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Resumo (17 a 24 jun)

Pulp FictionPulp Fiction – Tempo de Violência (Pulp Fiction, 1944). De Quentin Tarantino

Esse continua a ser o melhor filme de Quentin Tarantino por um motivo: ele usa a brecha aberta por Cães de Aluguel e a expande até se tornar uma verdadeira janela para mostrar um dos maiores filmes de gangsteres de rua estilizados e cheios de sacadas espertas que o Cinema já viu. Um roteiro criado quase como Literatura. O realizador não é Scorsese nem Coppola e cria estilo próprio, que é para não rivalizar com os clássicos e ainda sim ter seu lugar ao sol. A visão de Tarantino para os romances policiais sensacionalistas, como ele mesma os denomina no início do longa, traz ainda um artifício bem mais sofisticado que os 10 centavos que estampam a capa do filme: a cronologia fragmentada da trama. O cineasta mirou alto e conseguiu acertar o alvo. As várias histórias juntadas por fiapos conseguem resultados muito mais impactantes que se estivessem colocados na ordem cronológica. E olha que estamos falando de um filme de mais de 2h30min, com violência quase kitsch e no qual há policiais sadomasoquistas, bandidos que se drogam e falam de McDonald’s na Europa, chefões estuprados e uma mulher que cheira heroína. Tudo desenhado sem pressa, com cuidado e muito estilo, afinal de contas, metade de um filme de Tarantino é estilo, depois vem a forma – quase sempre tão boa quanto o item anterior. No caso de Pulp Fiction o equilíbrio é perfeito, pois ao mesmo tempo que temos uma longa tomada na qual Christopher Walken conta a história do valioso relógio de Bruce Willis, somos surpreendidos por uma dança que não é nada além de puro estilo escorrendo por entre os dedos à frente dos olhos de John Travolta ao som de Chuck Berry. O filme, claro, poderia ter uns 15 ou 20 minutos a menos para que fosse um tanto mais linear no ritmo, mas isso serve como incentivo para você aproveitar todas as músicas incidentais que Tarantino agrupa aqui. Do já citado Berry a Al Green, passando por Urge Overkill, essa é uma das trilhas mais comentadas de todos os tempos. Nota: 9

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Cannes – Os selecionados

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A organização do Festival de Cannes divulgou a lista dos filmes em competição de 2013. Como de praxe, muitos países representados e muita gente conhecida do festival, como os irmãos CoenTakashi Miike François Ozon.

O filme de abertura é a nova adaptação de O Grande Gatsby, dessa vez dirigida por Baz Luhrmann. A abertura é no dia 15 de maio.

Veja os selecionados:

Un Château en Italie, de Valeria Bruni-Tedeschi
Inside Llewyn Davis, de Ethan Coen e Joel Coen
Michael Kohlhaas, de Arnaud Despallières
Jimmy P. (Psychotherapy of a Plains Indian), de Arnaud Desplechin
Heli, de Amat Escalante
Le Passé (The Past), de Asghar Farhadi
The Immigrant, de James Gray
Grigris, de Mahamat-Saleh Haroun
Tian Zhu Ding (A Touch Of Sin), de Jia Zhangke
Soshite Chichi Ni Naru (Like Father, Like Son), de Hirokazu Kore-eda
La Vie D’adЀle, de Abdellatif Kechiche
Wara No Tate (Shield Of Straw), de Takashi Miike
Jeune et Jolie, de François Ozon
Nebraska, Alexander Payne
La Vénus à la Fourrure, de Roman Polanski
Behind the Candelabra, de Steven Soderbergh
La Grande Bellezza (The Great Beauty), de Paolo Sorrentino
Borgman, de Alex Van Warmerdam
Only God Forgives, de Nicolas Winding Refn

Resumo (6 a 12 fev)

melancholia-movie-posterMelancolia* (Melancholia, 2011). De Lars Von Trier

Irmão temático de A Árvore da Vida, o filme mais recente de Lars Von Trier também fala sobre a posição do Homem em relação ao Universo por meio de uma família, mas pode-se dizer que um pouco mais humano. Basicamente há três segmentos na narrativa: a introdução, com belíssimas imagens em câmera superlenta, bem ao estilo de Anticristo e muito parecidas com quadros pintados – inclusive com a imagem da noiva Kirsten Dunst saída de Ophelia, de Sir John Everett Millais -, e as histórias das irmãs Justine (Kirsten) e Claire (Charlotte Gainsbourg). É por meio delas e do planeta que dá nome ao filme (e que está em rota de colisão com a Terra) que Trier fala sobre a imbecilidade do Homem frente a algo que ele não tem ideia da dimensão, o Universo, e se preocupa demais com rituais, se esquecendo também do próprio Homem. A recepção do casamento de Justine, cheia de pompa e nenhum sentido, mina as forças do público na primeira hora de Melancolia e, ao que parece, só ela e a mãe parecem perceber o quanto tudo aquilo é vazio. Em seguida vem Claire, que é uma das responsáveis por organizar aquele tipo de evento e que mesmo no fim do mundo oferece à irmã uma taça de vinho como forma de “receber” o tal planeta. Apesar de não demonstrar fé na humanidade, o diretor consegue reservar para o final um momento sutilmente humanista com três personagens de mãos dadas, incluindo uma criança, peça crucial dessa ponta de esperança nas pessoas. Apesar de todo o mal-estar que o filme causa ser proposital, o ritmo arrastado é seu maior defeito, principalmente se levarmos em conta os mais de 130 minutos da produção. Nota: 8,5

*Filme assistido pela primeira vez


Crítica: A Pele que Habito

cartazes-lapielquehabitoDoentio é uma boa maneira de se definir A Pele que Habito (La Piel que Habito, Espanha, 2011), contudo é pouco para um filme que conta uma história bizarra sim, mas que, assim como O Segredo dos seus Olhos, fala de obsessões e vingança.

A narrativa é sobre Robert Ledgard (Antonio Banderas), um dos médicos de maior expressão no mundo, tendo participado da maioria dos transplantes de rosto do mundo e que criou um tipo de pele resistente ao fogo e a picadas de insetos. A cobaia do dermatologista é Vera (Elena Anaya), uma frágil e bela mulher literalmente talhada para receber o tegumento batizado de GAL.

A história envolve uma quantidade razoável de mistérios, revelados aos poucos pelo roteiro de Pedro Almodóvar, baseado no romance de Thierry Jonquet. Talvez por isso os pontos de viradas do roteiro sejam tão impactantes. Há dois deles, que marcam o início do segundo e terceiro atos da trama, sempre precedidos de ações fortes dos personagens. Seria impossível comentar a história sem revelar detalhes importantes.

Entretanto é impressionante a construção dos personagens que passam por A Pele que Habito. Seja na forma como cria um tipo de vilão vestido de Tigre, saindo do quase pueril ao delinquente completo, ou mesmo na trágica personagem que vai dar nome à pele artificial desenvolvida. Já no sentido mais óbvio do longa, a determinação obsessiva de Robert é o que chama mais a atenção, sempre agindo para se livrar de algo do passado de alguma forma, ele é capaz de tudo, até mesmo isolar uma pessoa para pôr em prática um plano secreto.

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Trabalhando também o distanciamento social, a produção mostra a solidão de várias formas, seja causada por um terrível caso envolvendo queimaduras, seja por meio da depressão da filha do médico e, por fim, no confinamento de Vera. Repare no momento em que o personagem de Banderas vai entrar no quarto onde ela vive: ele abre uma fresta tão pequena da porta que mal consegue passar.

Tendo ainda a ótima trilha sonora de Alberto Iglesias, misturando sons eletrônicos com cordas dramáticas, Almodóvar dirige de formas opostas, criando momentos de pesadelo gráfico, como um estupro, e outros que suavizam a realidade dura que se revela, a exemplo do lindo plano que msotra uma pessoa queimada através do balançar de uma cadeira.

Apesar do final não parecer original ou mesmo inesperado, a cena que fecha a trama e tudo aquilo que já se passou tem força o bastante para que esse seja um dos melhores longas do cineasta espanhol em muitos anos.

Nota: 9

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Crítica: A Árvore da Vida

thetreeoflife_posterA Árvore da Vida (The Tree of Life, EUA, 2011) é um filme sobre questionamentos e com poucas respostas. Terrence Malick vai fundo na dor dos personagens e além. Ele quer saber que dor é essa que  o homem sente, frente a um Universo tão grande. Qual o significado dela a não ser para nós mesmos?

As primeiras cenas do filme dão conta da morte de um dos filhos do casal vivido por Brad Pitt e Jessica Chastain. Já aqui,  Malick começa sua saga de imagens incrivelmente lindas. Chega a ser um absurdo ver como o diretor consegue extrair beleza de cada um dos fotogramas em meio a tanta lástima. A mãe chora, seus olhos estão vermelhos e inchados, surge a imagem de cabeça pra baixo das sombras de crianças brincando. A sombra da lembrança que seria boa, mas que causa sofrimento e por isso está invertida.

Essa lamúria é captada com closes nos atores, principalmente de Jessica, e imagens fragmentadas, num ritmo que vai dar a linha narrativa do filme. Um excelente trabalho de montagem, que aqui teve cinco profissionais, incluindo o brasileiro Daniel Rezende, de Cidade de Deus e Tropa de Elite.

Em outra frente, Malick mostra Sean Penn, filho crescido do casal, amargo, distante do pai e extremamente angustiado com a educação austera que teve. Para ressaltar tudo isso, entra em ação a impecável direção de arte. No futuro, Penn caminha por ambientes abertos, cheios de vidros e tem uma casa quase totalmente branca. Vazio em oposição ao passado, no que parece ser a década de 50. Há uma boa escolha de locações, por meio da vizinhança simples e de ruas bonitas, além de casas aconchegantes. Ajuda muito a fotografia de Emmanuel Lubezki, sempre iluminada como numa boa recordação.

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Mas é a partir dessa questão particular que o cineasta começa a perguntar se aquilo tudo é realmente significativo dentro de um contexto maior. A tese que ele elabora é que os seres humanos são partículas perdidas numa história muito anterior. São uma parte da Criação e não o Objetivo dela. Aí ele dá o maior salto no tempo desde 2001 – Uma Odisséia no Espaço, vai até a formação da Terra e segue a evolução da vida no planeta. Mas como já foi dito, esse é um filme de perguntas. O cineasta parece não ter tanta certeza da pequenez do ser humano dentro dessa criação, tanto que filma o nascimento do primogênito de Pitt e Jessica como um verdadeiro milagre, vide a incrível imagem do pequeno pé do bebê nas mãos do pai, como se dissesse que cada detalhe daquele ser é sagrado.

A Fé, então, parece ser o porto seguro das pessoas para que se mantenham firmes no pensamento de que o homem é o centro do universo. Uma Fé frágil, abalada na primeira grande provação: a perda do filho que a mãe ofereceu a Deus desde o nascimento. Outra tese contestada pelo próprio Terrence, na busca dos personagens por algo transcendental, que mesmo ao questionar Deus, atestam a existência de algo espiritual, a exemplo da linda e melancólica frase de Penn, “Irmão. Cuide de nós. Guie-nos. Para o fim dos tempos”.

Se não fosse um filme profundo, A Árvore da Vida, ainda continuaria sendo um triunfo estético, com sua câmera fluída, cheia de movimentos leves, mas constantes e a trilha sonora maravilhosa, de Alexandre Desplat, somada a óperas já existentes. As camadas do longa são tantas, que além da discussão transcendental e da forma, ele também é uma densa discussão das relações familiares, com um filho inconformado, um pai cheio de defeitos e que cobra força dos filhos, uma mãe subserviente, mas de amor absoluto e a proximidade inabalável dos irmãos. Mas este é apenas um aspecto do que se pode chamar de obra de arte.

Não se trata de um filme fácil, mas é um trabalho recompensador.

Nota: 9

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Há alguns anos…

Uma conversa com a Morte.

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Bengt Ekerot e Ingmar Bergman nos bastidores de O Sétimo Selo (1957)