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Descanse Eduardo Coutinho

Coutinho

Como ontem marquei a passagem de Philip Seymour Hoffman, hoje é dia de dar a justa lembrança do cineasta Eduardo Coutinho. Como bem indicado pelo amigo Silvio Vinhal, cheguei ao post do blog Trabalho Sujo, de Alexandre Matias, sobre o filme Um Dia na Vida, um dos últimos trabalhos do documentarista.

A produção é um recorte das 19 horas de gravações entre a manhã do dia 1° e a madrugada do dia 2 de outubro de 2009 em diferentes canais da TV aberta. O resultado final é uma montagem de 1 hora 35 minutos dessa miscelânea, que nunca foi exibido em circuito comercial por conta da grande dificuldade de conseguir tantos direitos de imagem, seja de comerciais ou de canais de TV.

Não importa, a internet tem dessas coisas que adoramos e Um Dia na Vida chegou ao You Tube. Vejam antes que tirem do ar.

Descanse Eduardo Coutinho.

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Curta: A Ira de um Anjo

Um filme que não tem muito a acrescentar como Cinema em si, mas muito com a crueza da narrativa de uma criança de 6 anos molestada que se torna um risco para a própria família.

A Ira de um Anjo começa com os gritos da menina Beth: “Quero te matar, mamãe!”. Por meio dos vídeos do terapeuta da criança descobrimos o motivo de tamanha agressividade da filha e as atrocidades que ela comete, como  enfiar alfinetes no irmão e esconder facas da mãe.

Em menos de 30 minutos, o documentário assusta por mostrar um retrato quase inimaginável de uma pessoa tão jovem – ainda que de estrutura nada surpreende e de final relativamente edificante.


Resumo (28 nov a 11 dez)

onceinalifetimeO Mundo aos seus Pés* (Once in a Lifetime: The Extraordinary Story of the New York Cosmos, 2006). De Paul Crowder e John Dower

Uma boa história, uma ótima realização visual e um assunto que tem tudo a ver com os brasileiros. Não é difícil gostar de O Mundo aos seus Pés.  A história do clube NY Cosmos, pioneiro no futebol (ou soccer) nos Estados Unidos, é rico de informação e exemplar na maneira como direciona um documentário para criar verdadeiros personagens de uma história não ficcional ao encadear fatos e falas dentro da narrativa. Se de um lado existem os heróis Steve Ross, grande mentor do time, e Pelé, a maior estrela; de outro, os diretores Paul Crowder e John Dower não hesitam em apontar o atacante italiano Giorgio Chinaglia como grande vilão do filme. Exceto pelos inúmeros gols, o jogador e seu ego são invariavelmente expostos de forma não muito positiva, como quando pede para que o empresário carregue sua televisão até o quarto do boleiro. Enquanto isso, a ascensão do Cosmos leva consigo todo o futebol dos Estados Unidos a um patamar nunca pensado antes, no fim das década de 1970. O grande trunfo do documentário, no entanto, está na  montagem fluída e dinâmica feita por Crowder. A quantidade de boas imagens de arquivo somadas aos inúmeros efeitos de uma montagem estilizada fazem o longa ser gostoso de assistir. A produção ainda dá uma pincelada aqui e ali no momento histórico no qual está inserido e guarda um detalhe interessantíssimo ao elencar todos os entrevistados nos créditos finais: ao mostrar uma foto de Pelé, lembra que o atleta não quis dar entrevista. Nesse momento sobe um letreiro com o som de uma caixa registradora. Simples e que dá o recado sobre o motivo aparente da falta do depoimento do maior futebolista de todos os tempos. Nota: 8,5

*Filme assistido pela primeira vez


Hail! Hail! Rock ‘n’ Roll

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Justin Bieber não é rockeiro, fato. E já que vou tratar de um tema que acho tão particular, pensei que seria uma boa ideia começar falando de algo que é consenso. O tema? Bem, se o mancebo canadense que vira a cabeça de muitas garotinhas e garotinhos resolveu atacar também no Cinema, resolvi relembrar alguns documentários rockers  de conteúdo parecido com o de Never Say Never, que traz o rapaz de franjinha contando como superou suas dificuldades até chegar ao estrelado.

Como é? Ele cortou o cabelo? Sem problemas…

Quais seriam as dificuldades enfrentadas, só vendo o filme para saber – se é que elas existem. Mas fato também é que, antes do 17 anos, Bieber conseguiu algo que o The Band só realizou depois  de mais de uma década de estrada: um documentário sobre vida e obra. Para quem não sabe, o The Band foi um influente grupo de folk rock que acompanhou Bob Dylan durante algum tempo e lançou músicas como “The Weight” considerada uma das 50 melhores de todos os tempos pela revista Rolling Stone. Comparar o peso dos também canadenses com Bieber é o mesmo que comparar as carreiras dos cineastas que filmaram os documentários de ambos. Enquanto Never Say Never é dirigido por Jon Chu, de Ela Danço, Eu Danço 2 e 3, O Último Concerto de Rock (ou The Last Waltz) é assinado por ninguém menos que Martin Scorsese, sim aquele carinha que já dirigiu Os Infiltrados, Os Bons Companheiros e Taxi Driver. A arquitetura de ambos é parecida: enquanto acontece um show, imagens de arquivo e/ou entrevistas também são mostrados, revelando mais sobre os artistas. A diferença básica é que O Último Concerto de Rock registra o fechar das cortinas de um dos grupos mais importantes do Rock, enquanto Never Say Never trata da chega no topo de Justin Bieber.

OK, a comparação pode ser injusta, mas é notório que o astro teen ganhe um filme com status de blockbuster sobre a carreira. Sinal dos tempos, já que hoje a música não vive sem a imagem e, convenhamos, Bieber é tão imagem quanto, dança e música.

Mas cada um tem o astro das massas que merece. Na década de 60 quem arrastava multidões insanas era o The Beatles. O fab four foi um verdadeiro fenômeno entre as adolescentes da época e justamente por isso existe o falso documentário Os Reis do Iê-Iê-Iê. Nele acompanhamos a rotina de fugir das fãs e ser quem são, além de um sem-número de apresentações dos rapazes de Liverpool. A meninada amou, a crítica também – Roger Ebert, um dos maiores críticos ainda vivos, relacionou o filme em seu Top 100 – e os Beatles ainda continuariam a fazer Cinema no não tão amado assim Help! e no psicodélico Yellow Submarine.

Os Rolling Stones também já foram protagonistas de alguns documentários, um deles nas lentes de Jean-Luc Godard. One Plus One (ou Sympathy for the Devil) mostra o grupo em gravações enquanto discute temas com forte apelo à época e papos sobre arte. Não focado exatamente no grupo, mas cuja história mais pungente trata dos Rolling Stones, ainda há Gimme Shelter. O filme ficou famoso pela sequência em que Mick Jagger e companhia assistem a uma grande briga na qual a gangue Hell’s Angel’s, que fazia a segurança para os Stones, e o público saem no braço resultando na morte de quatro pessoas.

Continuando no pique dos Stones e voltando a falar de Scorsese, o diretor captou um grande show dos caras há alguns anos e soltou outro doc., Shine a Light, este sim, buscando obsessiva e lindamente capturar os melhores momentos da banda no palco. Antes disso, Martin ainda tinha feito um filme sobre Bob Dylan, No Direction Home.

E já que você não viu nenhum desses filmes-documento e está anotando todos para depois assistir – assim espero –, acrescente às suas anotações aquele que dá título a esse texto: Hail! Hail! Rock ‘n’ Roll. É Chuck Berry mostrando porque é um dos maiorais com a guitarra na mão. Um documentário divertidíssimo que termina numa apresentação do inventor do passo do pato (ou “duck walk”) ao lado de Keith Richards.

Bom, mas alguém deve ter percebido que eu escrevi no primeiro parágrafo que falaria de docs com “conteúdo parecido com o de Never Say Never”. O que a vida de Lennon, Jagger, Robertson, Dylan e Berry têm a ver com Bieber? Na verdade nada, a não ser o fato de eu querer ter vivido nas décadas de 60 ou 70 para poder berrar ao som de um medalhão do Rock nos cinemas e não ter que ouvir “Baby, baby, baby oooh!”.

*Texto originalmente publicado na Resvista Meio & Midia CULT (ed. 70) – Março de 2011

last waltz


Resumo (21 fev a 6 mar)

LastAirbenderPoster2O Último Mestre do Ar* (The Last Airbenber, 2010). De M. Night Shyamalan

Não que este seja o pior filme de M. Night Shyamalan (há A Dama na Água na frente), mas em filmes como o fraco Fim dos Tempos o problema estava principalmente no roteiro, o que também acontece aqui, porém sem qualquer lampejo daquele bom diretor que ainda criava boas sequências. Nessa adaptação do desenho animado “Avatar”, tudo é muito morno e corrido, não há espaço para os personagens, os quais simplesmente seguem a trama sobre grupos que dominam elementos da natureza em guerra. À espera de um messias para balancear as forças, o filme vai revelando que o salvador pode ter chegado, mas mesmo dando gancho para uma continuação Shyamalan não consegue se aprofundar nos dramas, nem na ação e seu roteiro acelerado ainda deixa buracos fenomenais – se a Nação da Terra consegue fazer aquele estrago no acampamento de trabalhos forçados da Nação do Fogo, por qual motivo não fez antes? -, isso sem contar a direção de pouca inspiração, que cria apenas um bom momento, já no final, quando Aang cria uma gigantesca barreira de água. Um desperdício de material. Nota: 5,5

metal_a_headbangers_journeyMetal – Uma Jornada pelo Mundo do Heavy Metal (Metal – A Headbanger’s Journey, 2005). De Sam Dunn, Scot McFadyen e Jessica Joy Wise

Uma análise interessante e divertidíssima do mundo heavy metal feita por um antropólogo apaixonado pelo estilo musical. E as coisas vão além, trata-se de um modo de viver analisado em suas origens, influências, componentes e comportamento. Assim, é surpreendente saber que muitos dos rockeiros surgem em ambientes problemáticos financeiramente ou o quanto a música considerada pouco sofisticada tem pontos em comum com compositores clássicos como Wagner. No sentido cinematográfico é maravilhosa a fusão de “Prelúdio e Fuga em Dó Menor”, de Bach, com “Eruption”, do Van Halen, a certa altura do longa. Além do estudo da cultura headbanger, Metal ainda reserva uma verdadeira aula para quem quer conhecer mais sobre as inúmeras ramificações do gênero, feito por gente que entende do riscado: de Bruce Dickinson, do Iron maiden, ao sinistro Gaahl, do Gorgoroth, passando pelo esquisitaço Necrobutcher, pelo divertido Dee Snider e pelo boa praça Ronnie James Dio. Vale cada batida de cabeça. Nota: 8,5

knight_and_day_posterEncontro Explosivo* (Knight and Day, 2010). De James Mangold

Eu já disse que sou fã de exageros à lá Carga Explosiva e Adrenalina, mas o que acontece em Encontro Explosivo é justamente o contrário do que pretendem os dois filmes anteriormente citados: se levar à sério. Neste verdadeiro veículo para o charme de Tom Cruise as cenas de ação são cheias de “forçações de barra”, mas nada daquele tipo que fez a fama de Jason Stathan, e sim daqueles que fizeram a derrocada de Arnold Schwarzenegger em O Último Grande Herói. Você pode até achar estranho dizer isso de um filme que quer ser só bem humorado, mas Encontro Explosivo se leva bem à sério, tentando criar um super agente hiperbólico no início da trama, ele vai se tornando um cara que negocia demais para quem pode dar saltos gigantescos em motos e atirar com 100% de precisão. O ritmo alucinante na abertura dá lugar a um jogo de gato e rato sem graça aos poucos, já que exige-se um romance entre Cruise e Cameron Diaz – uma relação que ainda guarda aquele rompimento estratégico lá pelas tantas apenas para criar algum tipo conflito. E já que toquei no assunto, incrível como o roteiro estica um ponto de partida que daria no máximo um curta-metragem para mais de 100 minutos. Chato, exagerado e sem mojo. Nota: 5

cartazoficialacapitaldosmortosA Capital dos Mortos* (Idem, 2008). De Tiago Belotti

Tosco, engraçado e divertido, A Capital dos Mortos não é um bom filme, mas é legal. A trama: Brasília é invadida por zumbis e grupo de amigos tenta se manter vivo. Os atores: todos de segunda ou terceira – sei lá se são profissionais. A direção: criativa, mas descuidada – a cidade passa pelo apocalipse, mas há vários carros andando normalmente pelas ruas. O roteiro: criativo, mas clichê do início ao fim – narrativa fragmentada, entes tendo que ser mortos, teorias manjadas para explicar a invasão dos mortos, etc. E apesar da tosqueira, o longa é daqueles feitos para ser assim, mas não produzidinho como um produto buscando um nicho, está claro que foi feito na raça e capricha na podreira quase que involuntariamente. Não há a profundidade que George Romero um dia teve, porém não há picaretagem. O projeto é independente, saído da cabeça do diretor Tiago Belloti e filmado inicialmente com apenas uma câmera. O parto do longa foi de 27 meses e teve inúmeros colaboradores que tinham o único objetivo de ser um zumbi na eficiente maquiagem da produção. Para saber mais acesse o site de A Capital dos Mortos. Tem até DVD à venda. Nota: 7

*Filme assistido pela primeira vez


Crítica: Senna

Senna Doc posterDocumentário também é cinema e como tal deve abusar de imagens – tanto quanto de seus entrevistados – para obter um bom resultado. Senna (Idem, Reino Unido, 2010), então, torna-se quase um tipo de cartilha nesse quesito.

Em nenhum momento os entrevistados do filme dirigido por Asif Kapadia dão as caras. As imagens são casadas com seus depoimentos em off, deixando que elas falem por si. Não que isso seja um modelo fechado, entretanto a verdade se torna maior quando se pode ver a imagem sem a intromissão de alguém falando à câmera. Ou melhor: em diversas passagens, o longa tira por completo as narrações e a seqüência de imagens fazem o trabalho. Brilhantemente, por sinal. Quando o off anuncia a primeira mudança de equipe de Senna na Fórmula 1, vemos uma McLaren em primeiro plano que, ao ser colocada nos boxes, dá lugar à imagem da Lotus pela qual o brasileiro disputaria a temporada de 1985. Um instante genial, afinal, brinca com a idéia de que a antiga escuderia vermelha e branca será o futuro, mas até lá Ayrton ainda faria história com o carro preto.

A propósito, a história que deu origem ao mito Ayrton Senna é entendida facilmente e inebria de tal forma que não espanta o documentário esquecer-se de pintar o lado mais humano do brasileiro. Assim, surge um personagem quase sem defeitos. Sempre com uma fé inabalável, ele é mostrado preocupado com a segurança de seus companheiros – é um dos primeiro a correr ao circuito quando da morte de outro piloto – e evita a qualquer custo a chamada “politicagem” da F-1, que, aliás, macula a pureza do atleta quando o tira do sério. Em dado momento, Ron Dennis lembra que ele era bom de pista, mas não na política do esporte.

Mas dentro do carro não há como negar que Senna estava num patamar diferente dos demais corredores. Vide o GP de Mônaco de 1984, o qual só não venceu devido à interrupção pedida por Alain Prost por causa da chuva, e a emocionante primeira vitória no Brasil, em 1990, quando o documentário, depois de mostrar todos os problemas que o carro teve no câmbio, se concentra nos gritos de comemoração de Senna via rádio.

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Deixando clara a rivalidade e posterior inimizade entre Alain Prost e Ayrton Senna, a produção passa a maior parte do tempo, falando (e provando) de que maneira a influência do francês dentro do comando da FIA afetava a relação. A certa altura, o então presidente da instituição que controla da F-1, o também francês Jean Marie Balestre, desclassifica o piloto brasileiro por ele ter voltado à pista após um toque entre os carros claramente causado por Prost no GP de Suzuka, em 1989 – assim ele venceu o campeonato. Essa foi uma das maiores decepções do brasileiro, que chegou a cogitar não correr mais.

Briga que se torna totalmente irrelevante quando o documentário passa a contar o trágico fim de semana no qual Ayrton morreu. Diminuindo o ritmo e se tornando claramente mais sombrio, Senna passa por todos os acontecimentos que anteciparam o acidente do piloto: a batida cinematográfica de Rubens Barrichello, a morte de Roland Ratzenberger durante os treinos, um atropelamento nos boxes e a preocupação estampada no rosto de Senna antes do GP de San Marino.

E se minutos antes Senna contava que no cockpit se sentia numa dimensão diferente e a imagem o segue na câmera on board até que uma batida o traz de volta à realidade, a mesma lógica é usada na volta em que o piloto perde-se na curva Tamburello. Com a visão de dentro do carro, o diretor Asif Kapadia faz com que o espectador siga, bem ao lado de Ayrton, os momentos finais do mito. A rima visual é sinistra, mas o que se segue é a consagração de um esportista que virou mais que foco de torcida, mas símbolo de um país. Arrepiante e triste.

Nota: 8,5

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