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Nostalgia cinematográfica

Quase Famosos - Penny Lane

Você certamente já ouviu dizer que um filme serve como válvula de escape da realidade. Não é para menos, afinal, a arte é assim como um todo. O Cinema dá movimento ao que a Literatura descreve ou ao que a Pintura também pode fazer. O Teatro faz isso, mas de outra forma. No entanto, o que realmente me chamou a atenção, pela terceira vez em dois anos, foi como um filme pode reconectá-lo a determinada época e como certas lembranças ficam enraizadas (ou idealizadas) em sua memória, vindo a ressurgir ao colocarmos os olhos em determinada produção anos depois.

Lembro de uma amiga, ainda no colegial, dizer que precisava ver um filme que lhe fizesse chorar. Ela andava com problemas familiares sérios e como éramos muito ligados naquela época, percebia como essa amiga vinha se sentindo angustiada. Bom, ela encontrou o filme que lhe tirou da realidade e lavou sua alma por alguns instantes pelo menos: À Espera de um Milagre. Um belo filme, realmente. Mas essa é a típica sensação que nos leva ao Cinema: que sejamos tirados de nossos mundos e sejamos apresentados a outros, de maneira física, histórica ou imaginária.

Revi recentemente Quase Famosos, um filme que fala de algo que particularmente gosto muito, o rock. Só que dessa vez, não foi a música que me prendeu, mas a nostalgia, a qual me fazia voltar à primeira vez que o assisti. Não sei bem qual era o ano, sei que que foi após 2002. Havia formado um grupo de amigos muito unidos e estávamos, como de costume, fazendo uma daquelas reuniões de quem não tem muita grana, mas sabe o que quer. Bebíamos na casa de uma outra amiga e depois comíamos o sofrido macarrão feito por mãos e mentes alcoolizadas. Ninguém reclamava e todos se divertiam. Foi uma noite agradável, que terminou com a história de uma banda fictícia e algumas histórias reais do mundo rock.

Mas isso se passou há mais de uma década – e lá ficou. Tenho contato esparso com um ou dois membros daquele grupo e não sei do destino de boa parte deles. Eu tinha entre 18 e 20 anos e ainda procurava um rumo para minha vida profissional, mas achava que aquela história, entre meus amigos, duraria ainda muito tempo. Não foi o caso. Sei que quando a groupie Penny Lane entra em cena, com o rosto iluminado de Kate Hudson, um recorte veio à minha mente daquela e outras noites de sábado do início da década passada entre uma cerveja e outra. A trilha sonora do filme, então, não ajudava a esconder certa tristeza de perceber que nada é para sempre. Era bem o tipo de música que ficava empurrando para o resto da turma: rock setentista com muito Led Zeppelin. E não há como esquecer o sofá macio da casa alheia enquanto os pais da pessoa estão fora da cidade ou simplesmente não ligam para o que se passa na sala entre aquela molecada que não parecia amadurecer.

Não sou de acreditar em coincidências ou em destino, mas chega a ser irônico que poucos dias antes de rever Quase Famosos, também esteve na gaveta do meu blu-ray Conta Comigo. Talvez o filme mais nostálgico e belo que o cinema americano produziu em mais de cem anos. E lá estava eu me lembrando da minha infância e das tardes na casa da minha avó assistindo à Sessão da Tarde. Com menos de 12 anos eu procurava por aventuras como a dos quatro amigos do filme, hoje tento me lembrar dos meus colegas antes da adolescência.

Spirited Away

Foi assim com esses dois longas, foi diferente com A Viagem de Chihiro. Exceto pela saudade, claro. A animação japonesa revi em 2011. O longa de Hayao Miyazaki tem dois componentes que me deixariam emocionado de qualquer forma. O primeiro deles são as inúmeras cenas contemplativas de campos abertos ou inundados depois de uma forte chuva. O segundo é o belíssimo desfecho da trama, quando a protagonista descobre uma relação muito mais próxima com seu amigo Haku. De qualquer maneira, quando, novamente pude assisti-lo, era eu quem estava em uma época conturbada, em que muita coisa tinha mudado na minha vida e eu não sabia muito bem para onde ir. As coisas não iam bem e era minha vez de estar angustiado e me sentir um tanto solitário naquelas paisagens. Mas eu não tive a alma lavada ou entrei em qualquer catarse. Foi só melancolia.

Sim, filmes são válvulas de escape. Mas é difícil não chorar quando eles te levam a momentos tão importantes de sua vida. Maldita realidade. Maldita nostalgia.

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Crítica: O Lado Bom da Vida

silver-linings-posterPat (Bradley Cooper), protagonista de O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook, 2012, EUA), passa as duas horas do filme falando em viver positivamente. Muito bem. O diretor David O. Russel conseguiu fazer um dos melhores “feel-good-movies” de 2012 com a história do personagem. Com simplicidade e focado apenas em pessoas, é aquela típica história que tem seus defeitos, mas que eleva seu humor de tal forma que é quase impossível não esperar os créditos com um sorrisão na cara – ou algumas lágrimas.

Pat tem um diagnóstico de transtorno bipolar, cujas principais características, no caso dele, são explosões agressivas, hiperatividade e a fixação pela ex-mulher Nikki. Ele passou oito meses numa clínica psiquiátrica e a trama o surpreende ao receber alta da unidade sob a responsabilidade dos pais. O objetivo dele é entrar em forma e se controlar para que consiga voltar para a antiga companheira. Isso até a chegada de Tiffany (Jennifer Lawrence), outra pessoa que teve problemas psiquiátricos e que tenta se refazer depois da morte do marido.

É claro, desde que Bradley e Jennifer trocam os primeiros diálogos na casa de um amigo em comum que há tensão entre eles e você percebe que dali pra frente haverá um relacionamento a ser construído. É bem verdade que existirão clichês nessa construção, mas eles estão inseridos numa série de elementos tão bons, que não conseguem minar a força da produção.

O mais importante em tudo são atuações do elenco, que é uniforme em sua qualidade. O casal principal, claro, recebe mais destaque. Cooper está focado em sua agitação e com olhar vivo o tempo inteiro, enquanto Lawrence fecha a cara e está afiadíssima ao disparar suas falas. Por ser quem é, Robert De Niro acaba chamando a atenção, mas o trabalho dele, ao contrário de muitos outros ultimamente, sai do automático e não precisa de sua persona truculenta. O que se vê na tela é um homem preocupado com o filho e com a família e, vejam só, frágil até certo ponto – demonstrando isso através de suas idiossincrasias. E nada como ver uma boa participação de Chris Tucker relativamente contido e Julia Stiles na pele de uma perua – papel diferente em seu currículo. Todas as atuações juntas ajudam a criar a  deliciosa dinâmica estabelecida no núcleo familiar de Cooper, que se torna natural e altamente próxima do espectador.

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Ajuda muito os personagens terem características próprias em um meio em que quase todo mundo aparenta necessitar de um tratamento psicológico/psiquiátrico. De Niro obviamente tem Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), o amigo de Pat vivido por John Ortiz tem uma casamento que o sufoca e ele precisa descarregar sua frustração com MetallicA e Megadeth no porão e a mulher dele é obcecada por etiqueta. Russel também é o roteirista, adaptando o livro de Matthew Quick, e só não consegue ser melhor por afunilar sua história no velho clichê de mal entendido de amor resolvido rapidamente com uma declaração.

Mesmo problema para o qual descamba a boa direção dele. Sempre com a câmera no ombro, ele é ótimo em andar com ela de um lado para o outro, mas sempre com o olhar para seus atores. O que deixa momentos em que a própria imagem diz algo ainda mais especiais. Seja num pequeno desvio de enquadramento para mostrar a aliança na mão de Cooper durante as seções de terapia ou no plano subjetivo durante o concurso de dança no último terço do filme. Pena que ele não consegue evitar rodopiar um casal se beijando num momento terno.

De resto, a trilha sonora continua o caminho que O Vencedor seguia, músicas famosas que marcam muito bem a cena na qual são inseridas. Assim como foi “Strip My Mind”, do Red Hot Chili Peppers, no trabalho anterior de Russel, aqui há “What Is And What Should Never Be”, do  Led Zeppelin. Ela marca bem um surto de Pat, talvez o momento mais forte do longa, mostrado de maneira original, evocando sentimentos angustiantes com relação à situação sem a necessidade de uma trilha sombria demais – ou melosa.

Nota: 8

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Crítica: Argo

argo-poster1Argo (Idem, EUA, 2012), mais cinematográfico, impossível, tanto no trocadilho, quanto em sua história fantasiosamente real. Veja bem: aqui há uma trama que envolve tensões políticas de alta voltagem entre Estados Unidos e Irã, no fim dos anos 70, e um resgate que seria absurdo se não fosse verdadeiro, ainda que baseado numa falsa ficção-científica de segunda categoria.

O filme começa em 1979, com a queda do xá Mohammad Reza Pahlavi do governo iraniano e o asilo político dado pelos americanos ao ex-ditador. Insatisfeita, parte da população ligada ao aiatolá Khomeini invade a embaixada dos Estados Unidos em Teerã. Seis funcionários conseguem escapar e recebem abrigo na embaixada do Canadá. A retirada deles é a missão do personagem de Ben Affleck. Uma missão que será desenvolvida da maneira mais peculiar possível: forjar a busca de locações exóticas para as filmagens de um longa que se passa em outro planeta.

Também atrás das câmeras, o diretor Affleck é inteligente o bastante para criar dois polos para seu filme. Se de um lado filma a invasão à embaixada com câmera no ombro e lança mão de imagens “amadoras” para criar realismo, a partir do momento em que o plano de criar o falso filme é iniciado, o tom muda, a fotografia de Rodrigo Prieto fica mais viva e até a trilha sonora acompanha a virada, incluindo músicas menos dramáticas de grupos como Dire Straits e Van Halen.

Nessa hora, brilha a incrível atuação de Alan Arkin, como o produtor do Argo fajuto. Ele mistura sabiamente um tom debochado com relação ao plano e uma preocupação genuína com relação ao futuro dos envolvidos. Repare como ele responde a um repórter sobre do que se trata o filme, durante a coletiva de apresentação do projeto, transparecendo incredulidade em relação à proporção que aquilo vai tomando e caindo a ficha de que, mesmo sim, pode funcionar.

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Essa passagem também guarda o momento que melhor demonstra a ambiguidade da situação. Em um único movimento de câmera, o diretor deixa a festividade de lado e chega à cozinha do salão, onde a fotografia é fria e na TV passa a declaração de uma iraniana, enquanto, paralelamente, os reféns da embaixada são torturados.

Mas como já citado, Argo não é só cinematográfico por ter um filme dentro do filme. A metalinguagem vai mais longe e tem um prólogo que conta a história de ascensão e queda de ditadores por meio de storyboards. Os quais vão dialogar com um importante momento do longa no terço final. Ele ainda traz personagens reais do mundo do Cinema, como o maquiador John Chamers, vencedor do Oscar por O Planeta dos Macacos, de 1968. Ele é vivido muito bem por John Goodman.

E depois de tanto brincar entre o absurdo de tudo aquilo e ainda cutucar os Estados Unidos por ter criado aquela situação, Affleck ainda é capaz de amarrar uma série de situações para dificultar a remoção dos seis americanos que deixaram a embaixada antes da invasão. Não que esses percalços sejam todos orgânicos à trama, mas são tensos o suficiente para te levar a roer as unhas e funcionam como conflito para fazer a trama andar e render bons momentos.

Pena que o roteiro de Chris Terrio não consegue fazer muito pelo protagonista do filme. Affleck, de barba, dorme usando terno, aparenta desânimo e tem problemas de família. Tudo isso para criar certa simpatia com o personagem, mas com problemas que nunca são explorados como deveriam. No fim, você não sabe de onde surgiram e para onde foram. Sorte que o verdadeiro conflito do longa é muito maior e muito melhor que isso.

Nota: 8

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Trailer “vazado” de The Girl With The Dragon Tattoo

Apesar de ser gravado direto da tela, o trailer da versão de David Fincher para The Girl With The Dragon Tattoo tem algumas características que levam a acrer de que não se trata de um trailer vazado, mas sim de uma ação da MGM e Columbia. Os principais são a boa qualidade da imagem, ainda que “pirateada”, e a falta de som ambiente, muito comum em gravações de tipo.

De qualquer forma, é um preview dos mais bacanas com uma versão arrepiante de ‘Immigrant Song’, do Led Zeppelin, feita por Trent Reznor e Atticus Ross e uma montagem que segue milimetricamente a batida da música. Um teaser sem concessões e bem empolgante, apesar de achar desnecessário mais um filme baseado no primeiro livro da trilogia Millennium, escrita por Stieg Larsson e que já ganhou um bom filme em terras suecas.

*Comentário de Última Hora: The Feel Bad Movie of Christmas? Muito bom!

UPDATE: Tiraram o trailer do ar, mas aqui você pode assistir com censura.