto meu publicado, ele se dava ao trabalho de me enviar telas que mostravam o número de acessos e a repercussão do texto. Por que fazia isso? Porque era um homem único. Quando viu A_Ética e Morte Cega, enviou palavras que para sempre guardarei como as mais importantes de minha carreira:

“Your films are must-watchable. You are a true director. I anticipate reviewing your first feature.”

Ah, Rog. Isto agora não é mais possível, é? Como eu teria me sentido honrado ao ler suas palavras, mesmo que ácidas, sobre este hipotético longa.

Iniciei minhas colaborações com Roger através das críticas, mas logo passei a publicar pequenos ensaios em seu site sobre todo tipo de tema – e meu amigo e mentor, sempre receptivo, jamais recusou alguma, por mais “off-topic” que pudesse soar. Escrevi sobre a maneira com que lidamos com a morte na Internet, sobre o atirador que matou crianças em uma escola no Rio, sobre Marilyn Monroe. Às vezes, comentava apenas um simples (mas, acreditem, importantíssimo para mim) “I like the music of your prose. You allow emotion in.” (em resposta ao meu texto sobre Minha Vida Sem Mim); em outras, se expunha. Ao publicar o texto que escrevi sobre minha angústia ao alcançar a idade que meu pai tinha ao morrer, ele escreveu:

“Thank you my friend.

I have now lived ten years longer than my own father.

Gene Siskel was afraid he would die at the age his father died. And he did.

But our fathers still live, because here we are. And neither one thought he would have a son who was a film critic–although my father lived long enough to see my bylines in the local daily, and that made him very proud.

Now you’ve made me all emotional, you poet.”

Ser chamado de “poeta” por Roger foi como ser um aspirante a dramaturgo e ser elogiado por Shakespeare.

Roger, que agora está morto.

O que me leva de volta àquela manhã no hotel em Chicago.

Subitamente, percebi que ajudava meu ídolo, meu mentor, meu amado, meu amigo a caminhar. Estava frágil. Estava doente. Estava no fim da vida. E por aqueles breves minutos, se apoiava em mim para chegar ao seu escritório e produzir sua mágica, brindar o mundo com suas palavras.

Quando me dei conta disso, lágrimas começaram a escorrer. Virei o rosto para que ele não percebesse e as enxuguei. Em mais alguns minutos, o ajudei a sentar-se em sua poltrona e depositei o notebook em seu colo. Imediatamente, sua expressão se alterou e vi ali um homem completo, forte, único. Um artista. Ele me assoprou um beijo e saí da sala para me encontrar com Chaz.

Hoje sei que aquela seria a última vez que o veria vivo.

Um consolo, porém, é saber que pude comunicar a ele o quanto o amava. Em seu aniversário (o último de sua vida), enviei a ele o seguinte email:

“Rog,

you’re a special man. No, I’m not exagerating; you’ve touched so many lives in so many different countries and cultures that I’m truly speechless when I think about it.

I mean, I’ve been a film critic for 18 years now; I’m not a naïve newbie full of dreams – I KNOW how difficult it is for people in our profession to make people to think about what they’ve just seen; let alone for they to think about who they are and what they want to accomplish in life.

And yet, that’s the effect you have over people, Roger. You not only inspire them, but you push them, you help them, you lead them to be better.

Think about how many people tell you they became in love with movies because of you, who decided to become writers, film critics, journalists because of you.

 In a way, I am who I am because of you – and so you’ve also indirectly touched the lives of my children.

 That’s… amazing, this gift you keep giving us.

 Rog, I like to think I’ve accomplished a lot of things, that I’m a good writer, a good father and a reasonably nice human being.

 Having said that, one of the things that make me prouder is the fact I’ve managed to be able to call you “my friend”.

So, Happy Birthday, my dear, dear friend. And please keep giving us the gift of your words.

I truly love you.

Your friend, pupil and fan, Pablo”

Sua resposta, claro, foi tipicamente ebertiana: humilde, doce e pessoal.

“Pablo,

Your words made me blush.

We are very much the same. I just got a head start. This is a relay race, and you will not drop the baton.

R”

Juro que farei meu melhor para não derrubar o bastão, Rog. Por você. Pelo que representou e representa por mim. Por ter se tornado, de várias maneiras, a segunda figura paterna de alguém que perdeu o pai aos 5 anos de idade.

Amo você, meu amigo. Amo você.

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Extermínio, pai dos zumbis modernos

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Artigo escrito no fim de 2012 para publicação de Uberlândia (mas a publicação não vingou, fazer o quê?)

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Um homem acorda num hospital sem saber o que está acontecendo, pois o local que deveria estar cheio de pessoas está abandonado. Em poucos minutos, ele vai entender melhor a situação quando encontra uma pilha de corpos e é atacado por um morto-vivo. Essa cena pôde ser vista recentemente na série The Walking Dead, em sua primeira temporada, de 2010. Mas oito anos antes, ao som da banda de post-rock Godspeed You! Black Emperor, o apocalipse zumbi foi descoberto da mesma forma pelo ator Cillian Murphy, protagonista do ótimo Extermínio (28 Days Later, no original).

Em 2012, o filme do cineasta Danny Boyle completou 10 anos e como um das séries de maior sucesso do momento mostrou, seu legado foi muito maior do que os baratos US$ 8 milhões investidos na produção poderiam indicar inicialmente.

Extermínio não só foi um sucesso de bilheteria, faturando algo próximo de US$ 83 milhões pelo mundo, foi também o impulso para uma onda de filmes de zumbis em todo o mundo. Para se ter uma ideia, até o mestre criador do subgênero do terror, George Romero, voltou a filmar uma história de mortos-vivos com Terra dos Mortos, de 2005, exatamente 20 anos depois de O Dia dos Mortos.

Mas o longa-metragem de Boyle foi mais longe e criou tendência: os antigos zumbis lentos e decrépitos vistos pela primeira vez em A Noite dos Mortos Vivos, de 1968, se transformaram em verdadeiros atletas velocistas. Nessa mesma linha, seguiram a refilmagem do clássico Madrugada dos Mortos, de 2004, e o ótimo espanhol [REC], de 2007. E Brad Pitt os espera nos próximos como Guerra Mundial Z. Saindo do gênero, ainda temos os seres meio zumbis, meio vampiros de Eu Sou a Lenda, – e você pode até não concordar com o tipo de monstro nesse filme, mas não da influência. Repare ainda que em todas essas produções as atrações principais são seres que parecem ser guiados mais por um tipo de raiva do que apenas pelo instinto primário da fome.

A coisa fez tanto sucesso que, claro, a sátira do estilo não demorou a chegar. Ela veio em grande estilo na comédia Todo Mundo Quase Morto (também muito conhecida pelo título original, Shaun of the Dead). O longa retoma as origens vagarosas “zumbíticas” e faz graça com isso, ao mostrar seus personagens se aproveitando da “burrice” dos mortos-vivos e simplesmente se misturam entre eles andando de forma trôpega. Em 2009, Zumbilândia fez coro satírico, ainda que colocando os zumbis para correr. O que não impediu o protagonista de ter uma solução: é só manter o fôlego em dia e correr ao redor de um carro quando um pequeno grupo o persegue – assista e entenda.

Nada mal para uma produção que começou tímida, nas mãos de um cineasta que não havia feito um terror na vida e caprichou na inovação: Danny Boyle reciclou clichês como os ataques noturnos sob a chuva e criou um desfecho catártico para sua obra. Além de transformar Extermínio em um artigo cultuado, aplicando suas técnicas mais moderninhas, como buscar junto com seu montador cortes cheios de estilo e aplicar uma trilha sonora que dilui sombras em batidas pop.

Ganhou uma continuação cinco anos depois de lançamento – e vem ganhando fãs há uma década.


O Brasil e o Oscar – O Palhaço

Com a Academia já tendo recebido os mais de 70 candidatos ao prêmio de Melhor Filme Estrangeiro, aqui vai meu texto sobre o nosso concorrente.

O Palhaço

No início do ano, ele recusou um convite para fazer parte do elenco de Star Trek 2, mas parece que Selton Mello tem mais uma via até Hollywood. Seu segundo filme como diretor, O Palhaço, foi escolhido como o representante do Brasil à disputa de uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro no mês passado. Um caminho que pode até ser mais digno do que um papel de terceira numa continuação de blockbuster. Mas a História brasileira no Oscar mostra que o caminho verde-amarelo na Academia não é dos mais frutíferos.

Desde 1944, quando Ary Barroso foi o primeiro brasileiro a receber uma indicação – com a música “Rio de Janeiro”, no filme Brazil –, nós corremos atrás desse bendito prêmio. Em tese, nós até temos um Oscar de Filme Estrangeiro por Orfeu Negro, uma co-produção entre Brasil, Itália e França que papou a estatueta em 1960. Mas ainda que tivesse parte do elenco brasileiro, o Rio de Janeiro como cenário, ser baseado na peça de Vinicius de Moraes e fosse falado em português, a Academia concedeu à França a honraria por conta do diretor, Marcel Camus, ter nascido por lá.

Com filmes tipo “raça pura”, nós já chegamos a quatro finais naquela categoria, com O Pagador de Promessas (1963), O Quatrilho (1996), O que é Isso, Companheiro? (1998) e Central do Brasil (1999). Nas quatro vezes vimos o Oscar aportando em outros países. E olha que Fernanda Montenegro ainda concorria como Melhor Atriz com Central. Só que a caseira Academia resolveu premiar a aguada Gwyneth Paltrow, em Shakespeare Apaixonado. Dor de cotovelo à parte.

O Beijo da Mulher-Aranha, dirigido por Hector Babenco, foi indicado a Melhor Filme de 1985 e rendeu ao americano William Hurt o prêmio de Melhor Ator. Mas, no fim das contas, era capitaneado por um argentino. Sim, Babenco nasceu em terras portenhas, ainda que tenha se radicado no Brasil – nem queríamos Oscar mesmo.

Os últimos brasileiros a serem indicados foram os músicos Sérgio Mendes e Carlinhos Brown, autores da concorrente a Melhor Canção “Real in Rio”, tema da animação Rio. Perdeu para seu único concorrente, Os Muppets. Mesmo destino do indicado a Melhor Documentário, Lixo Extraordinário, co-produzido por Brasil e Reino Unido e co-dirigido por Karen Harley e João Jardim. Também tivemos boas chances com o curta Uma História de Futebol, que em 2001 esteve entre os indicados na categoria. Porém, nada veio na bagagem de Los Angeles.

O ápice brasileiro no Oscar veio com as nomeações de Cidade de Deus em quatro categorias, em 2002. Fernando Meirelles disputou como Melhor Diretor, César Charlone estava entre os melhores diretores de fotografia, Daniel Rezende concorreu entre os melhores montadores e Bráulio Mantovani correu atrás do prêmio de melhor roteiro adaptado. Foi um ápice sem Oscar.

Tudo bem, esse texto não foi nada animador quanto as chances de O Palhaço para 2013. Contudo, quando a Academia estiver apresentando os indicados ao prêmio mais famoso da indústria cultural, lembre-se que podemos até não ter nenhuma estatueta dourada daquelas, mas a Palma de Ouro, o Urso de Ouro, o Globo de Ouro, o Bafta e outros já estão em prateleiras brasileiras.

Agora, se Hollywood já premiou até Roberto Benigni, nosso Palhaço dá de 10 no italiano.

*Texto originalmente publicado na Revista Elite Business (ed. 1) – Outubro 2012


Scarlett Johansson faz 28 anos + Encontros e Desencontros

Hoje, Scarlett Johansson completa 28 anos e para homenagear aquela que, pra mim, é a mais bela atriz de todos os tempos, republico um texto sobre o filme Encontros e Desencontros, de 2003. Foi por causa dele que me apaixonei pela loira. Vale ressaltar: ela não é só um belo rosto, ainda que tenha feito algumas besteirinhas (Esqueceram de Mim 3), já foi digna de prêmios em duas ocasiões, pelo menos, como no próprio Encontros e Desencontros e Match Point.

Então, parabéns Scarlett.

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Distanciamento é tema da vida 

Quantos filmes falam sobre a solidão? Centenas, certo? Então vou me ater ao que tenho em minha cabeça nesse momento, Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola. A história da garota separada afetivamente de seu marido e que encontra um velho ator também longe de sua esposa é de arrepiar qualquer um em suas cenas mais sutis. Até mesmo a trilha sonora joga com essa solidão que parece ter encontrado um fim – ou uma pausa pelo menos. Da mesma forma que Charlotte e Bob Harris se tornam base um para o outro, fazendo de sua melancolia uma ligação terna, músicas como “Girls“, do grupo Death in Vegas, usada na abertura do longa, inicia-se em tons obscuros e vai ganhando força, paixão e volume até seu ápice. Aliás, o clímax de Encontros e Desencontros é marcado por “Just Like Honey”, do Jesus and Mary Chain, de maneira desconcertante. Do nada você se pega com lágrimas pelo rosto. Às vezes até sem entender muito bem o motivo.

Coppola lança mão de uma sutileza incrível, criando situações de riso e choro, momentos de pena e raiva. Quando Charlotte lança seu olhar para Bob durante um karaokê, não é necessário que se diga nada, da mesma maneira que em hora alguma escutamos uma declaração de amor daquelas açucaradas ou escandalosas. A câmera se encarrega de desnudar os sentimentos dos personagens. O marido fotógrafo de Charlotte quase não é visto durante a película, o que traz a dimensão da falta que ele faz à garota. Já da esposa de Harris só é conhecida a voz, através das inúmeras ligações que ela faz ao ator, sempre preocupada com coisas rotineiras e rasas. O fato de ainda se ter contato com a imagem de John – o cônjuge – e não de Lídia – a cônjuge – pode ser interpretado como os anos de distanciamento em que Bob vive e um possível futuro para Charlotte.

Ela está sempre só, explorando algum lugar novo. Ele anda acompanhado apenas de sua antiga fama. Quando se juntam, conseguem sorrisos mútuos. E no abraço dado no corredor de uma boate, mais uma vez, em silêncio, parecem gritar por socorro. Não existe nada carnal entre os personagens e quando Bob sucumbe ao desejo por uma cantora de jazz, uma conversa aguda durante o almoço soa como tapas nos rostos de ambos. Traição não é termo a ser usado. Talvez medo. Temem, quem sabe, um fim precoce.

E a câmera que acompanha de forma tão intrusiva o que se passa com aquelas duas pessoas solitárias o filme todo, nos minutos derradeiros simplesmente ignora o que Harris diz ao ouvido de Charlotte. Certos momentos são íntimos demais para serem revelados.

 Scarlett