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Vídeo Comentário #5 – Faroeste Caboclo e o preconceito

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Crítica: O Palhaço

opalhaco_cartazA história do palhaço triste, que, em oposição, faz a alegria das plateias circenses não é exatamente original. O fato do filme O Palhaço (Idem, Brasil, 2011) seguir esse rumo, mas ter Selton Mello à frente ajuda muito para que as coisas não descambem para o lugar comum.

Dirigindo apenas seu segundo filme, mas com uma bagagem gigantesca na frente e por trás das câmeras (diretor de clipes, programas de TV, roteirista e produtor), o ator (se é possível rotulá-lo apenas assim) consegue um trabalho agridoce, meio comédia/meio drama com a história de Benjamim, que no picadeiro se transforma em Pangaré, ao lado do pai, Valdemar, o palhaço Puro Sangue. Indo a fundo no questionamento do artista que sabe fazer rir, mas não tem ninguém que faça o mesmo por ele, a trama segue o caminho do pequeno circo do qual Benjamim faz parte.

Obcecado pela compra de um ventilador, o protagonista divide a narrativa com o olhar da pequena Guilhermina, a qual assiste a tudo o que se passa com a trupe atentamente. Ela ainda será responsável por um dos momentos mais belos do longa, demonstrando a inteligência do roteiro, também de Mello, junto a Marcelo Vindicato: ao dar força para a garota, certamente ela enriquecerá o filme no momento certo.

Aliás, a construção da “fauna” de personagens é muito esperta, salpicada de gente interessantíssima e, por vezes, bizarra. Os coadjuvantes se destacam. Moacyr Franco surge num monólogo absurdamente hilário como um delegado louco por seu gato, enquanto a prostituta vivida por Fabiana Carla brinca com a persona da comediante ao ser extremamente doce e manter a fala num tom baixo e meigo, o contrário do que a plateia está acostumada. Contudo, talvez o mais importante desses coadjuvantes seja Jackson Antunes, que entra em cena (muito bem) rapidamente para dar à narrativa a linha seguir: “O gato bebe leite, o rato come queijo e eu…”. As reticências são completadas por todos os minutos que compõe a história de O Palhaço.

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A direção de Selton é primorosa e quase peca pelo excesso de esmero. Quase, afinal, os belos enquadramentos simétricos (em que elementos são dispostos igualmente nos dois lados da imagem) são irretocáveis. Principalmente com os atores atuando de frente para câmera, numa ótima sacada do diretor, já que eles estão, em última análise, num picadeiro, voltados para o público. Para rivalizar em talento, apenas o próprio Mello atuando cheio de energia sob a lona, mas com ombros caídos e fala fraca fora dali, deixando clara a descrença que o abate.

Fechando o filme com um plano-sequência impecável, o filme ainda conta com a presença do “monstro cênico” Paulo José, o qual, mesmo com sinais do Mal de Parkinson, é mais ator que 98% do elenco de qualquer filme a chegar esse ano nos cinemas. Não à toa, a ele é reservado o papel do palhaço Puro Sangue.

Nota: 9

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Crítica: Nosso Lar

nosso-lar-posterNo Cinema, grandes orçamentos não são garantia de absolutamente nada. Michael Bay e seus Transformers de cifras monumentais, mas de qualidade inversamente proporcional, estão aí para provar. No caso de Nosso Lar (Idem, Brasil, 2010), com gordos 20 milhões de reais no bolso para a produção, nem o esmero visual que o próprio Bay põe à frente da trama é possível encontrar.

O filme, baseado no best seller homônimo do médium Chico Xavier, conta a saga de André Luiz (Renato Prieto) que, morto, vai do purgatório ao céu buscando a renovação da fé por meio de ensinamentos de espíritos que lhe acompanham durante a jornada.

Mas a realidade é que Wagner de Assis trabalha de forma quase amadora. Nos mais de cem minutos do longa, ele dá seguidos exemplos de seu despreparo na direção. Seja na falta de sutileza como na elipse dentro do bar em que André aproveita os “prazeres da vida” ao ter mulheres, bebida e cigarros à mão num primeiro movimento em travelling e está sozinho na volta da câmera. Ou na mais pura falta de cuidado como no instante em que um quarteto de cordas está em cena e os acordes feitos pelo violinista são tão falsos que até um leigo pode perceber.

Isso sem falar na péssima direção de atores. O talento natural de cada um conta mais que qualquer preparação de Assis. Veja o caso de Rosane Mulholland. Perceptivelmente menos talentosa que a maior parte do elenco, esteve em melhor forma em outros longas, mas aqui não passa de uma adolescente irritante e especialmente imbecil.

Presente do também roteirista Wagner de Assis. Tratando a história como uma grande palestra da doutrina espírita, sobra exposição e míngua a fluidez. Ambientado na maior parte do tempo no chamado Nosso Lar, colônia que acolhe espíritos em busca da redenção, as lições são passadas quase que em módulos a André (leia-se espectador), mas sem qualquer aprofundamento. Há uma cena em que o protagonista ouve uma “palestra” completa de certa ministra do lugar, que não chega a dois minutos, e em seguida comenta com outro espírito que não sabia que ali poderia haver tantas idéias impressionantes. Alguém deve ter perdido algo, já que nenhuma idéia impressionante é dita, a não ser que ele se refira ao polimento excessivo dos cumprimentos da ministra. E o que dizer de quando explode a II Guerra Mundial? Tomado como momento-chave, não passa de uma seqüência na qual vários espíritos são recebidos pelos habitantes do Nosso Lar, para depois ser totalmente esquecido.

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O projeto é tão perdido na vontade de ser grandioso que nem os efeitos visuais convencem – os quais devem ter consumido boa parte do orçamento. Quando não é claro o uso de chroma key, a exemplo da sala do governador, os efeitos se bastam em naves voando pelos ares e horizonte cortado por pássaros, além de paisagens que mais parecem ilustrações vistas do alto. Colabora para isso a direção de arte. Pobres, os cenários lembram ficções-científicas da década de 70 – inclui até mesmo camas suspensas saídas diretamente de Fuga do Século 23.

Fechando o pacote de escolhas erradas com uma trilha sonora etérea que não leva a nada e montagem descuidada e sem dinâmica, Nosso Lar ainda desperdiça o único momento que esboça emoção genuína. Na cena em que André revê a família e seu filho toca piano, a música diegética é substituída pela trilha piegas e a tudo é arruinado. Nem a boa atuação de Renato Prieto salva o momento.

Aliás, nem ele, nem a dinheirama gasta para uma produção cujo potencial é vasto, podendo ser explorado em vários gêneros. O escolhido não vai nem ao drama, nem ao terror, nem a qualquer outro, mas ao desperdício.

Nota: 4

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