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Crítica: Branca de Neve e o Caçador

snowwhiteandthehuntsman_posterBranca de Neve e o Caçador (Snow White and the Huntsman, EUA, 2012) não peca pela falta de originalidade, mas repete um grande erro de Alice no País das Maravilhas: a falta de empatia com a protagonista. Não é à toa que a nova versão do conto de fadas seja produzida por Joe Roth, a mesma pessoa que viabilizou o filme de Tim Burton em 2010 e que aqui divide o posto com Sam Mercer e Palak Patel.

Dessa vez a batuta ficou a cargo do cineasta Ruper Sanders, estreante no posto. Ele não se sai mal na maior parte do tempo e tem uma direção discreta, mas não consegue esconder pequenos problemas de posicionamento de atores no espaço da cena e não tira grandes atuações do elenco. Kristen Stewart, na pele alva da personagem-título, está sem sal e mal abre o semblante durante todo o longa, mantendo a expressão fechada até ao ser coroada. Sua antagonista, a Rainha Ravenna de Charlize Theron, também é sabotada, tendo que estabelecer uma fala solene e empostada, que descamba num sotaque rocambolesco, o qual a atriz não consegue fazer sem parecer que tem uma batata quente na boca.

A produção investe numa identidade mais adulta e estabelece um ambiente mais hostil, procurando, inclusive, ter ritmo menos corrido e não fazendo tanto barulho em momentos-chave. Repare como o beijo do amor verdadeiro de Branca de Neve quase chega a ser sutil. As cenas de ação estão lá e são muitas, tentando ser encaixadas à trama de forma orgânica para não comprometer o ritmo mais lento do filme, contudo é um mistério a existência de toda a sequência em que um troll quase dá cabo do Caçador, sendo finalizada com um berro de Branca de Neve sem mais nem menos.

O roteiro de Evan Daugherty, John Lee Hancock e Hossein Amini chega a homenagear o clássico Disney, criando sua versão dark e alucinógena da fuga da princesa pela Floresta Negra, completada pela criação de imagens bizarras e nauseantes, que pagam um belo tributo às árvores que tentar “agarrar” Branca de Neve no filme animado da década de 1930.

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Por outro lado, os roteiristas não conseguem dar à protagonista nem um terço do carisma que Walt Disney conseguiu colocar na sua obra. Tudo bem que Kristen não ajuda, mas a princesa aqui não faz muito por si, da mesma forma que houve sempre alguém para fazer o trabalho para Alice, há dois anos. Ela segue o Caçador e se torna uma donzela indefesa que não combina com a proposta de personagens fortes do filme. Apenas a título de comparação, o Caçador brucutu de bom coração vivido por Chris Hemsworth consegue estabelecer uma ligação mais forte com a plateia tendo como pano de fundo apenas uma esposa morta clichê e uma piadinha auto-depreciativa – “Não vê que estou me banhando?”.

Nem a bela variação da fotografia – indo das cores delicadas para o azul frio do reinado de Ravenna -, nem os toques sombrios do filme – o Espelho como entidade encapuzada, as paisagens rochosas no castelo sob o bater das ondas – conseguem salvar a produção da monotonia. E olha que o desenho de produção capricha nos ambientes, criando um mundo de conto de fadas, mas com castelos realísticos e moradias camponesas de um universo paralelo quase tangível. O problema é acreditar na fuga de Branca de Neve com a ajuda de pássaros e na “sorte” da moça em ter um cavalo selvagem tinindo de branco à espera dela pela floresta.

Ah! E no meio disso tudo tem os sete anões em grande elenco. Difícil vai ser encontrar Ian McShane, Bob Hoskins, Ray Winstone e Nick Frost debaixo da maquiagem.

Nota: 5,5

P.S. Só eu achei que o personagem William, encarnado por Sam Claflin, o Caçador e Branca de Neve formavam um triângulo amoroso com resquícios de Crepúsculo?

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Crítica: Espelho, Espelho Meu

mirrormirror_poster_02Em termos de intenção, não é possível recriminar a versão do conto de fadas da Branca de Neve que Espelho, Espelho Meu (Mirror Mirror, EUA, 2012) tentou ser. Não se trata de uma refilmagem do clássico Disney, ele procura personalidade inserindo várias modernidades no conto dos irmãos Grimm, seja na própria protagonista, menos moça assustada e mais astuta, seja na Rainha, menos megera e mais sarcástica. É pena que a maior parte das inovações tenha ficado no campo da vontade ou simplesmente não funcione.

A começar pelos anões, que mudam de nomes, em determinado momento saqueiam o próprio Príncipe e são bons de briga, além de darem um jeito de se tornarem maiores com extensões nas pernas. Contudo, o mais importante foi deixado de lado: eles não têm personalidade própria, são anões de contos de fadas simplesmente. Não são nem os arquétipos criados por Walt Disney, os quais sobravam encanto, cada um à sua maneira, onde não havia grande profundidade.

Enquanto isso, a esperada Rainha vivida por Julia Roberts, ainda que tente ser irônica e mordaz, acaba sabotada pelo quão rasos são seus comentários, a exemplo da narração na linda animação que abre o longa-metragem: ela tenta levar um ar de deboche, mas falta acidez. Algo que contrasta em exagero com a graciosidade e o sorriso radiante de Lily Collins na pele alva da personagem principal. E vá lá que a Branca de Neve nem é tão radicalmente modificada, tendo uma ou outra cena de ação, mas que é aquela mesma apaixonada sofredora de sempre.

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Isso sem contar em algumas inexplicáveis escolhas da produção, como os figurinos altamente afetados que, no fim das contas, parecem querer ser apenas bizarros. Se no início há um vestido da Rainha que se confunde com o trono, a extravagância dele não passa nem perto do mau gosto da escolha das fantasias usadas num baile. O figurinista Eiko Ishioka parece ter gostado tanto do cisne que Björk vestiu na cerimônia do Oscar de 2001, que criou sua própria versão e vestiu em Lily. Estranhíssimo. Fora que que as cores claras predominantes na cena praticamente apagam a protagonista nos enquadramentos abertos do salão. Algo que só perde para o inacreditável tratamento de beleza da Rainha, que inclui titica de pássaros no rosto e vermes nas orelhas.

Para fechar, os roteiristas Jason Keller e Melisa Wallack tiveram a belíssima ideia de fazer o longa menos machista (bom) e para isso transformaram o Príncipe vivido por Armie Hammer num galalau adorado pelas mulheres, mas que passa por poucas e boas antes do “felizes para sempre”. Só que fazê-lo se tornar, literalmente, um cachorrinho é estúpido e desnecessário.

Pelo menos a música-tema, já nos créditos finais, é divertida e uma boa sacada do diretor indiano Tarsem Singh (de Imortais) para incluir uma pitada de sua terra natal na produção.

Nota: 5,5

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